Crítica | A Mão do Diabo (2001)

estrelas 4

Digo e repito: não é preciso grandes efeitos especiais para manter o público fielmente ligado ao enredo de um filme. Basta uma boa história, personagens cativantes, diálogos inteligentes e a boa narrativa está quase pronta: adicione ao requisitado uma direção no mínimo mediana, uma trilha que sublinhe a imagem, mas que também saia do lugar-comum. Eis a receita para um bom filme. A Mão do Diabo, guiado pelo ator Bill Paxton em sua estreia na direção, com roteiro assinado por Brent Hanley, segue à risca esta proposta.

O filme começa o agente Wesley Doyle (Powers Boothe) recebendo uma testemunha que alega saber informações sobre o caso investigado no momento, ou seja, o rastro de sangue do serial killer “Mão de Deus”. O cidadão, Fenton Meiks (Matthew McConaughey), surge como uma pessoa que sabe detalhes dos crimes. Logo, afirmará que seu irmão Adam é o assassino, mas que recentemente cometeu suicídio.

É a partir dai que intrigado, Doyle senta-se para escutar o que a testemunha tem a dizer, mesmo que tudo soe estranhamente oriundo de uma mente fértil, típica de um contador de histórias. É quando começam os flashbacks. Somos levados à Costa Leste do Texas, em 1979, período em que Fenton e seu irmão Adam (Jeremy Sumpter) vivem com o seu pai, o multitarefa Bill Paxton, aqui, na função de ator e diretor.

Tudo parece normal na vida daquelas crianças, órfãs de mãe, até que um dia o seu pai os acorda afirmando que foi visitado por um anjo e que na visita o arauto deixou a seguinte tarefa a ser executada: eliminar do mundo os demônios que habitam a terra através da forma humana. É só uma questão de tempo para o pai destrinchar corpos diante do filho, através de um machado “abençoado”, e aos poucos, transmitir a missão aos filhos através de um tutorial prático e efetivo.

Os corpos das vítimas são deixados no jardim. As pessoas que estão neste processo, segundo o patriarca, são pecadores (basta que ele toque no corpo da pessoa para que veja os seus mais sujos “segredos”). Enquanto Adam, o filho mais novo, mantem-se convicto da missão, o filho mais velho acredita que o pai esteja louco e logo travará uma batalha para enfrenta-lo. Entre idas e vindas ao passado e ao presente a narrativa nos envolve numa penumbra de mistérios com um desfecho genial.

Ao brindar o espectador com uma narrativa cheia de dualidades, tais como fé x razão, morte x vida, céu x inferno, dentre outras, A Mão do Diabo nos prende até o seu final, numa trama bem amarrada e intensa. Podemos até não saber explicar como e em que ponto específico, mas há um clima “Alfred Hitchcock” na trama, o que a deixa ainda mais atraente.

Bill Paxton não faz malabarismos na direção, mas também não fica devendo a muitos cineastas experientes e suas bobagens descerebradas. A sua primeira experiência nos bastidores foi em um filme de Roger Corman, o rei dos filmes B, marco da história do horror no cinema. Ao longo dos 100 minutos, A Mão do Diabo segue com a sua direção na média, auxiliada pela montagem de Arnold Glassman, através de flashbacks em profusão, mais de 50% do filme, recurso que ao menos, preenche lacunas, ao invés de servir apenas como reboco para dramas superficiais.

E diferente do que se convencionou realizar nos últimos anos, o plot twist não é apresentado como ferramenta apenas para surpreender, mas como complemento narrativo. Depois de O Sexto Sentido e Os Outros, tal recurso dramático se tornou uma febre na malha das produções. O problema é que nem todo mundo sabe usar. Às vezes, utiliza-se como uma alternativa de dar um desfecho altamente surpreendente para um filme medíocre. No caso de A Mão do Diabo, tal alternativa vem na função de cereja do bolo.

O campo dos filmes de terror precisa de mais filmes assim. O filme ind000retamente oferece um debate sobre a existência de Deus, sobre os acontecimentos cotidianos estarem ligados à sorte ou a um planejamento de vida devidamente organizado por um ser protetor, guia dos nossos passos na terra, além de abrir espaço para discussões calorosas sobre questões inflamáveis na sociedade contemporânea, tal como o fundamentalismo religioso, celeuma que dizima milhares de pessoas constantemente, em vários pontos do planeta.

A Mão do Diabo (Frailty) – EUA /2001.
Direção: Bill Paxton
Roteiro: Brent Hanley
Elenco: Bill Paxton, Matthew McConaughey, Powers Boothe, Matt O’Leary, Jeremy Sumpter, Luke Askew, Levi Kreis, Derk Cheetwood, Missy Crider
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.