Crítica | A Máquina do Tempo (1960)

estrelas 3,5

A Máquina do Tempo, primeiro romance de H.G. Wells, que posteriormente nos presentearia com obras como Guerra dos Mundos e a Ilha do Dr. Moreau, foi um ponto crucial na história da ficção científica, não só popularizando o conceito de viagem no tempo, como cunhando o termo máquina do tempo em si. Publicado em 1895, o livro ganhou sua primeira versão cinematográfica em 1960, através de um filme de mesmo nome dirigido por George Pal, sete anos após a adaptação A Guerra dos Mundos.

A história, já conhecida amplamente, gira em torno de H. George Wells, naturalmente homenageando o autor da obra original, um cientista devoto em realizar a primeira viagem no tempo da história. Ao apresentar um modelo de sua máquina para colegas acadêmicos, a ideia é recebida com incredulidade e desdém, ao não representar qualquer benefício imediato para a coroa, tanto mercadologicamente quanto militarmente. Wells, todavia, não desiste e decide embarcar ele próprio em uma jornada ao futuro. A narrativa ocorre em forma de flashback, conforme o cientista relata suas experiências vividas nos anos pós virada do século (1900) e até mesmo séculos e milênios depois. Curiosamente, o roteiro de David Duncan não transporta a trama para seu tempo contemporâneo, visando uma maior fidelidade ao romance no qual é baseado.

A tecnologia completamente analógica da máquina do tempo é o primeiro ponto que nos chama a atenção. Estamos lidando, afinal, com uma criação do final do século XIX/início do XX – de uma gigante roda atrás da máquina até assentos de veludo a noção chega a nos cativar desde o princípio, rememorando o que veríamos posteriormente no steampunk, um avanço tecnológico muito a frente de seu tempo. A transição de minutos, horas e anos é feito através do stop motion e do time lapse, efeitos que, hora ou outra, soam completamente datados mas que garantem um aconchegante charme à produção. Ouso dizer que a viagem em si é o ponto alto da história, nos prendendo completamente, nos fazendo perguntar o que vem a seguir, por mais que o cientista demore a sair de seu veículo.

Nesse ponto, o roteiro de Duncan triunfa, explorando as duas guerras mundiais (que obviamente não estão presentes no livro) e fixando um caráter antibelicista ao filme. O mundo que Wells encontra no futuro é fruto dos horrores ocorridos na primeira metade do século XX, marcando em nós o conceito de que se continuarmos de tal forma iremos alcançar uma espécie de apocalipse, regredindo a estados primordiais do ser humano, porém de maneira consideravelmente distorcida. É claro que a Guerra Fria entra na jogada, especialmente na cena ocorrida nos anos 60, que define o ponto de ruptura da narrativa.

O que vem a seguir, milênios após, chega a ser assustador à principio e até mesmo enervante, considerando a forma como a raça humana evoluiu. Aqui, somos atingidos de vez, mas, ao mesmo tempo, começamos a perder nossa atenção. As sequências aqui ocorridas caem na mesmice do “galã salva a donzela em perigo” e um romance forçado é instituído, como se a obra perdesse o foco. Os morlocks, que deveriam ser assustadores, hoje em dia simplesmente causam uma nítida incredulidade, considerando sua retratação incerta. O conceito em si causa tensão, mas sua execução deixa a desejar, típico exemplo de algo que não envelheceu bem. A tensão criada pela separação do médico de seu transporte, dificilmente choca o espectador e esse apenas não vê a hora dele voltar para seu tempo presente.

Felizmente, a sequência final resgata o primor narrativo ao trabalhar, mesmo que em segundo plano, o efeito da viagem em Wells. Após ver o que vai acontecer em seu futuro, irá ele permanecer imóvel e apenas esperar os terríveis eventos ocorrerem? Ou irá ele para o longínquo futuro para resgatar sua autonomia e trilhar seu próprio caminho? Tal dilema garante uma evidente coesão à obra, ao passo que esse questionamento já fora apresentado nos minutos iniciais da narrativa. O conceito de destino e livre arbítrio é interessantemente trabalhado, deixando um final em aberto perfeito para a obra.

A Máquina do Tempo pode não ser um filme perfeito, mas certamente é obrigatório para qualquer apreciador da ficção científica. Seus problemas são nitidamente eclipsados pelas suas grandes qualidades e profundas indagações. George Pal, portanto, nos traz uma excelente adaptação que perdura até hoje, nos fazendo, verdadeiramente acreditar que um homem conseguiu percorrer a quarta dimensão.

A Máquina do Tempo (The Time Machine – EUA, 1960)
Direção:
George Pal
Roteiro: David Duncan (baseado no romance de H.G. Wells)
Elenco: Rod Taylor, Alan Young, Yvette Mimieux, Sebastian Cabot, Tom Helmore, Whit Bissell
Duração: 103 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.