Crítica | A Menina Que Brincava com Fogo, de Stieg Larsson

plano critico a menina que brincava com fogo livro

Depois do grande sucesso de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2005), uma das coisas que mais se esperava era a continuação da saga escrita por Stieg Larsson, que se tornou absurdamente popular em seu país de origem e rapidamente conquistou o mundo. A esta altura, o autor já enfrentava constantes ameaças de extremistas na Suécia, descontentes com a maneira crítica e de denúncia de crimes contra as mulheres que a obra da Série Millennium (até então, prevista como trilogia, mas com grandes planos de expansão) fazia.

O ponto de partida aqui é o status financeiramente muito confortável de Lisbeth Salander, após a investigação de Wennerström, no primeiro livro. Muitíssimo mais lento do que deveria, o começo de A Menina Que Brincava com Fogo vai jogar com essa nova vida da hacker e, por um breve momento, o leitor tem a impressão de que tudo está certo, mesmo que a sensação de uma tempestade se formando no horizonte jamais nos abandone — algo que, de fato, acontece, pois enfrenta-se um furacão na primeira parte, a coroação simbólica do que está por vir. Neste bloco, contamos com um acréscimo muito grande de descrições de cenários e de elementos não necessariamente imprescindíveis dos personagens, tornando o início do volume consideravelmente mais difícil de digerir, problemática que volta, em menor grau, no desfecho.

É com a proposta de uma longa reportagem intitulada From Russia with Love, que trata de tráfico de mulheres na Suécia e na Europa como um todo (uma parte da história cujas raízes e críticas às instituições têm raízes na Guerra Fria) que o livro começa a se acelerar e aí estamos em um terreno que conhecemos bem, se compararmos ao que vimos no volume anterior. Primeiro, o autor deixa de lado a construção de “férias bilionárias” dada a Lisbeth no começo e recoloca a personagem em um cenário de ação, reforçando algo que se lançou no começo desse A Menina… Todas as atenções então se voltam para a esquiva, egoísta e não raramente violenta personagem. E por Lisbeth ser alguém tão forte e tão magnética, o mesmo foco se tornaria a base para o livro seguinte, A Rainha do Castelo de Ar, que basicamente é a profusão de consequências do que acontece neste segundo tomo.

Quando a tempestade enfim cai, no terceiro bloco do romance, o leitor quase não consegue manter o fôlego. Daí para frente o livro se torna engajante e a série de acusações vindas de uma queima de arquivos (os dois jornalistas que denunciavam o tráfico de mulheres) estendem os seus tentáculos para todos os lados. Como jornalista, Larsson consegue uma notável exposição de como o Estado (através de promotores, juízes e policiais) e de como o comportamento da imprensa podem colaborar para perpetuar ou criar injustiças tremendas, especialmente no quesito de condenação prévia de indivíduos, baseada em convicções morais (aqui, o leitor se enraivece com o machismo da condução do processo e a exposição de manchetes como “A Gangue Lésbica e Satanista“) ou em interesses criminosos dos donos do poder.

Na reta final, há uma considerável desacelerada e algumas pontas — talvez pontas demais — são deixadas para o terceiro livro, que consegue um melhor trabalho em organizar todos os conflitos e, de certa forma, finalizá-los. Duas coisas que me incomodam mais nessa reta final são as repetição de ideias, especialmente vindas depois de críticas muito sólidas e bem realizadas; e do exagero do autor em relação à estupidez dos policiais, com o intuito de fortalecer a impressão de “invencibilidade” de Lisbeth. Ainda em relação aos personagens, Mikael Blomkvist é igualmente afetado, perdendo bastante daquela pose de “cara legal mas, como todo humano, passível de erros” e ganhando ares de príncipe encantado. Não é algo crônico, mas sensível em comparação ao volume anterior, e que segue na primeira parte de A Rainha do Castelo de Ar, embora se resolva bem ao final.

A Menina Que Brincava com Fogo é um livro sobre os mais fracos e desajustados contra um sistema viciado. Não é um calhamaço livre de falhas, mas com certeza nos garante uma leitura engajada e alucinante.

A Menina Que Brincava com Fogo (Flickan som lekte med elden) — Suécia, 2006
No Brasil: Companhia das Letras, 2009
Autor: Stieg Larsson
Tradução: Dorothée de Bruchard
Páginas: 607

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.