Crítica | A Mentira (2010)

estrelas 4

Há uma nítida diferença entre o tipo de comédias adolescentes que encontramos hoje com aquelas dos anos 80. Não defendo que atualmente só tenhamos besteirol e nenhuma profundidade, afinal uma comédia pastelão como Superbad – É Hoje! impressiona pela delicadeza com que retrata a separação de melhores amigos, ao passo em que não foi só de John Hughes que a geração passada viveu; tendo sua dose ingrata de besteiróis estúpidos. A Geração Z claramente oferece uma dificuldade narrativa com a inclusão da internet e as ferramentas de comunicação mais imediatas: aquela piada de que se Clube dos Cinco fosse adaptado aos dias atuais, os alunos ficariam o tempo todo no celular, é a perfeita ilustração disso.

Tudo isso para finalmente chegarmos à A Mentira, uma pérola subestimada que foi condenada ao mercado de home video no Brasil e que merece ser redescoberta imediatamente, já que representa a síntese perfeita entre essas duas gerações, ainda que grite pelo retorno da anterior.

Assinado por Bert V. Royal, o roteiro nos apresenta à Olive (Emma Stone), uma jovem carismática que acaba enrolada quando rumores falsos acerca de sua promiscuidade começam a se espalhar pela escola. Vendo ali uma chance de se divertir e até “ajudar” algumas pessoas, ela passa a construir toda uma reputação ruim e falsa a seu respeito, inspirando-se no clássico romance A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne.

Eu sei, minha reação ao ouvir essa premissa provavelmente seria a mesma da maioria: fugir para as colinas. Clichê. Draminha adolescente de colegial. High School Musical, sem o musical e Zac Efron. Porém, quem ficar vai acabar surpreendido. O filme de Will Gluck é um acerto fenomenal de linguagem, ritmo e diversão, tudo isso graças – principalmente – à força gigantesca da personagem de Olive. O texto de Royal simplesmente flui ao revelar uma jovem muito mais inteligente e madura do que a maioria, mas que soa como um ser humano real e palpável.

E, claro, isso se deve à Emma Stone. Na época, a atriz já havia tido participações relevantes em Superbad e Zumbilândia, mas foi aqui que realmente a vimos assumir o papel de protagonista e os pedaços de cérebro voaram longe com essa explosão de carisma que merece ser definida como um Tour de Force. Stone interpreta Olive com muito humor, sarcasmo, exagero, dúvidas e até uma dose certeira de drama, tornando impossível não se afeiçoar pela personagem e querer passar mais tempo com ela quando os créditos começam a subir. Performances cômicas costumam ser subestimadas, mas o que Stone faz aqui é um dos melhores trabalhos de atuação do cinema americano desta década, e tenho um pingo de felicidade ao ver que pelo menos a um Globo de Ouro a moça foi indicada.

A decisão de fragmentar a narrativa em uma série de depoimentos para uma webcam, a fim da protagonista justificar tudo o que havia feito até ali só nos acrescenta mais envolvimento com a personagem, já que é uma forma sutil de literalmente quebrar a quarta parede e oferecer mais insight sobre sua situação. Quando Olive abraça a metalinguagem e deseja que sua vida fosse dirigida por John Hughes, citando Clube dos Cinco, Gatinhas e Gatões, Namorada de Aluguel, Digam o que Quiserem e Curtindo a Vida Adoidado vemos não só um divertido paralelo com sua situação, mas também com as mudanças do gênero high school americano.

Mas ainda que Olive seja o centro absoluto, há destaque para excelentes coadjuvantes. De cara, os pais vividos por Stanley Tucci e Patricia Clarkson ganham pontos pela irreverência e garantem pequenas piadas divertidíssimas; a naturalidade e ausência de julgamentos típicos desse tipo de figura quebram o estereótipo da figura paterna no gênero de forma excepcional. Amanda Bynes também surge apropriadamente caricatural como uma fanática religiosa, enquanto Thomas Haden Church e Malcolm McDowell firmam-se como boas pontas de luxo.

No fim, A Mentira é um filme que merece ser descoberto dada sua leveza e força narrativa, além de trazer Emma Stone em uma performance irretocável e que dificilmente será esquecida.

A Mentira (Easy A, EUA – 2010)

Direção: Will Gluck
Roteiro:
Bert V. Royal
Elenco: Emma Stone, Amanda Bynes, Stanley Tucci, Patricia Clarkson, Thomas Haden Church, Lisa Kudrow, Dan Byrd, Penn Badgley, Malcolm McDowell
Duração: 92 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.