Crítica | A Metade Negra

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A ideia do gêmeo parasita utilizada dentro do gênero terror pode ser bastante interessante, pois ganha, para além do impasse médico que isso tem na realidade, uma fora de desenvolver um enredo a partir da visão do duplo ou da Tulpa (como é especialmente o caso aqui, com direito até a psicopompos — guias espirituais no mundo físico, representados por animais), o que sempre é uma ideia rica dentro da ficção. No caso de A Metade Negra (1993), temos a adaptação de um livro de Stephen King, escrito em 1989, que aborda esse tema dos doppelgangers dentro do Universo da criação literária, inspirando-se em um caso muito particular para o autor.

O famoso pseudônimo de King, Richard Bachman, é o vilão indireto do livro que gerou este filme. Consta que à época, King estava em processo de desintoxicação de um longo período de uso de álcool e diversas outras drogas, um período que marcou sua vida e sua carreira. O autor já chegou afirmar que nem lembra direito de ter escrito Cão Raivoso (Cujo, 1981) e que passou madrugadas em alto consumo de cocaína durante o processo de escrita de Os Estranhos (1987), sem contar o fato de não saber o que fazia nos sets de Comboio do Terror (1986), porque esteve a maior parte do tempo drogado, o que afetou diretamente a sua capacidade de direção, pois, se existia alguma, ela não veio à tona naquela ocasião.

O fato é que passando por tratamento e estando em fase de recuperação, o autor se sentia seguro para expiar os próprios demônios em um livro e por isso veio a ideia de um tipo mais sombrio de gêmeo parasita em A Metade Negra. Era como se King olhasse para quase uma década inteira de sua vida em que passou drogado e visse que, mesmo produzindo, estava destruindo a si mesmo, enquanto fortalecia essa sua outra parte, que não se contentava, cobrando cada vez mais. E como sempre acontece quando um autor usa elementos de sua própria vida em uma ficção qualquer, vieram os exageros, as modificações e criações próprias do gênero terror. O que era um tormento pessoal, tornou-se, na história, um martírio em larga escala, afetando a todos em volta de Thad Beaumont, que após se chantageado por alguém que descobrira seu segredo, resolveu revelar para o público que ele era o famoso escritor George Stark. Aqui, porém, o gêmeo parasita, depois dito como uma manifestação maligna do próprio Thad (uma Tulpa, em outras palavras) não aceita “morrer” e começa um contra-ataque.

Escrito e dirigido por George A. Romero (escolhido principalmente por sua facilidade em trabalhar com baixos orçamentos), que naquele começo de década só tinha assinado um segmento para o filme Dois Olhos Satânicos (1990), A Metade Negra é claramente dividido em dois atos de uma hora cada um. No primeiro, temos o estabelecimento da família Beaumont, interpretada por Timothy Hutton (em boa atuação no papel de Thad e excelente atuação no papel de George Stark) e Amy Madigan, que tem uma participação apenas “ok” na obra. Pais de um casal de gêmeos (notem como é boa a ideia de ciclo e repetição de padrões, inclusive tendo um bom peso no filme, como na reta final, quando a metade negra de Thad segura os bebês no braço, ameaçando-os), a dupla verá sua pacata vida se tornar um pesadelo.

É por isto que o primeiro ato é a melhor parte do filme. A direção não é interrompida pelos momentos risíveis dos pardais a todo o tempo e há um motor psicológico ativo, com cenas familiares cortadas por cenas de assassinatos que, pelo básico sentido da montagem de atrações, conseguem criar uma boa atmosfera, garantindo que o longa, a despeito do segundo ato, fique acima da média. O que vem depois é apenas um exagero que era de se esperar vindo de uma obra de King adaptada pelas mãos de Romero. A qualidade geral da obra cai porque a busca pela metade negra de Thad perde o lado psicológico e se torna simplesmente uma máquina assassina, cheia de ameaças e servindo ao modelo básico do mal pelo mal, ajudado pelos sustos da trilha sonora e por uma ótima maquiagem, que fica pesada a cada momento que a Tulpa vai perdendo força.

O final da obra é patético, apesar de não apagar a busca do protagonista para se ver livre de sua pior parte (ou uma delas). Além da já citada interferência insana dos pardais (isso certamente funciona bem na literatura, mas no filme não tem o mesmo efeito) e a sugestão de que os pássaros e os restos da metade negra vão para uma dimensão paralela, quase destrói o próprio conceito de criação do doppelganger como força do pensamento de Thad, sendo, portanto, uma manifestação de força maligna presente em nosso próprio mundo, não enviada do além. Isso só funcionaria se este conceito fosse narrativamente construído para nos dar tal impressão no final. Mas ao vermos concluída a obra, notamos que se mantém um olhar amedrontador e intrigante sobre a dualidade que existe em todos nós, especialmente naqueles que trabalham inventando e nutrindo personagens, o que não deixa o próprio protagonista livre dele mesmo. É quase um milagre que não tenham capitalizado em cima disso.        

A Metade Negra (The Dark Half) — EUA, 1993
Direção: George A. Romero
Roteiro: George A. Romero (baseado na obra de Stephen King)
Elenco: Timothy Hutton, Amy Madigan, Michael Rooker, Julie Harris, Robert Joy, Kent Broadhurst, Beth Grant, Rutanya Alda, Tom Mardirosian, Larry John Meyers, Patrick Brannan, Royal Dano, Glenn Colerider
Duração: 122 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.