Crítica | A Metamorfose (2002)

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Adaptar A Metamorfose, para qualquer mídia, é um desafio e tanto. Talvez a obra mais conhecida de Franz Kafka, este livro foi escrito em 1912 e lançado em 1915, pouco depois do início da Primeira Guerra Mundial. Em suas páginas, a trajetória de uma família entre o horror e a angústia de ver uma transformação, ganha vida. E tudo começa com Gregor Samsa, que ao acordar em um dia que deveria ser um “dia normal de trabalho”, vê a si mesmo, na cama, transformado em um monstruoso inseto.

Nesta adaptação russa de 2002, com direção de Valeri Fokin, que co-escreveu o roteiro ao lado de Ivan Popov, temos uma quase silenciosa — ou melhor, sem diálogos — versão cinematográfica do inquietante livro. A trama começa com Gregor (maravilhosamente interpretado por Evgeniy Mironov) voltando para casa, após uma de suas viagens a trabalho. Em pouco minutos, o espectador percebe que está diante de uma obra mais sensorial do que literal. Há muitos simbolismos escancarados, outros sugeridos e uma interessante ausência de narração ou diálogos. O destaque é para o barulho da chuva, que serve para marcar uma chegada e, ao mesmo tempo, uma partida, pois esta será a última “noite humana” de Gregor Samsa.

O espectador não deixa de estranhar o ponto de partida da história. O roteiro hesita em colocar Gregor em cena, fazendo-o caminhar um longo trajeto da estação de trem até a sua casa, em plena chuva, com uma pequena mala na cabeça. Não é algo comum para o início de uma obra como esta e, a bem da verdade, não é um recurso de grande serventia, porque o que havia para ser sugerido já estava ali, com a chuva. Sem diálogos e sem um trabalho particular da fotografia para sugerir alguma cosia, a longa caminhada de Gregor é o primeiro momento ruim da história, vindo depois de alguns minutos iniciais interessantes. Se há algo bom que podemos tirar daí é o modo estranho de Gregor caminhar ou correr, uma mistura de saltos e batida de pés de Chaplin e um pouco de dança.

Com a chegada de Gregor em casa, a trama volta a nos despertar interesse. O texto é bastante fiel ao livro daí pra frente, fazendo apenas as adaptações situacionais necessárias e relativizando toda a abordagem do “inseto monstruoso”, sobre a qual falarei mais adiante. Da família Samsa, o único que surge com grande exagero é o pai (Igor Kvasha), com uma construção bastante teatral e afetada, um pouco “a mais” para o que esperamos de um personagem cinematográfico em uma adaptação onde já existe um protagonista “exagerado” — e digo isso porque se a intenção aqui fosse teatral, a atuação de Kvasha cairia como uma luva. Mas não é o caso. Já a mãe e a irmã de Gregor recebem leituras muito interessantes das atrizes Tatyana LavrovaNatalya Shvets, respectivamente. Como o elenco é pequeno, o diretor pode trabalhar cada personagem com destaque no espaço da casa, aproveitando a sugestão claustrofóbica da obra original e tornando o tormento da família algo cada vez mais intenso e opressor, onde a casa parece ser pequena demais para a mesma quantidade de pessoas.

Então temos a escolha dramatúrgica para a representação de Gregor transformado. Foi interessante ver o “bicho” como uma formação do próprio corpo do jovem, o que exigiu muito do ator Evgeniy Mironov para movimentar dedos e braços (principalmente) de uma maneira que sugerisse as patas de um tipo extraordinário de inseto. A edição e mixagem de som também se destacam nessa construção, colocando ruídos e afinações muito curiosas para os sons que Gregor emite nessa forma corpórea. A princípio, isso é um pouco “estranho” para o espectador, que esperava um animal de verdade, mas é preciso lembrar que a metamorfose do livro possui uma variedade de possibilidades, e a que temos no filme, é apenas uma delas. O diretor também se aproveita das expressões faciais do ator, mas infelizmente se afasta demais dele na reta final do filme, a ponto de não nos mostrar o Gregor-inseto por cenas inteiras, nem no momento de sua morte, o que não faz absolutamente nenhum sentido. Como Gregor é o centro das atenções, recebe total foco da câmera e tem um ótimo ator fazendo com o próprio corpo uma imensa transformação, cabe a pergunta do por quê o diretor acreditou ser interessante a retirada do personagem de cena a partir de determinado momento, dando a notícia de sua morte e seus últimos suspiros pelos olhos e boca de outra pessoa.

A sugestão final, de “libertação” de Gregor, foi outro grande erro da última parte. Até ali, os momentos de desprendimento e prazer do personagem tinham sido as memórias dos tempos felizes (todas muito bem fotografadas e dirigidas) e as cenas com a irmã tocando violino, contendo um certo cinismo do diretor ao mostrar que a garota era boa apenas aos ouvidos de Gregor, mas na verdade, ela era uma péssima violinista. Ao fim, o tratamento dado ao protagonista não foi uma escolha sábia do roteiro, especialmente porque é nesse ponto que o livro cai de qualidade, com a família “curtindo o dia” depois da morte de Gregor. Fica, porém, a memória dos bons momentos do filme, principalmente o miolo, onde acompanhamos, com o coração na mão, a descida de Gregor ao inferno da rejeição por se transformar em algo diferente, que ninguém em sua casa entendia. Uma crônica de desamparo, desespero e morte, situações que, infelizmente, compõem a história de muitos “insetos monstruosos” pelo mundo a fora.

A Metamorfose (Prevrashchenie) — Rússia, 2002
Direção: Valeri Fokin
Roteiro: Valeri Fokin, Ivan Popov (baseado na obra de Franz Kafka)
Elenco: Evgeniy Mironov, Igor Kvasha, Tatyana Lavrova, Avangard Leontev, Natalya Shvets
Duração: 83 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.