Crítica | A Morta-Viva (1943)

Antes de se tornarem ágeis e comedores de carne humana, os zumbis eram personagens retratados através de perspectivas diferenciadas do que conhecemos na contemporaneidade. Sabemos da importância de George A. Romero para a história dos filmes de terror, mas é preciso mergulhar mais profundamente e entender que antes de A Noite dos Mortos Vivos e seus derivados, como por exemplo, The Walkind Dead, Guerra Mundial Z, Madrugada dos Mortos, etc. há uma linhagem de filmes que abordam estes mitológicos personagens sob outra ótica.

Lançado em 1943, A Morta-Viva surge na esteira dos sucessos dos estúdios Universal. Os monstros conseguiram provar que o gênero era uma das apostas mais lucrativas no campo da sétima arte e por isso, a extinta (mas não menos importante) RKO recrutou o diretor francês Jacques Tourneaur para comandar a produção.

O filme é narrado por Betsy Connell (Frances Dee), uma enfermeira canadense contratada para cuidar da esposa de um proprietário de um engenho de açúcar, localizado no Caribe. Marcada por questões sociais ligadas aos processos de colonialismo, o espaço é habitado por brancos que ocupam postos como médicos e policiais, enquanto os negros são descendentes de antigos escravos, em suma, pessoas ainda vitimadas pelos males causados pela diáspora africana.

A presença no local não muda muito a vida de Betsy até o dia em que ela acorda de madrugada e escuta o choro de uma mulher. Ao sair dos seus aposentos, ela se depara com Jessica Holland (Christine Gordon), a esposa catatônica do dono do engenho, Mr. Paul Holland (Tom Conway), envolta numa camisola branca a circundar a torre da casa. Não vai demorar muito para a enfermeira começar a desconfiar que algo além do seu inicial diagnóstico de enfermidade mental pode estar por detrás dos acontecimentos misteriosos posteriores.

Após tentar alguns métodos “tradicionais” para ajudar na reconstrução da saúde mental de Jéssica, os envolvidos no tratamento decidem levar a moça ao local onde os nativos praticam o vodu, no intuito de buscar ajuda espiritual para a resolução dos problemas. Zumbis catatônicos caminhando à passos lentos demarcam a produção, focada na tensão psicológica.

No que tange aos aspectos narrativos, o filme não faz feio. Apesar do baixo orçamento, consegue empregar um excelente trabalho graças ao apoio da fotografia em preto e branco e o competente trabalho de iluminação. Outro ponto técnico que cabe ser ressaltado é o som do filme. Os envolventes sons dos tambores tocados pelos nativos e os assustadores “ventos uivantes” ajudam na construção da tensão. Hoje pode até ter pouco impacto, haja vista que estamos inseridos em um contexto com tamanha intromissão do som para impactar, principalmente para provocar os tais “sustos fáceis”, mas a sutileza aqui faz a diferença.

A Morta-Viva possui paralelo com Jane Eyre, romance de Charlotte Bronte, narrativa ambientada em castelos, adornada por um clima de mistério e repleta de cenários e situações bem próximas do estilo gótico literário-arquitetônico. A obra traça um perfil da mulher no século XIX: personagens inquietas, cansadas de sua condição limitada em relação ao homem e em busca de emancipação e novos rumos. Apesar de não creditado, há registros em sites especializados e em estudos acadêmicos que atribuem essa ressonância da obra literária ao filme dirigido de forma competente por Jacques Tourneur, uma produção com 69 minutos de duração e muito mistério.

 A Morta-Viva é uma prévia do que os zumbis se tornariam ao serem adaptados pela cultura pop nas décadas seguintes: uma espécie de mitologia dentro da história do cinema, porém captada por enquadramentos mais próximos ao terror à moda antiga. Há gritos de horror, sombras misteriosas e tensão mais concentrada nos diálogos, além do bom trabalho de som, uma das características mais comuns dos filmes deste gênero.

Se você estiver interessado em ir além e aprofundar nas reflexões sobre o filme, vale a pena pensar como o vodu e as práticas africanas espalhadas pelo mundo afora ganharam lugar nos roteiros de filmes deste tipo. Além deste tópico, discutido brevemente na critica ao filme A Chave Mestra, há também o debate entre cientificismo e feitiçaria, maniqueísmo bastante comum na seara dos filmes de terror. Como curiosidade, A Morta-Viva ganhou refilmagem em 2002, intitulada Ritual, com a presença da sumida Jennifer Grey, a mocinha de Dirty Dancing – Ritmo Quente. Esquecível, a produção não emplacou e chegou ao Brasil direto no mercado de VHS – DVD.

A Morta-Viva (I Walked With a Zombie) – Estados Unidos. 1943.
Direção: Jacques Tourneur.
Roteiro: Curt Siodmak e Ardel Wray, baseados no argumento de Inez Wallace.
Elenco: James Ellison, Tom Conway, Frances Dee, Edith Barret, James Bell, Darby Jones, Theresa Harris, Christine Gordon, Jeni Le Gon.
Duração: 69 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.