Crítica | A Morte Cansada

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Lançado em 1921, A Morte Cansada, obra que chamou a atenção do mundo para Fritz Lang, é um filme bem atípico dentro do Expressionismo Alemão. Os cenários tipicamente germânicos tão comuns ao movimento dão lugar a ambientações de outros locais e trabalham com questões muito mais filosóficas do que os temas políticos e sociológicos que se percebiam em outros filmes do Expressionismo, no caso, as temáticas Universais do amor e da morte.

A trama acompanha um casal apaixonado (Lil Dagover e Walter Janssen) prestes a se casar. Quando um homem misterioso (Bernhard Goetzke) compra um terreno na cidade próximo a um cemitério e o cerca com um muro, o noivo desaparece. Desesperada, a jovem procura o seu amado pela cidade, só para vê-lo cruzar os muros como um fantasma, percebendo que o misterioso proprietário é a Morte. A jovem suplica à Morte que devolva o seu amado, e esta resolve dar à garota uma oportunidade. Apresentando três histórias de amor que foram interrompidas pela morte, a entidade promete devolver a vida do noivo se a jovem conseguir dar um desfecho diferente a pelo menos uma destas histórias.

A Morte Cansada (também lançado no Brasil com o título de Pode o Amor Mais Que A Morte?) é de um projeto muito pessoal de Lang, por ter sido produzido pouco tempo depois da morte de sua mãe. Escrito pelo próprio diretor em parceria com a sua esposa e colaboradora habitual Thea Von Harbou, o filme se apresenta como uma antologia (onde os amantes sempre são interpretados pelos mesmos atores da história-moldura) com tramas situadas em lugares diversos, como em um povoado islâmico, na Veneza Renascentista e na China Imperial, mas todos ligados pela mesma temática, uma saga de amor interrompida pela morte.

O roteiro de Lang e Von Harbou persegue a Universalidade dos seus temas ao situar a ação principal “em algum lugar em alguma época”, o que chegou a gerar críticas ao filme por “não ser alemão o suficiente” em um período histórico onde o país tentava reafirmar a própria identidade. A história parece problematizar o que seria verdadeiramente o amor, parecendo sugerir que em suas versões romantizadas o amor realmente não é capaz de derrotar a morte e, somente se não voltar-se apenas para si mesmo, este sentimento teria alguma chance contra a inevitabilidade da Morte, o que é uma visão muito curiosa e madura para um filme da década de 1920. Embora as três histórias possuam certo caráter melodramático e verborrágico (o que é percebido pelo excesso de intertítulos), e nunca se tornem tão interessantes quanto a história-moldura, elas se enquadram dentro das reflexões propostas pelo filme.

Os aspectos visuais são impressionantes, começando pelos cenários. O enorme muro que cerca a propriedade da Morte, que surge gigantesco diante dos outros personagens, parecendo simbolizar quão pequenos somos diante dessa questão, é um belo trabalho da direção de arte, que ainda se mantém discreto o suficiente para não sobrepor-se à narrativa. Os ambientes onde se passam as histórias das velas cujo destino a jovem amante tenta alterar são igualmente impressionantes, embora o retrato de Veneza acabe ficando um pouco aquém dos dois restantes, por eles serem retratados de forma mais exótica e fantasiosa, segundo a visão que o Ocidente tinha em relação ao Oriente na época. Mas nenhum cenário é tão deslumbrante quanto o Gabinete da Morte, repleto de velas, cada uma representando uma vida.

O filme também possui efeitos especiais muito bons para a época, que envelheceram bem dentro da linguagem adotada, sendo que para aqueles padrões, A Morte Cansada não tinha um grande orçamento, com destaque aqui para a procissão de fantasmas, realizada através de efeitos de superposição, onde a mocinha descobre que seu amado foi levado pela Morte; e a cena da fuga em um tapete voador, presente na história da terceira vela.

Lil Dagover, que já havia protagonizado O Gabinete do Dr. Caligari, marca definitivamente o seu nome dentro do Expressionismo Alemão ao interpretar a Jovem Amante que confronta a própria Morte por amor. Dagover transmite bem o desespero crescente ao longo do filme, criando uma mocinha que pode chegar a despertar a antipatia do público devido ao egoísmo que apresenta em alguns momentos “Em nome do Amor”, mas que justamente por isso torna-se mais multifacetada que a maioria das personagens femininas deste período, especialmente ao ser posta diante de um grande dilema moral no 3º ato da narrativa.

A leitura de Bernhard Goetzke para a Morte também merece destaque. Embora surja imponente e misteriosa, com suas vestimentas pretas e chapéu de aba larga, a Morte criada por Lang e Goetzke nunca adquire características monstruosas, malignas, ou mesmo jocosas, como a famosa Morte de Ingmar Bergman em O Sétimo Selo (que tem inspiração assumida no filme de Lang). A Morte desta obra, como o título diz, está cansada de ver o sofrimento que tem que infligir aos seres humanos em nome da Divina Providência, como percebemos na bela cena em que ela precisa extinguir a vela que representa a vida de um bebê. Goetzke surge em cena como a Morte sempre com uma expressão cansada e séria no rosto, deixando entrever de forma muito sutil alguma tristeza. O desafio proposto à jovem amante não é um jogo sádico, mas um reflexo de seu cansaço, pois embora a Morte claramente não acredite que o Amor da jovem possa impedi-la de fazer o que tem que fazer, ela gostaria que fosse possível.

A Morte Cansada ainda é um trabalho de um diretor relativamente inexperiente e que ainda realizaria suas obras mais de maior destaque, mas que ainda assim, demonstra o grande talento de Fritz Lang. Visualmente impressionante e extremamente influente (Luis Buñuel apontaria o longa-metragem como o filme que o fez querer ser cineasta) A Morte Cansada propõe discussões um pouco mais existencialistas que outras obras do Expressionismo Alemão, mas é indiscutivelmente uma importante parte do movimento que marcou a História do Cinema.

A Morte Cansada (Der Mude Tod), Alemanha, 1921.
Direção: Fritz Lang.
Roteiro: Fritz Lang e Thea Von Harbou.
Elenco: Lil Dagover, Bernhard Goetzke, Walter Janssen, Rudolph Klein Rogge, Hans Sternberg, Erich Pabst, Neumann Schüller, Georg John.
Duração: 98 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.