Crítica | A Morte de Wolverine

estrelas 2

Pronto, acabou. Wolverine morreu. E não, isso obviamente não é spoiler. Afinal, olhem bem o título dessa minissérie, que vem sendo construída pelo roteirista anterior, Paul Cornell, há um bom tempo, exatamente desde março de 2013, quando ele resolveu extirpar o milagroso fator de cura do baixinho mutante que adoramos.

Ainda que a leitura dos arcos anteriores não seja essencial para a compreensão da minissérie, não custa conferir o que escrevi sobre eles, nos links logo abaixo:

Temporada de Caça

Mortal

Três Meses para Morrer – Livro 1

Três Meses para Morrer – Livro 2

Para a minissérie, porém, Cornell foi substituído por Charles Soule, autor não muito expressivo na Marvel que faz uma história que desperdiça o potencial de um evento tão importante. Novamente Wolverine está sendo perseguido, mas a diferença, agora, é que ele ganhou sua confiança de volta ao final de Três Meses para Morrer e todo o caçador de recompensas que tenta caçá-lo acaba sendo dilacerado por suas garras. No entanto, Reed Richards – em uma ponta conveniente demais, que é logo esquecida – conta para o herói que ele deve parar de usar as garras, pois elas vêm contaminando seu enfraquecido corpo. Com isso, Logan tem que improvisar (e não, ele não tem mais a armadura que ganhou do Homem-Aranha Superior) para descobrir quem é que quer sua cabeça.

E sua busca o leva novamente para Madripoor, onde ele enfrenta uma antiga inimiga/amante, seu mais velho arqui-inimigo e mais uma vez se reúne com a sempre salvadora Kitty Pryde. Mas a investigação continua, levando-o para o Japão, novamente para enfrentar outra ameaça de seu passado e, finalmente, o círculo fecha em Nevada, nos EUA, com a descoberta do verdadeiro mandante e sua maquiavélica razão.

mosaico death of wolverine

As capas dos quatro números da minissérie.

Acontece que tudo é muito corrido, como se a Marvel estivesse com pressa de se livrar de seu mais importante mutante. É difícil aceitar que, em menos de 100 páginas (são exatamente 88 páginas de texto), sendo que 3/4 dessas páginas é no estilo “vamos descobrir quem é o vilão” acabe de maneira tão repentina, boba, confusa e mal engendrada. Em termos filosóficos e de fechamento narrativo, a estrutura até faz sentido, pois faz Logan passar pelos lugares-chave de sua vida, com menções a seu passado e até direito a se vestir de samurai em determinado momento. Mas é tudo corrido, pouco explorado, com diálogos crípticos desnecessários e uma resolução que parte da premissa que esse vilão – estou sendo propositalmente misterioso aqui, pois quero evitar spoilers – que gastou uma fortuna inimaginável para por a cabeça de Wolverine a prêmio não saiba o básico sobre seu inimigo, tornando tudo – que já era muito apressado e raso – completamente inacreditável.

O final – a morte efetiva – até é poético e funciona, considerando-se a história de Wolverine ao longo de toda as décadas. Além disso, é original, diferente do que vemos por aí. Mas é só isso. Não há pompa e circunstância. Ela apenas acontece e nós não sentimos nada. Nem tristeza, nem urgência, nem necessidade de as coisas serem assim. É claro que muito da culpa de uma eventual reação blasé para a morte do herói seja por culpa das próprias editoras mainstream de super-heróis, que nunca matam de verdade seus heróis, especialmente um que vende revistas como água como Wolverine. Ele eventualmente voltará e sua morte que já não tem lá muito significado, perderá completamente o sentido.

O que realmente funciona na minissérie é a arte de Steve McNiven, com arte-final de Jay Leisten. Logan, sob os traços de McNiven, ganha tons que ao mesmo tempo mistura seu lado feral, com seu lado bom, sereno e há muitos detalhes na arte, o que enriquece a experiência, especialmente depois da tinta de Leisten, que termina por dar muita vida aos personagens e aos ambientes em que estão inseridos. Além disso, as sequências de luta se beneficiam de um dinamismo na transição de quadros que é muito interessante e bem trabalhado, por vezes em pequenos quadros em longa sucessão, outras vezes com divisão pouco ortodoxas da página. Mas há uma certa falta de splash pages que poderia ter ampliado a experiência em alguns momentos mais importantes. No entanto, mesmo com uma sólida arte, as falhas de A Morte de Wolverine continuam muito salientes.

A tão alardeada minissérie, no final das contas, parece apressada e, em última análise, desnecessária. Charles Soule conseguiu matar um dos mais importantes heróis da Marvel sem que sentíssemos qualquer coisa por ele ou pelos acontecimentos.

Descanse em paz, Wolverine e, quando voltar do descanso, espero que ganhe, finalmente, um roteirista à altura.

A Morte de Wolverine (Death of Wolverine, EUA – 2014)
Conteúdo: Death of Wolverine #1 a 4, publicado entre setembro e outubro de 2014
Roteiro: Charles Soule
Arte: Steve McNiven
Arte-final: Jay Leisten
Cores: Justin Ponsor
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics (não lançado no Brasil, no momento de publicação da crítica)
Páginas: 100

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.