Crítica | A Morte do Capitão Marvel (Marvel Graphic Novel #1)

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Os anos 80 foram profundamente marcados por uma revolução nos quadrinhos de super-heróis. Foi a partir dessa década que, mais fortemente, diversos autores, capitaneados por grandes nomes da Nona Arte como Alan Moore (Watchmen), Frank Miller (Batman – O Cavaleiro das Trevas) e Rick Veitch (The One), trataram de olhar para sua própria arte e desconstruí-la, analisando as fundações do que significa ser um super-herói, quebrando a barreira imaginária entre a fantasia e o mundo real. Foi uma década brilhante cujos reflexos são vistos e replicados até hoje.

Mas o que quase ninguém se lembra é que o verdadeiro começo dessa tendência libertadora foi uma pequena grande HQ, a primeira da saudosa coleção Marvel Graphic Novel, que teve 39 edições entre 1982 e 1988, com diversas inesquecíveis histórias auto-contidas, mesmo quando abordando personagens já bem estabelecidos. E essa primeira edição não poderia ser mais bela, mais perfeita do que A Morte do Capitão Marvel, fruto da mente criativa de Jim Starlin, que, no mesmo ano, iniciaria sua mais espetacular criação fora dos quadrinhos mainstream: Dreadstar.

E a edição, de 66 páginas, tem exatamente esse objetivo: matar o Capitão Marvel, herói criado por Stan Lee, Roy Thomas e Gene Colan em 1967 e que passara por diversas metamorfoses, começando como um mero guerreiro Kree em missão de espionagem na Terra, tornando-se em seguida um campeão de nosso planeta, depois dividindo sua existência com seu parceiro Rick Jones e, finalmente, adquirindo consciência cósmica. Sem uma casa própria na editora e com uma história rica e complexa, o Capitão Marvel, que Starlin usara como pivô para o primeiro embate dos Vingadores contra Thanos, mais uma vez coloca o herói no centro das atenções em uma história que é realmente emocionante, uma das poucas HQs mainstream genuinamente capazes de arrancar lágrimas de quem quer que seja.

(1) O silêncio da revelação da doença a Elysium; (2) Os vilões e os amigos de Mar-Vell; (3) O panteão Marvel vem prestar homenagem e (4) O silêncio do Homem-Aranha.

Não há quase ação, que é trocada por profunda contemplação sobre a fragilidade humana e o poder da amizade. Mar-Vell, quando a história começa, está a caminho de Plutão, em cuja órbita encontra-se a Arca de Thanos, onde o Titã Louco morrera, sendo transformando em uma estátua de granito depois de seu embate contra a alma de Adam Warlock. O objetivo é levar o corpo de volta à lua de Titã onde Thanos nascera, um desejo de Mentor e também de Eros, que acompanham o herói. Mas algo está errado e, depois de uma breve luta contra alienígenas que cultuam o ex-vilão, Mar-Vell sente-se fraco, logo revelando aos dois amigos que ele sabe que está com câncer em razão de sua antiga luta contra Nitro, com a doença freada em razão de seus poderes e de seus braceletes nega.

A revelação é simples, direta, sem firulas, mas Mar-Vell, apesar de toda sua coragem, não a encara de maneira completamente tranquila. E aqui começa o brilhantismo do texto de Starlin, que embute emoções genuinamente no ex-guerreiro Kree, transportando-nos diretamente para aquela situação improvável. Afinal, onde já se viu um herói morrer de câncer? Isso não é coisa de quadrinhos de super-heróis! Assim, vemos o Capitão frustrado, entristecido, com raiva mesmo de ver seu corpo traindo-o, de não ter mais tempo de desfrutar da companhia de sua amada Elysium ou de seus amigos de Titã e da Terra. Ele é um homem que quer viver, viver e viver.

Enquanto vemos Mar-Vell absorve essa sua nova realidade, nós vemos sua história de vida tomar as páginas lindamente ilustradas pelo próprio Starlin, que assume um respeitoso tom mais sóbrio em seus traços, aos poucos fazendo o herói decair fisicamente. Da mesma forma, vemos momentos absolutamente tocantes, como o absoluto silêncio do momento em que o Capitão conta à sua amada de sua doença e morte iminente. Esse silêncio é contrastado com a completa explosão de raiva e irresignação de Rick Jones, o primeiro humano da Terra que ele procura.

(1) Mar-Vell em seu leito de morte cercado por seu amor e seus amigos; (2)(3)(4) Sequência final em que Thanos apresenta Mar-Vell à Morte e o fim (ou começo) de uma era.

Rick não aceita que Mar-Vell vá simplesmente entregar-se à doença e briga com seu antigo parceiro e, ato contínuo, praticamente exige que os mais brilhantes heróis do panteão da Marvel descubra uma cura. E, aqui, vemos outro lampejo de brilhantismo de Starlin. Aliás, brilhantismo, não. Respeito. O mais profundo respeito tanto pelas vítimas de câncer e outras doenças graves e pelos cientistas que incansavelmente buscam uma cura. Aqui, o estalar de dedos que resolve tudo, tão comum nos quadrinhos Marvel e DC, aquele simples desenho deus ex machina que impede a morte e revive todos os que por acaso venham a falecer, não existem, não se aplicam. Starlin, faz o seu malabarismo narrativo para explicar a resiliência do câncer de Mar-Vell, mas a grande verdade é que ele está contando uma história muito humana, muito próxima de vários de nós. A morte é inevitável.

Quando ela finalmente chega – e só de lembrar fico com os olhos marejados – Mar-Vell está cercado de todos os seus amigos, o Homem-Aranha não tem palavras pela primeira vez na vida e, incrivelmente, um Skrull vem entregar-lhe uma medalha, reconhecendo o valor de seu maior inimigo. Mas o que realmente termina de fraquejar as pernas de quem lê a história é a alma de Thanos literalmente levitar, desafiar Mar-Vell e levá-lo, docemente, para o beijo e o abraço da Morte. É realmente incrível o que Jim Starlin faz aqui, empregando uma solenidade tão forte que a editora nunca teve a coragem de ressuscitar de verdade Mar-Vell, pois seria um desserviço à Nona Arte o desfazimento bobo dessa obra-prima.

Não interessa se você é ou não fã de quadrinhos, se conhece ou não o Capitão Marvel, se gosta mais da Marvel ou da DC. A Morte do Capitão Marvel é leitura obrigatória, indispensável, realmente importante em si mesma e, também, para a completa compreensão da evolução da arte sequencial. E emocionante. Muito emocionante.

A Morte do Capitão Marvel (Marvel Graphic Novel #1: The Death of Captain Marvel, EUA – 1982)
Roteiro: Jim Starlin
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Jim Starlin
Cores: Steve Oliff
Letras: Jim Novak
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: abril de 1982
Editora no Brasil: Editora Abril, Editora Salvat, Panini Comics
Data de publicação: 1988 (Abril), maio de 2017 (Salvat), outubro de 2017 (Panini)
Páginas: 66 (apenas a Marvel Graphic Novel #1)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.