Crítica | A Morte num Beijo

estrelas 3

Uma das tarefas hercúleas de um crítico de cinema diante dos filmes que se encaixam no que se convencionou chamar de cinema Noir, é fugir da análise catalográfica, uma postura quase impossível. A Morte num Beijo, dirigido por Robert Aldrich, o mesmo do angustiante O Que Terá Acontecido a Baby Jane? e do instigante Os Doze Condenados, é um filme basilar para os interessados em conhecer a estética noir e, inclusive, relacioná-la com produções contemporâneas, como os filmes de Quentin Tarantino e David Lynch, ambos tributários, em diversas fases da suas respectivas carreiras, desta estética e deste filme especificamente.

Estabelecendo, logo de início, uma atmosfera sombria, com uma trilha sonora histérica e bastante intrusiva, o roteiro de A. L. Bezerrides, adaptado do romance de Mickey Spillane, nos mostra uma mulher correndo numa estrada deserta, à noite. A sua respiração, captada pelo trabalho de som eficiente nos dá a entender que estamos diante de uma situação de fuga. De repente, o detetive particular Mike Hammer (o hilariante Ralph Meeker) é surpreendido pela mulher ofegante, Christina (Cloris Leachman), uma loira misteriosa.

Após um breve diálogo sobre a situação da mulher diante da sociedade machista e alguns flertes, um dos temas principais da estética noir, no qual irei me deter mais adiante, surge em cena uma perseguição que acaba num misterioso ambiente de crime. A moça é assassinada, Mike é espancado e os dois são colocados de volta no carro e arremessados numa ribanceira. Mike consegue sobreviver e a partir daí, sai em busca da história de Christina, para melhor compreender o que aconteceu naquela sombria e fatídica noite. Engraçado perceber a similaridade com a heroína de Psicose, de Alfred Hitchcock (antes, porém, do livro de Robert Bloch), que é assassinada no meio da história. No caso de A Morte num Beijo, em menos de 10 minutos a personagem desaparece, portanto, mantém-se como uma chama viva, onipresente através de citações até o final da história.

Ponto nevrálgico do filme, a iluminação e a direção de fotografia fazem o trabalho empenhado em nos mergulhar na atmosfera do cinema noir: as sombras fazem dos personagens aparentemente angelicais os “demônios” da noite e a trilha sonora guia as nossas emoções de uma maneira imponente. Os quadros dentro de quadros, bem como a movimentação brusca e os ângulos oblíquos deixam as cenas tortuosas, assim como a curiosa investigação do detetive Mike.

Conforme nos aponta o pesquisador Fernando Mascarello em Filme Noir, parte integrante do livro História do Cinema Mundial, a luz de caráter expressionista, a atmosfera cruel, pessimista e fatalista , bem como o jogo de espelhos em cena (uma “pegada” psicanalítica), os relógios que indicam a passagem do tempo (uma das preocupações do período pós-moderno que se aproximava) e as ruas escuras e desertas são elementos que fazem parte do imaginário noir, adotado pelo cinema em diversas produções desde 1940, chegando até os portões da contemporaneidade.

Gênero que nasceu na França e foi importado pelos Estados Unidos numa época de desilusão após a Primeira Guerra Mundial, o Noir refletia a frustração das pessoas diante do mundo, da corrupção da época e dos estilhaços que as pessoas juntavam de suas vidas, turbulentas após as crises dos conflitos bélicos. Era uma vanguarda que representava, esteticamente, uma sociedade sem perspectiva para o futuro, daí os ângulos tortuosos, as sombras que indicavam as incertezas.

Como não poderia faltar em uma trama noir, o detetive anti-herói durão e a mulher fatal estão presentes. Sádico ao obter as informações que deseja, a figura de Mike é caricata e parte do folclore estadunidense, assim como os caubóis. A mítica mulher fatal, como aponta Peter Haining em Noir Americano: Uma Antologia do Crime de Chandler a Tarantino, representa, do ponto de vista masculino, a independência alcançada no momento histórico pós-guerra, período demarcado pela parca oferta de mão de obra masculina, tendo a mulher em mira para ocupação de cargos anteriormente exercidos por homens. Elas geralmente são punidas como uma forma de reforçar a masculinidade ameaçada e reestabelecer simbolicamente o equilíbrio perdido.

Por fim, a solução deus ex machina do final nos faz lembrar o intrigante Cidade dos Sonhos, de David Lynch, um dos filmes pretensamente mais complexos da história do cinema recente. Além de Tarantino e Lynch, Jean-Luc Godard assume que utilizou alguns recursos narrativos do filme para a composição do seu Alphaville.

A Morte num Beijo é um filme B, alçado para a contemporaneidade graças ao trabalho do campo da crítica, preocupado em recuperar alguns filmes primordiais para a melhor observação do contexto histórico pós-guerra que mudou as configurações sociológicas e políticas de um mundo que tão logo entraria no processo de globalização.

A Morte num Beijo (Kiss me Deadly, EUA – 1955)
Direção: Robert Aldrich
Roteiro: Mikey Spinalle e A. I. Bezerrides
Elenco: Ralph Meeker, Albert Dekker, Paul Stewart, Juano Hernandez, Wesley Addy, Marjorie Bennet, Mort Marshall, Fortunio Bonanova, Marian Carr
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.