Crítica | A Morte Passou por Perto

estrelas 3,5

Dizem que A Morte Passou por Perto é um filme que envelheceu mal, que padece de sérios problemas de roteiro, que isso, que aquilo. Eu devo concordar que esse segundo longa-metragem de Stanley Kubrick não é mesmo páreo para as obras-primas que viriam a seguir, mas não se trata de uma obra ruim. Longe disso.

A película tem uma abertura no mínimo intrigante. Um homem espera a chamada de seu trem no saguão de uma estação, enquanto passageiros circulam em todas as direções. O personagem aguarda e fuma, à medida que se recorda dos eventos que o levaram até ali. Após a reprodução dos créditos iniciais, uma narração em off se inicia e então um flashback nos leva para alguns dias antes, onde temos anunciada a luta de Davey Gordon, o nosso passageiro e narrador, com um oponente de peso.

A preparação física e a postura de um lutador de boxe não eram novidade para Kubrick, que já havia trabalhado com um boxeador no documentário O Dia da Luta (1953). Ele repete aqui alguns momentos marcantes de seu filme anterior, como a análise do nariz do protagonista em frente ao espelho ou o aquecimento antes da subida ao ringue. Porém, todo esse ritual e a própria luta em si são apenas uma ponte para o drama de característica noir que então irá se desenvolver.

Há quem diga que pelo seu ano de produção (pouco mais de uma década depois do apogeu do movimento) e pela ausência de um detetive, A Morte Passou por Perto não pode ser considerado um noir. Mas na verdade pode sim. Os ingredientes estéticos e dramáticos do gênero são a identidade do filme, mostrando fotografia de grandes contrastes e luz dura, sequências noturnas, crime, femme fatale, perseguição e enfrentamento do mocinho com o bandido. Estruturados em uma cadeia de eventos que vão de uma vida comum modificada pela chegada de uma mulher e um desfecho em que os problemas se resolvem mas a vitória parece amarga demais para ser comemorada, ou seja, é quase um constrangimento, fica difícil negar o caráter noir, ou mesmo “B” do filme.

Assinando também a montagem e a fotografia, Kubrick realiza um trabalho que pode muito bem ser colocado em sua galeria de boas inspirações, mesmo que em posição não muito alta. Vale destacar o trabalho do mestre com a profundidade de campo, um jogo realizado durante a maior parte da projeção, mas que ganha seu melhor momento na tela quando Davey conversa com o tio ao telefone e vemos ao fundo, por um ângulo específico da câmera ou por um jogo de espelhos, a vizinha na janela do prédio à frente, uma espécie de preparação para a difícil relação que iria se desenvolver mais adiante. Nessa galeria ainda podemos acrescentar o perfeito timing de toda a sequência de boxe e a clássica luta entre Davey e Vincent Rapallo no depósito de manequins.

A Morte Passou por Perto é o primeiro filme de Kubrick em que podemos falar de um prenúncio para sua obra posterior. As experiências realizadas por ele em Medo e Desejo, embora boas, guardavam uma outra característica, uma outra alma estética. Foi apenas nesse noir de 1955 que algumas marcas do diretor se destacaram com maior força, e foi com o sucesso do filme, mais o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Locarno, que as portas se abririam para o maravilhoso O Grande Golpe, sua obra seguinte.

A Morte Passou por Perto (Killer’s Kiss) – EUA, 1955
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick
Elenco: Frank Silvera, Jamie Smith, Irene Kane, Jerry Jarrett, Mike Dana, Felice Orlandi, Shaun O’Brien, Barbara Brand
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.