Crítica | A Morte Pede Carona (1986)

estrelas 3,5

SPOILERS!

Baseado em um tratamento de roteio escrito por Eric Red em 1981 e na canção Riders on the Storm, do The Doors, A Morte Pede Carona (1986) é o tipo de filme de baixo orçamento e amplamente rejeitado antes de encontrar alguém que o produzisse que ganhou as graças do público e, mesmo não envelhecendo exatamente bem, conseguiu se manter instigante e cinematograficamente criativo para plateias de décadas posteriores.

A premissa do longa é simples: um jovem dirige sonolento pela Rota 66, indo em direção à Califórnia. Depois de quase ser morto em um acidente, ele imaginou que dar carona para uma pessoa fosse ajudá-lo a se manter acordado, pois teria alguém com quem conversar. Ocorre que o caronista não é um homem comum e fará da vida de Jim Halsey (papel de C. Thomas Howell, que tem uma atuação interessante no filme) um verdadeiro inferno, aparentemente sem motivo algum. Tomando emprestado a agilidade de Encurralado (1971) e com claras referências aos longas Sob o Domínio do Medo (1971) e Amargo Pesadelo (1972), o diretor Robert Harmon realiza neste seu primeiro e mais importante filme um verdadeiro terror sobre rodas, guiando com muita competência os atos do caroneiro psicopata que o roteiro de Eric Red não fez questão de amenizar.

Em um primeiro momento, o espectador imagina que o filme será guiado por uma ação inteira dentro do carro, mas essa perspectiva muda quando Jim consegue se livrar de John Ryder logo no início de sua desesperadora carona e a trama avança a partir de uma ação externa do vilão, que ganha uma representação aterradora de Rutger Hauer. O ator encarna a maldade de uma forma que nos deixa realmente assustados e por si só já dá ingredientes o bastante para o filme avançar, mesmo que não haja, a rigor, uma motivação para suas atitudes. Isso configura uma incompletude do roteiro, mas não chega a ser um erro crasso porque a ação está na persona de Hauer, com seu olhar oblíquo, meia risada e frieza extrema ao cometer assassinatos brutais. Ver o rosto do homem surgir por trás de um urso de pelúcia e o desespero de Jim para avisar a família que seria assassinada na sequência deixa o espectador tenso, sensação que se estende a cada nova sequência, praticamente durante toda a projeção.

A partir do primeiro embate entre Jim e John, o público espera que algo explique a obsessão do psicopata pelo jovem. Algumas explicações apontam para questões homoeróticas envolvendo os dois, partindo de John e, de alguma forma, abraçando Jim no decorrer do filme. A obsessão se torna mútua e vemos que um se recusa a matar o outro, ação que só tem lugar no desfecho quando Jim percebe que para continuar vivo ele precisa se livrar de seu assediador/caroneiro. A relação não é exatamente óbvia e nem deve ser tomada como mote central da fita, mas ela de fato existe e possui momentos bem interessantes que se integram com outras referências, como o momento mitológico em que o psicopata coloca moedas nos olhos de Jim (um pagamento que os antigos faziam a Caronte, o barqueiro que atravessava as almas até o Hades) ou o infame aperto de mão mais cuspida no final da fita. A obsessão se assemelha à relação entre Bruno e Guy em Pacto Sinistro (1951) e caminha para um estágio de “mestre” e “discípulo” que se torna cada vez mais intenso.

A sucessão de tragédias e assassinatos nos deixam atentos e tensos mas sempre funciona de forma orgânica e nem sempre faz sentido em si mesma, como na cena do dedo no meio das batatas fritas ou a reta final, onde Jim assume uma postura repentinamente parecida demais com a de seu “professor”. É como se o resultado final precisasse ser alcançado e Jim, em choque ou com um intenso sentimento de vingança — sentimento que talvez também possa ser utilizado para “justificar” o comportamento de John depois de ter sido frustrado em seu intento de mantar Jim no carro, na primeira carona –, assumisse uma missão que adquiriu repentinamente. Percebam que ao final ele diz que precisa ‘fazer aquilo’.

O compositor Mark Isham criou uma atmosfera ainda mais macabra e apreensiva para essas cenas e vemos que sua trilha sonora é utilizada com bastante cuidado pelo diretor, à vezes apenas como interação entre um ponto e outro do medo e na maioria das vezes como apresentação inicial e final das sequências, que normalmente não possuem música durante o desenvolvimento. Paralelamente, a montagem de Frank J. Urioste força o público a suar frio durante as sequências de perseguição; durante o martírio de Nash (Jennifer Jason Leigh em um papel que é interessante apenas um momento) e em toda a primeira parte do filme, da carona até a fuga de Jim da delegacia, que recebe o melhor trabalho do editor.

Apesar da forma de “esquetes de terror” e do desfecho estranhamente reticente, A Morte Pede Carona é a prova de que um bom terror psicológico pode ser feito sem rios de dinheiro e apelações sanguinolentas em cena. A ação horrenda assusta menos do que sua perspectiva e sugestão, coisas que o filme deixa bem claro para nós, fazendo-nos roer as unhas e esperar pelo pior a cada quilômetro percorrido na rodovia. Um clássico moderno que praticamente fez escola e que ganhou uma refilmagem em 2007, dirigida por Dave Meyers. Impossível assistir e não ficar com medo de dar carona por muito tempo.

A Morte Pede Carona (The Hitcher) — EUA, 1986
Direção: Robert Harmon
Roteiro: Eric Red
Elenco: Rutger Hauer, C. Thomas Howell, Jennifer Jason Leigh, Jeffrey DeMunn, John M. Jackson, Billy Green Bush, Jack Thibeau, Armin Shimerman
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.