Crítica | A Mosca (1986)

                                                   

Salvas as devidas proporções, há traços da obra de A Metamorfose, de Franz Kafka, na refilmagem de A Mosca da Cabeça Branca, clássico de 1958, com Vincent Price, denominado apenas como A Mosca, sob a direção do eficiente David Cronenberg, em 1986.  Rejeição, inadequação social, mutações físicas e psicológicas apresentam semelhanças e diferenças entre o aclamado conto literário e a polêmica produção cinematográfica, ambos ótimos materiais para um exercício de literatura comparada.

A narrativa circunda em torno do ultrajante físico Seth Brundle (Jeff Goldblum), um homem que está envolvido num processo de desenvolvimento de uma máquina de teletransporte. Inicialmente, o personagem realiza um teste utilizando um macaco. Mais adiante, em companhia da jornalista investigativa Verônica (a ótima Geena Davis), Seth sente-se encorajado a testar a máquina consigo mesmo, mas ao entrar na cabine, o inesperado acontece, afinal, ele está envolvido em experiências em fase de teste, correto, caro leitor?

Pois nessa experiência, Seth adentra na máquina e não percebe que junto há uma mosca doméstica. Resultado: o seu corpo acaba geneticamente fundido com o material biológico do inseto e em questão de tempo a aparência do personagem vai aproximar-se das características do inseto, num terrível processo de transformação que caminha para um epílogo trágico.

Aos poucos, Seth torna-se ciente da sua situação de mutação, mas por se tratar de um experimento, vai permanecer cotidianamente, como no conceito do filósofo Gilles Deleuze, em puro “devir”. Tudo pode acontecer e mudar a ordem das coisas, pois nós, espectadores, voyeurs desta situação considerada abominável, vamos nos manter em constante suspensão, assim como os próprios personagens: se ele se relacionou sexualmente com a jornalista, há a chance de uma gravidez? O que acontecerá com o processo de Seth? Seu destino será o mesmo de Gregor Samsa no conto de Franz Kafka?

No filme, não há rigidez de gênero: Cronenberg mescla elementos do horror, do fantástico e do terror biológico em um filme que se mostra bastante eficiente nos quesitos estruturais: a maquiagem é abominável, nojenta, mas não se aproxima do risível e do ridículo que algumas produções do mesmo quilate se propõem a realizar. A montagem eficiente, juntamente com o equilíbrio das performances de todo o elenco tornam o filme algo além de um filme de monstro e mortes. Pelo contrário, é o foco nas consequências psicológicas oriundas dessa mudança na vida de Seth que colocam a produção no patamar de um dos melhores filmes que discutem o impacto da ciência e das celeumas sociais no bojo da sociedade contemporânea.

No terreno da estética da recepção há uma numerosa linhagem de interpretações para a produção. Talvez a mais interessante seja a metáfora entre a mutação de Seth e a relação da ciência frente aos desafios do vírus HIV nos anos 1980. Para alguns críticos e estudiosos o filme pode ser pensado como uma espécie de representação dos medos diante do desconhecido. De fato, há uma linha de coerência neste tópico interpretativo. Em 1986, muitos estudos ainda tentavam compreender o vírus HIV e a metamorfose corporal de Seth, que lhe apresentava surpresas a cada instante, não fica muito longe da relação entre os infectados na época e os impactos de um vírus que naquele período ainda passava por uma fase desvendamentos.

A relação com o corpo, a tecnologia, a ciência, o sexo, a morte e as enfermidades são parte das palavras-chaves que integram parte da obra de David Cronenberg. Em Calafrios, de 1975, ele já trazia a temática sobre um vírus tomando o corpo de turistas no Canadá. Numa entrevista o diretor afirmou que acredita ser através do corpo que podemos verificar todas as coisas, pois segundo a sua forma de ver e interpretar o mundo, “é através do corpo que verificamos a vida e é é pelo corpo que verificamos a morte”.

Indicado ao BAFTA, ao Saturn Awards e ao Oscar nas mais variadas categorias técnicas, A Mosca é um filme de 96 minutos que é puro devir: há acontecimentos que fogem da ordem esperada e as metáforas sociais fizeram a “festa” de muitos acadêmicos que estudam o filme ainda na contemporaneidade. Como era de se esperar, uma continuação foi engatilhada logo após o estabelecimento do sucesso deste primeiro filme: inferior, com roteiro perdido e desconectada das discussões críticas propostas pela equipe de Cronengerb, A Mosca 2 foi mais um dos caça-níqueis da indústria do cinema.

A Mosca (The Fly) – Canadá, Estados Unidos e Reino Unido. 1986.
Direção: David Cronenberg.
Roteiro: Charles Edward Pogue e David Cronenbeg, baseado no argumento de George Langelaan.
Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Leslie Carlson, Michael Copeman, David Cronenberg, George Chuvalo, Carol Lazare.
Duração: 96 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.