Crítica | A Mulher-Macaco

estrelas 4,5

Depois de estrear na direção com sua trilogia espanhola (El Pisito, Los Chicos e El Cochecito), Marco Ferreri retornou à Itália, não para dirigir propagandas cinematográficas de uma companhia de bebidas, como fizera no passado, mas para exercer uma profissão que descobrira em 1959, no início de sua parceria com Rafael Azcona.

A Mulher-Macaco foi o terceiro filme da fase italiana do diretor, longa que ele escreveu juntamente com Azcona, baseado na vida de Julia Pastrana, uma mexicana de origem indígena que tinha hipertricose, ou, como é popularmente conhecida, Síndrome de Lobisomem. O texto apresenta toda a trajetória da mulher e seu marido/aproveitador/empresário, mostrando claramente o lado alegórico, metafórico e crítico de Marco Ferreri como diretor.

Sua abordagem para o relacionamento de Antonio (Ugo Tognazzi) e Maria (Annie Girardot) – ambos os atores em interpretações excelentes – acaba sendo um espelho da sociedade italiana, ou europeia, ou Ocidental, se levarmos em consideração a presença da igreja e o ponto de maior exploração no longa: a relação matrimonial.

Ferreri toca na ferida das intenções por trás do casamento, questionando se existe sempre a presença do amor ou se a cerimônia desse “sonho de vida” é, na maioria das vezes, um papel a ser cumprido com interesse econômico, social, físico, psicológico, religioso ou, quando muito, afetuoso, uma espécie de meta preestabelecida que nem todos fazem por vontade e sim por impulso e ordem externa. Ou com terceiras intenções.

A forma que ele encontra para trazer isso à tona é a heresia, lançando mão de um método muito caro a Luis Buñuel, que era dessacralizar objetos e rituais sagrados através da bizarrice, da monstruosidade, do acontecimento incomum. A cena em que Antonio e Maria caminham pelas ruas próximas à igreja e a multidão os acompanha enlouquecida é algo que dificilmente o espectador esquecerá. Ali temos mesclados todos os poréns – simbólicos e práticos – da relação entre o casal, que podem muito bem ser comparados a inúmeros outros relacionamentos e matrimônios que conhecemos. Antonio via em Maria a oportunidade de ganhar dinheiro. Maria via em Antonio a oportunidade de sair do hospício ou do cuidado das freiras. A diferença entre os dois é que a mulher tinha um sentimento verdeiro em relação a ele.

A direção de Ferreri prima pelo espetáculo artístico e social, jogando com elementos metalinguísticos e mostrando a frequência com que tudo o que é estranho, feio, drástico, mórbido e doloroso vira objeto de curiosidade massiva, podendo ser vendido e explorado até que algo ainda mais estranho venha substituí-lo. Nesse âmbito, o homem entra em cena como explorador do sexo frágil e aproveitador da inocência alheia. Mesmo que vejamos uma ponta de sentimento surgir no personagem de Tognazzi em relação à mulher-macaco, o diálogo sobre o lucro e a venda da pessoa como objeto espetacular jamais sai de cena. O empreendedor burguês e sua busca constante por lucro, não importando quem, o quê e em que condições irá fazê-lo, é o complemento social para o personagem.

O final de A Mulher-Macaco é impiedoso e pode ser melhor aproveitado se o espectador conhece a história original. Consta que Theodore Lent, esposo da mulher-macaco que deu origem ao filme, mumificou o corpo dela e do filho após a morte e os exibiu como atração em diversos espetáculos pela Europa. Em 1880 ele ficou louco, foi internado em um asilo e morreu pouco tempo depois. Embora o longa de Ferreri não mostre esse momento da decadência de Antonio, fica claro a relação entre as duas realidades, já que a tragédia – posta no filme de um modo socialmente aceito desde o começo mas ganhando outros contornos conforme o filme avança – é o motor da história e este é o final mais provável para imaginarmos.

Ainda a esse respeito, vale dizer que o produtor Carlo Ponti não gostou nada do final original de Ferreri e o obrigou a fazer uma versão para a exibição francesa onde a mulher-macaco sobrevive ao parto juntamente com seu filho e todos os seus pelos caem. Ou seja, Ponti estragou completamente o final cru e cínico de Ferreri. Embora eu tenha visto apenas a versão original do filme, imagino a descaracterização dramática que tenha sido esse final alternativo e como isso deve ter estragado a experiência dos espectadores que tiverem o infortúnio de assisti-lo.

A Mulher-Macaco é um poderoso filme sobre o julgamento das aparências, o tratamento dado às pessoas consideradas “incomuns” na nossa sociedade e a visão de algum modo lucrativa (não necessariamente monetária) que toda tragédia e dissabor alheio parece dar a um certo grupo de pessoas, sejam elas membros de grupos com ideias pseudo-científicas, empresários da imprensa ou show business e beatos que de um lado chamarão o “estranho” de santo incompreendido ou que, do outro, os condenarão ao inferno por seus pecados vistos claramente no corpo como um castigo do poderoso e amoroso Deus. Marco Ferreri derruba as máscaras e questiona quem realmente é o monstro em nosso meio.

A Mulher-Macaco (La Donna Scimmia) – Itália, França, 1964
Direção:
Marco Ferreri
Roteiro: Rafael Azcona, Marco Ferreri
Elenco: Ugo Tognazzi, Annie Girardot, Achille Majeroni, Filippo Pompa Marcelli, Ermelinda De Felice, Elvira Paolini, Ugo Rossi
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.