Crítica | A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos

estrelas 1,5

Madalyn Murray O’Hair não foi a mulher mais amada dos Estados Unidos. Desbocada, enfrentou o conservadorismo, pós Segunda Guerra, e atuou em defesa da liberdade religiosa, em especial, da liberdade de não se ater à nenhuma religião. Após ter sido deferido o banimento oficial de orações e preces religiosas nas escolas públicas americanas, levou o ativismo adiante e fundou os Americanos Ateus. Madalyn, sendo assim, conseguiu ao longo dos anos lucros milionários, alguns legais – e outros talvez ilegais – permitindo que a ganância se mostrasse, sem, no entanto, tirar os méritos de sua luta. Foi em 1995, com quase 80 anos, que Madalyn veio passar por eventos que mudariam sua vida por definitivo e que dariam base à produção original da Netflix, A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos.

Na trama do filme, a vida da ateia é explorada em duas vertentes: a construção do mito e o desaparecimento da família. Este segundo, aliás, é fruto do sequestro de Madalyn (Melissa Leo), seu filho mais novo Garth (Michael Chernus) e sua neta Robin (Juno Temple). Visto que tal sumiço não é reportado pela mídia, e a própria instituição sugere uma mera viagem como pretexto de tal ausência, é entregue a Roy (Brandon Mychal Smith), aliado de O’Hair, a responsabilidade de trazer a tona essa história, conduzindo a investigação para o repórter Jack Ferguson (Adam Scott). Do ponto de vista da ativista, somos apresentados a David Waters (Josh Lucas), que mesmo possuindo uma história com a mulher, coloca na quantia de um milhão de dólares o seu interesse maior.

A começar pela montagem, que não consegue manter um ritmo coerente de acordo com as diversas tramas estabelecidas. A construção da mulher que viria a ser chamada pela revista Life pelo título homônimo ao do filme, em 1963, é feita de maneira extremamente episódica, intercalando eventos importantes com o de fato desenrolar da narrativa. O filme, aliás, não faz jus ao seu próprio nome. Demonstra-se um interesse dos roteiristas em explorarem a natureza que originou a mulher e sua reputação, mas, na prática, não encontra-se a esfera adequada para essa exploração. A qualidade do material escrito está permeado na abordagem das consequências das atitudes da ateia, e o ódio generalizado criado. É interessante ver um homem vestido de Jesus pregando a palavra cristã pouco antes de atentar contra a vida da senhora. Todavia, a crítica do texto é interrompida neste ponto, na exposição dos fatos, e não no estudo deles.

O roteiro de Tommy O’Haver e Irene Turner busca incorporar diversos focos narrativos, sem desenvolver profundamente nenhum. Toda as sequências investigativas soam extremamente artificiais, e a não ser por uma simples citação de Roy, que explora a personalidade de Madalyn, parece não levar a lugar algum. Ledo engano, o enredo que acerca esta sub-trama nos apresenta a figura adulta de Bill Jr. (Vincent Kartheiser), e seu pertinente conflito com sua mãe. Embora isso seja de, certa forma, relevante para o entendimento da personalidade de Madalyn, não é crível o suficiente (mesmo sendo uma biopic) que Bill Jr. não tenha se interessado na investigação do desaparecimento de sua família, o que inclui sua filha Robin, mesmo com os esforços de Roy. O demérito do texto manifesta-se no trabalho da relação entre Bill e Madalyn, que muito tem a dizer, mas pouco se diz no final, com os relances conturbados do passado ofuscando o bom material.

Sobre os relacionamentos que envolvem Madalyn, os mais explorados são os com seu filho, Bill Jr, e o com seu sequestrador, David Waters. O primeiro é extremamente operante em suas fases iniciais, como a infância e a juventude. Quando o conflito surge, O’Haver utiliza do contexto episódico para explorar o desenvolvimento da relação, e seu posterior deterioramento. A exposição é recorrente, e pouco se é exprimido de maneira honesta pelos diretores. Vincent Kartneiser está, mesmo retraído, bem, embora no final, sua mudança seja mais um ponto pouco plausível. Depois de adentrar no alcoolismo, oriundo do término de seu relacionamento com a mãe de Robin, Bill recorre a recuperação. O diretor sutilmente acrescenta ao final de um encontro nos Alcoólicos Anônimos, uma prece, sem criar estardalhaços e movimentando a mudança de comportamento do filho de Madalyn. Com David as coisas funcionam melhor. Em cena, Melissa e Josh possuem bastante química. Suas motivações são aceitáveis e seu temperamento explosivo é uma bomba-relógio, tiquetaqueando por longos períodos.

O elenco restante também é bastante prejudicado pela má condução do filme. Melissa Leo consegue exprimir um ambíguo sentimento com o espectador. Ora complacente com os próximos, ora ignorante e até desnecessariamente agressiva. A resolução de sua situação só funciona pelo bom trabalho da atriz, visto que a escrita de O’Haver e Turner não consegue tornar a personagem simpática, o que é, em fato, complicado, pela natureza contraditória da ateia. Em contrapartida, o elenco de apoio, que poderia erguer a figura de Madalyn para além da superficialidade residual, não consegue se sustentar como indivíduos. Michael Chernus e Juno Temple são apenas protótipos familiares, sem nenhum peso individual aparente, com enfoque substancial apenas na relação deles com a ativista. Chernus, no entanto, mesmo tendo poucos diálogos, e em suma, bem fracos, suscita alguma empatia em suas feições e expressões quase ingênuas.

A tensão criada no cativeiro da família é desfuncional e o tom também não encontra seu lugar. Há muito humor negro que não vai de encontro com o âmago da situação. Gary (Rory Cochrane) e sua índole ainda mais deturpada que a de David não encontra espaço em contraste com a falta de seriedade que Madalyn encara o sequestro. Os esquemas que envolvem a coleta do dinheiro exigido são desinteressantes, e o senso de perigo não é evidente, ainda que o perigo se concretize como existente. O ator tem uma performance muito mais afetada do que doentia, sendo que quando o estrondoso clímax chega, somos engolidos por um sadismo desonesto. A sordidez não relaciona-se adequadamente com a leve construção criada. É quase cruel, mas não no sentido conveniente com ocasião. Já Alex Frost, e seu personagem, busca conciliar a sua imoral atitude, colaborando com David e Gary, com o suposto uso “nobre” da parte monetária recebida ao fim do crime. O pior é que o ator consegue convencer e nos faz simpatizar com o personagem, mesmo que, talvez, suas intenções possam ter sido meras invenções cinematográficas.

Diferentemente do que se pode pensar de obras biográficas como essa, A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos não possui nenhum caráter crítico. Não há uma busca de seus realizadores em transmitir a vida de uma mulher que fez o ateísmo ser ouvido. A superficialidade do roteiro, ao menos, não impede que o elenco se sobressaia. Com Melissa Leo interpretando diferentes fases da vida de Madalyn, a pesada maquiagem inicial, bastante artificial, vai aos poucos dando espaço para a boa interpretação da atriz. O’Haver no final divaga sobre diferentes aspectos que incorporaram a história de O’Hair sem atingir a essência de nenhum deles. É um fraco suspense de cativeiro, um mediano trabalho de revisitação de eventos históricos, uma frágil crítica social e enfim, uma pobre dramatização biográfica.

A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos (The Most Hated Woman in America) — EUA, 2017
Direção:
Tommy O’Haver
Roteiro: Tommy O’Haver, Irene Turner
Elenco: Melissa Leo, Josh Lucas, Brandon Mychal Smith, Adam Scott, Rory Cochrane, Alex Frost, Vincent Kartheiser, Michael Chernus, Juno Temple, Sally Kirkland, Peter Fonda, Anna Camp
Duração: 91 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?