Crítica | A Mulher Que Escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar

estrelas 5,0

De acordo com o escritor Moacyr Scliar, em entrevista ao programa Roda Viva, exibido pela TV Cultura em 16 de agosto de 2010, a Bíblia é a maior obra literária já produzida no panorama da história da literatura mundial. O escritor, considerado um dos mais presentes no âmbito da produção literária contemporânea, falecido em 27 de fevereiro de 2011, tinha grande apreço pelas sagradas escrituras, geralmente focado nos valores literários destes textos, citando-os, parafraseando-os e, concomitantemente, homenageando-os em suas entrevistas, artigos e em seus romances.

Em A mulher que escreveu a Bíblia, Moacyr Scliar utiliza a paródia e a carnavalização para recontar passagens de vários livros da Bíblia, entre eles, o Gênesis e o Livro de Reis, trechos destacados para a análise deste artigo. O livro, que ganhou o Prêmio Jabuti 2000 de Melhor Romance, tece uma história de escrita arrojada, montada com fluência e clareza, estratégias que colaboram com a cadência dos fatos. No romance, um historiador convertido em terapeuta de vidas passadas atende uma mulher que descobre ter sido uma das setecentas esposas do rei Salomão, no século X, antes de Cristo. Esta mulher, que não recebe nome na narrativa, é a mais feia de todas as esposas, mas a única que possui um dom que encanta o rei Salomão: ela sabe ler e escrever, e, diante dos fatos narrados no romance, mais explicitados adiante, a mulher recebe a incumbência de escrever o livro estuário da história da humanidade, ou seja, a Bíblia.

As releituras dos textos bíblicos são instigantes e diversas. No panorama da literatura brasileira, diversos autores já parodiaram a Bíblia. Machado de Assis, no conto Adão e Eva, satirizou o Gênesis, bem como cita as sagradas escrituras em várias crônicas publicadas no século XIX e no romance Esaú e Jacó. Antes da efervescência do que se convencionou chamar de Modernismo, Graça Aranha utilizou um trecho bíblico como mote do seu romance Canaã, narrativa sobre a imigração italiana no início do século XX. Clarice Lispector, em A Paixão Segundo GH, também retoma passagens bíblicas para contar a sua história, assim como Guimarães Rosa em A volta do Marido Pródigo, conto que o autor propõe uma leitura paródica de uma das mais conhecidas parábolas da Bíblia. Na seara do texto teatral, o dramaturgo Nelson Rodrigues, na peça Álbum de família, insere a história de Jonas no seio de uma família “apodrecida”, satirizando-a. Bastos Tigre, Gregório de Matos, Oswald de Andrade: a lista de escritores seduzidos por temas bíblicos é grandiosa.

Ao observar o extenso inventário das citações paródicas da Bíblia durante o processo de escrita deste artigo, foi possível perceber que os textos bíblicos, por serem extensos e abertos a múltiplas interpretações, estão sempre servindo de base para recriações ou até mesmo adaptações mais próximas ao texto “original”, tanto na literatura, como em outras manifestações narrativas, como a recente tradução intersemiótica Noé, filme dirigido por Darren Aronofsky, que pretende seguir à risca as bases de um dos textos mais conhecidos da Bíblia.

“Eu leio a Bíblia de maneira literária”, declarou Moacyr Scliar em uma entrevista à TV Estadão. Por ser um leitor contumaz da Bíblia, o escritor sempre utiliza passagens dos textos “sagrados” em suas histórias. Para Scliar, a cultura bíblica é decisiva no processo de formação do Ocidente, explorando manifestações sobre as paixões humanas e capta as coisas que nos caracterizam. Na mesma entrevista, concedida ao jornalista Felipe Machado em 23 de setembro de 2009, o escritor disse que a Bíblia sempre esteve na sua mesa de trabalho.

O escritor, nascido e criado em Bom Fim, uma comunidade judaica em Porto Alegre, diz ter sido a sua mãe a mentora intelectual da sua vida, responsável por fornecer o alimento literário com mais ênfase que outras particularidades do processo de criação de uma criança. Formado em Medicina, Scliar dedicou-se ao trabalho de médico especialista em saúde pública, atuando, também, como professor universitário.

No que tange aos requisitos literários, Scliar publicou mais de setenta livros, passeando por gêneros como romance, contos, ensaios e crônicas. Em entrevista ao Programa do Jô, exibido pela Rede Globo, o escritor informou que José de Alencar, Machado de Assis e Franz Kafka foram alguns dos mestres da literatura que o “influenciaram” durante a sua carreira. E na mesma entrevista, Scliar toca nas sensíveis cordas da Bíblia e do seu processo de leitura do livro sagrado como obra literária, não como um religioso, leituras que geralmente o fizera produzir releituras paródicas.

Em A mulher que escreveu a Bíblia, o autor constrói uma fábula sobre uma das esposas do rei Salomão, considerado como um dos mais suntuosos e sábios homens presentes nos textos bíblicos. Esta mulher supostamente teria escrito o que conhecemos na atualidade como a Bíblia. O romance começa com o relato de um historiador convertido em terapeuta de vidas passadas, responsável por ajudar os seus clientes em regressões a outras vidas, utilizando, para isso, os seus dotes de historiador.

Em seu consultório, o terapeuta recebe uma moça vinda do interior. Ele se apaixona por ela, mas esta, antes de desaparecer com um homem pelo qual havia se apaixonado, deixa um extenso manuscrito, linhas onde relata a sua experiência de regressão. Nestas atividades, ela descobriu ter sido uma das esposas de Salomão, rei que aparece com veemência na Bíblia no Livro de Reis. Sendo assim, o texto deste manuscrito compõe o romance, numa estratégia narrativa irônica de Moacyr Scliar, ao brincar com a noção de autoria. Descrita apenas como “A feia”, o manuscrito traz a narração da mulher do passado, com aproximações muito transparentes com a história da mulher do presente. Ambas são feias, filhas de homens poderosos e se apaixonam por um homem bonito, jovial, mas são preteridas por causa da beleza de suas irmãs mais jovens. Ao final da trajetória de ambas, porém, elas conquistam o coração do homem desejado com a sagacidade do pensamento, a força da inteligência e o charme da personalidade.

Durante a ação descrita no manuscrito, a moça é levada para o harém de Salomão, para ser uma das suas setecentas esposas. O casamento, arranjado depois de um acordo político, estratégia de Scliar de ligar passado e presente, e assim, oxigenar a narrativa com temas contemporâneos, não é bem sucedido inicialmente. Salomão se recusa a desposa-la, tamanha a sua feiura.  Mas, logo depois, descobre um elemento valioso nesta mulher: a capacidade desta de ler e escrever, incumbindo-lhe de produzir um dos maiores relatos da história da humanidade: a Bíblia Sagrada.

Toda forma de ironia literária depende de escritores precedentes, afirma Harold Bloom. Foi assim com Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Machado de Assis e Moacyr Scliar, além de tantos outros que estão presentes no bojo da história da literatura brasileira. No caso de Scliar, a temática bíblica também esteve presente em Os vendilhões do Templo (2006) e Manual da Paixão Solitária (2009), sendo considerado pelo autor e pela crítica como partes de uma trilogia iniciada em A mulher que escreveu a Bíblia. Fonte talvez inesgotável de referências, a Bíblia Sagrada sempre foi um guia literário para o escritor Moacyr Scliar, e, provavelmente, continuará sendo para os demais escritores posicionados no campo da literatura brasileira contemporânea.

A Mulher que Escreveu a Bíblia (Brasil) — 2007
Autor: Moacyr Scliar
Editora: Companhia de Bolso
168 páginas

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.