Crítica | A Mulher Que Se Foi

estrelas 4

Crítica publicada originalmente em 15 de outubro de 2016, durante a cobertura do Festival do Rio 2016.

O filme que levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2016 certamente não é uma obra fácil de ser assistida. Com 226 minutos de projeção, precisamos estar dispostos e descansados para acompanhar essa jornada de uma mulher que fora presa e que, apenas trinta anos após, fora declarada inocente. Com uma narrativa lenta, porém com uma evidente beleza colocada em quadro, A Mulher Que Se Foi não é um filme para todos, mas que certamente irá atingir a quem conseguir permanecer até o final da sessão.

Dirigido e roteirizado pelo filipino Lav Diaz, a obra nos traz a história de Horacia (Charo Santos-Concio), uma mulher que fora presa há trinta anos e que fora libertada quando uma conhecida sua admitiu a culpa nesse crime. Deixada sem qualquer esperança do que fazer com sua vida, ela decide se vingar de seu ex-namorado, que a colocara ali. O longa-metragem acompanha essa jornada, nos mostrando cada passo da protagonista e a forma como, lentamente, se acostuma com essa nova realidade na qual está inserida, ao mesmo tempo que sofre com os elementos de sua vida que perdera.

Os longos planos estáticos pretos e brancos, com uma notável ausência de uma trilha sonora, refletem perfeitamente esse estado de melancolia da personagem. Há uma monotonia no que faz, como alguém que, de fato, somente coloca um pé na frente do outro, sem se importar para onde vai, por mais que ela tenha um objetivo em mente. A duração da obra, naturalmente, é justificada pela narrativa, ela está presente para simbolizar esse extenso caminho que a personagem percorre, tanto psicologicamente, quanto fisicamente. Além disso, somos colocados em sua posição quando ainda na prisão, nos sentindo presos dentro da sala de cinema, como ela ficara durante os trinta anos de sua vida – e não coloco isso como um aspecto negativo da obra, é justamente a sua intenção.

Com uma iluminação que se apresenta de forma natural ou diegética, um grande senso de realidade é impresso na obra, nos jogando para dentro dela com precisão. Cada quadro é apresentado como uma verdadeira pintura e Lav Diaz torna isso ainda mais claro com a pouca movimentação dentro de cada um desses longos planos. O que vemos são ações repetitivas ou apenas personagens conversando. Cada ação mostrada em quadro é apresentada em quase toda sua direção, como um retrato da vida praticamente ausente de cortes.

A decupagem do diretor realiza um papel muito mais que essencial, naturalmente, ele define precisamente o que vemos, escolhe o ponto certo para transmitir a beleza de cada quadro e o quão a protagonista está, de fato, perdida dentro desse cenário. Os planos, em sua grande maioria, são médios ou gerais, sempre a colocando dentro de uma imagem com diversos outros elementos em tela, ressaltando a pouca importância que ela tem dentre desse mundo que a aprisionara injustamente. Dessa forma, uma forte angústia é criada em nós, dialogando com nosso cansaço diante da extensão da projeção.

A Mulher Que Se Foi definitivamente requer muita disposição para ser assistida – sua duração, ainda que justificada, atua contra ela própria e não podemos deixar de nos perguntar se alguns cortes não poderiam ter sido realizados. Ainda assim, temos aqui uma obra que consegue nos sensibilizar e dialogar com nossos sentimentos de forma sincera. Com planos que parecem verdadeiras pinturas, é um longa-metragem belo de se ver, funcionando quase como uma experiência contemplativa, mesmo que se configure como uma verdadeira provação para o espectador.

A Mulher Que Se Foi (Ang babaeng humayo) – Filipinas, 2016
Direção:
 Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz
Elenco: Charo Santos-Concio, John Lloyd Cruz, Michael De Mesa, Nonie Buencamino, Shamaine Buencamino
Duração: 226 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.