Crítica | A Múmia (1932)

estrelas 3,5

O trabalho de Karl Freund em O Golem, A Última Gargalhada e Metropolis colocou-o na história do cinema como um dos pais do expressionismo alemão, caracterizado pela distorção de imagens. Porém, em 1929, ele migrou para os Estados Unidos, onde trabalhou junto com Tod Browning em Drácula. Sua direção de fotografia neste filme chamou tanto a atenção dos produtores da Universal que ofereceram-lhe a cadeira de diretor em A Múmia, mais um longa da linha Monsters do estúdio.

A obra mostra uma equipe de arqueologistas no Egito liderados por Sir Joseph Whemple (Arthur Byron) que descobre a múmia do príncipe Imhotep (Boris Karloff). Também foram encontrados manuscritos que tinham o poder de fazer os mortos ressuscitarem. Uma noite um dos membros da expedição lê os manuscritos e traz o príncipe de volta à vida. Após dez anos, Sir Joseph retorna com seu filho Frank (David Manners). Eles ignoram que Imhotep agora existe e se faz passar por Ardath Bay, um egípcio contemporâneo que descobre a tumba do seu milenar amor, uma princesa que reencarnou em Helen Grosvenor (Zita Johann), uma bela e jovem mulher.

O enredo do filme pode ser considerado simples, sem nenhuma intenção de ser complexo, uma vez que, não há em A Múmia um subtexto, como em Frankenstein, por exemplo, que fala sobre preconceito e outros problemas sociais. Portanto, o roteiro, escrito por John L. Balderston, foca apenas no progresso de sua história, que envolve, mas possui falhas.

Um dos problemas da trama é a forma repentina com que alguns fatos ocorrem, sem qualquer desenvolvimento prévio. O romance entre Helen e Frank, por exemplo, acontece logo no primeira vez que os personagens se conhecem, ou seja, em nenhum momento convence ou cativa quem assiste, parecendo estar ali apenas para que o mocinho tenha alguma motivação.

Já as partes envolvendo a mitologia egípcia funcionam, com destaque para a cena envolvendo um longo flashback que mostra a origem do personagem título do longa. Aliás, todas as motivações do monstro são bem explicadas e mostrá-lo como um ser inteligente e manipulador, ao invés de apenas um morto-vivo envolto de faixas, dá camadas ao personagem, tornando-o extremamente interessante e cativante.

Mas o que faz este filme tão especial é o primoroso trabalho de Karl Freund na direção, utilizando enquadramentos de forma inteligente, sem desperdiçar o seu potencial dramático. O diretor adota na maioria do tempo planos médios e planos gerais médios, enquadrando mais de um personagem na tela e destacando o seu entorno, sendo uma escolha acertadíssima para valorizar o belo uso de sombras que insere uma atmosfera misteriosa no longa. A edição ainda intercala nos momentos de clímax a ação da múmia com a dos mocinhos, adicionando tensão à história.

Apesar de priorizar enquadramentos mais abertos, Freund acertadamente usa planos fechados apenas em momentos importantes do filme, como quando a múmia utiliza seus poderes e a câmera foca o seu rosto em um close-up extremo amedrontador. Outra estratégia dele é recorrer a vários travellings laterais que revelam um cobjeto em tela lentamente, causando incômodo em quem assiste. O belíssimo trabalho de maquiagem também contribui para tornar o monstro amedrontador, dando um aspecto empoeirado a Imhotep, deixando-o com um aspecto extremamente velho e repulsivo até.

Além da maquiagem, a atuação de Boris Karloff é impecável. O ator, que é um dos maiores astros dos filmes de terror até a metade do século XX, utiliza aqui uma voz pausada e mansa, mas intimidante. O trabalho físico de Karloff também destaca-se, trazendo uma grande imponência à Imhotep, principalmente através de seus olhares penetrantes e postura encurvada.

A Múmia possui uma trama com algumas lacunas, mas mesmo assim mostra-se envolvente e em nenhum momento cansa o espectador. Contudo, o que fez este filme tornar-se um dos grandes clássicos do terror é o trabalho impecável de Karl Freund na direção, que justifica aqui porque é um dos grandes nomes da fotografia cinematográfica.

A Múmia (The Mummy) – EUA, 1932
Direção: Karl Freund
Roteiro: John L. Balderston (baseado na história de Nina Wilcox Putnam e Richard Schayer)
Elenco: Boris Karloff, Zita Johann, David Manners, Arthur Byron, Edward Van Sloan, Bramwell Fletcher, Kathryn Byron, Leonard Mudle, James Crane, Eddie Kane, Henry Victor
Duração: 72 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.