Crítica | A Múmia (1999)

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estrelas 3,5

Se ainda estivéssemos pelos anos 90/2000 e Stephen Sommers fosse um diretor mais regular, seria natural apontá-lo como um dos nomes mais enérgicos do cinema pipoca contemporâneo. Não porque saiba aguçar as percepções ou provocar os mesmos calafrios sutis do mesmo jeito que um Steven Spielberg em Tubarão, mas por todas as suas aventuras até então, maiores ou menores, sempre reunirem de forma clássica, com aquela ingenuidade já perdida dos anos 70/80, todos os elementos que fazem um arrasa-quarteirão de fácil apelo ao público, seja na concepção carismática dos personagens, no senso de grandiosidade, um humor que nunca abandona a fita, ou no apego ao climão de aventura. Sommers, na época de A Múmia, reboot da franquia clássica da Universal, era um saudosista.

Estabelecendo seu clima de aventura desde os primeiros segundos com a brincadeira visual na logo da Universal, Sommers reúne não somente todos os elementos visuais e narrativos que estabelecem uma aventura, mas também pontua seu filme com uma rica (mesmo que nunca profunda ou complexa) gama de detalhes, fatos e teorias sobre, ficcionais ou não, envolvendo a arqueologia e toda sua simbologia, o que garante uma constante verbalização de curiosidades sobre o antigo Egito, quase uma brincadeira histórica. E não é pra menos, visto que ambientado em meio a Rick (Brendan Fraser, visivelmente inspirado em Indiana Jones) e Evelyn (Rachel Weisz), a aventura nos transporta para o renascimento do lendário faraó Imhotep (Arnold Vosloo) em nossos dias, e que séculos atrás havia sido preso e mumificado  por trair o Faraó Seti I (Aharon Ipalé) e manter uma relação proibida com sua esposa, Anck Su Namun (Patricia Velasquez).

A imponência de A Múmia é o que primeiro salta aos olhos. Quase vinte anos após seu lançamento, e mesmo passando longe de ser uma das referências visuais daqueles anos, o filme ainda encanta e convence com sua criatividade na concepção de cenas, manipulação dos efeitos visuais e controle das cenas de ação (como não lembrar do muro de areia com o rosto de Imhotep?). Por mais que Sommers não seja Spielberg e pese a mão em alguns momentos cômicos que simplesmente não funcionam, além de alguns clichês abusivos à paciência, é na constante identidade de auto-paródia e clima de descontração que A Múmia respira sua identidade de cinema brincalhão e entretém fácil um público que, seja nos anos  90 ou hoje, procura uma aventura que seja ágil, movimentada, engraçada, exuberante visualmente e que reúna personagens de grande carisma. O pacote aqui é completo.

E por mais que Sommers não se apegue em momento nenhum ao realismo, a competência do trabalho técnico transporta o público com fidelidade ao clima árido, seco e quente do deserto, seja pela fotografia de Adrian Biddle que acerta na paleta de cores, nos figurinos de John Bloomfield que colaboram para a identidade retrô da aventura, ou mesmo a marcante trilha sonora de Jerry Goldsmith, que ressalta a grandiosidade daquele cenário e de toda a fantasia imaginada por Sommers em meio a desertos e pirâmides. Da mesma forma, Fraser e Weisz, caricaturais na medida certa e talentosos ao estabelecer sua química em cena, claramente embarcam na brincadeira e brincam com a interação de seus personagens, estabelecendo uma necessária empatia para que o público desfrute com maior prazer da aventura. Arnold Vosloo, como o temido monstro do título, acerta na imponência do antagonista em cena, por mais que seu poder de ameaça jamais seja realmente concretizado para o público, algo igualmente prejudicado pelos constantes closes no rosto digitalizado da criatura.

De qualquer forma, A Múmia é tão competente e honesto na reunião de seus elementos e na sua imposição de grande produção que se torna difícil não se deliciar com seus êxitos, que para um filme tão aberto a concessões ao público, não são poucos. É uma aventura orgânica, saudosista e absolutamente funcional para os amantes do cinema pipoca. E com P maiúsculo.

A Múmia (The Mummy) — EUA, 1999
Direção:
 Stephen Sommers
Roteiro: Stephen Sommers
Elenco: Brendan Fraser, Rachel Weisz, John Hannah, Arnold Vosloo, Kevin J. O’Connor,  Jonathan Hyde, Oded Fehr, Erick Avari, Stephen Dunham, Patricia Velasquez
Duração: 125 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.