Crítica | “A Night at the Opera” – Queen

estrelas 5,0

A recepção positiva de Sheer Heart Attack (1974) trouxe definitivamente a fama para o Queen. A banda fez uma turnê do disco pela Europa (30 de outubro a 13 de dezembro de 1974) e seguiu para os Estados Unidos, onde esteve do início de fevereiro até o final de março de 1975, daí passando por dois shows no Canadá e oito no Japão, país que marcou a banda profundamente, um sentimento que viria aparecer, musicalmente, em composições futuras — mas que já dá as caras na intro de The Prophet’s Song, no presente álbum.

A volta para o Reino Unido, no entanto, mostrou ao quarteto uma realidade bem diferente daquela que vinham tendo nos últimos meses. Eles estavam financeiramente quebrados. O contrato que tinham com o Trident era vampírico e, a despeito da venda massiva do 3º disco da banda, não havia retorno financeiro para os músicos. Complementando a crise, Freddie Mercury não estava nada contente com o administrador do Queen, Norman Sheffield, com quem quebraria o contrato para assinar com John Reid, à época, também agente de Elton John.

A necessidade financeira, as pelejas contratuais, a assinatura com a EMI e a tensão entre os integrantes sobre o salário que cada um deveria receber — eles nunca negaram o fato de que até A Kind of Magic (1986) “sempre brigaram por dinheiro“, embora fossem brigas pontuais que jamais interferiam no trabalho criativo ou relacionamento pessoal entre eles — tudo trazia, ao mesmo tempo, uma única mensagem: se o próximo álbum não fosse um sucesso, eles parariam por ali mesmo. Mal sabiam que estavam prestes a realizar o melhor álbum de suas carreiras e um dos maiores álbuns de rock de todos os tempos.

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Uma Noite na Ópera
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A gravação do 4º disco do Queen começou imediatamente após a assinatura do contrato com a EMI. O tempo urgia. Com todos trabalhando em canções pessoais, arranjos e ideias de produção para o novo disco, o contato entre o quarteto foi se reduzindo. Eles chegaram a gravar trechos de suas participações em estúdios ou horários separados para que os outros continuassem trabalhando em outras canções. Foi por esse motivo (e por Bohemian Rhapsody) que A Night at the Opera tornou-se o disco de rock mais caro gravado aquele momento.

É claro que com tanta correria, ainda não havia título para o disco. Acontece que depois de perceberem a fortíssima influência operística (evidente ou disfarçada) que Mercury trouxe para o disco, todos concordaram que o nome tinha que ter alguma relação com este formato musical. Até que resolveram nomear a obra com o título de um filme que assistiram juntos e que todos haviam amado, Uma Noite na Ópera, de 1935, com os irmãos Marx. A banda ficou tão fã do trabalho dos comediantes que repetiria a dose em seu disco seguinte, nomeando-o em homenagem a um outro filme dos irmãos Marx que adoravam, Um Dia nas Corridas, de 1937.

Groucho

Março de 1977. Quando descobriu que o Queen era fã de seu trabalho, Groucho Marx convidou a banda para visitá-lo em Los Angeles. Os músicos o presentearam com uma cópia de A Night at the Opera (o disco, claro) e executaram “39a cappella. Cinco meses depois, Groucho Marx viria a falecer.

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LADO A
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Arpejos de piano em fade-out. Escala cromática descendente. Entrada compassada da guitarra até uma interrupção abrupta para um retorno com bateria, baixo e coro. Com essas pontuais introduções temos a abertura de A Night at the Opera, na canção Death On Two Legs (Dedicated to….). Era uma óbvia manifestação de ódio de Freddie Mercury em relação ao administrador anterior da banda, Norman Sheffield. Em algum momento das gravações, seus colegas tentaram argumentar algo sobre a “brutalidade” da letra, mas Mercury estava inteiramente empenhado em colocar a canção no disco, abrindo o álbum com vocais fortes, coro em harmonia realmente agressiva e blocos musicais intoxicantes.

A variação musical e os experimentos temáticos e estilísticos estavam apenas começando. A banda estabeleceu que realizaria um disco que apontasse atalhos para uma identidade que já haviam construído, não repetindo ou trilhando caminhos confortáveis (o altíssimo e perfeccionista ‘padrão Queen’ em evidência). E é isso que torna A Night at the Opera o álbum que coroa o Queen com todos os louros possíveis. Porque se trata de um álbum que a cada faixa apresenta uma variação de vida, música e espírito completamente diferentes. Mais do que nunca, era possível ver a participação e visão de mundo de cada um dos integrantes isoladamente.

A volta ao início do século XX — que a banda trouxe pela primeira vez com Bring Back That Leroy Brown, no disco anterior — aparece em ANATO de duas formas, uma em Lazing on a Sunday Afternoon e outra em Seaside Rendezvous, e demonstram o nível de criatividade (e coragem) deles em gravar “esse tipo de música” em uma disco de rock. No primeiro caso, temos um vaudeville/music hall bastante caros a Mercury, pelo menos até News of the World (1977). A canção representa um afiado contraste em relação à faixa anterior (Death On Two Legs) e traz uma curiosa influência vocal e conceptiva de Honey Pie, dos Beatles. Já Seaside Rendezvous possui uma excepcional sequência de alteração entre os blocos, mudando o que as “autênticas” canções de vaudeville não possuem: inovação. O acompanhamento ao piano é de Mercury, mas o solo no meio da música é totalmente feito com onomatopeias/vozes dele (clarinete) e Roger Taylor (tuba, trompete, kazoo). Até o “número de sapateado” da canção foi feito pelos músicos, batendo com as unhas ou dedais em uma mesa de madeira.

I’m in Love with My Car traz a marcante voz rouca de Roger Taylor em sua própria composição. Fica bastante claro que ele ainda estava adquirindo versatilidade, vide as semelhanças entre esta canção de Tenement Funster, de Sheer Heart Attack. Mas apesar da simplicidade geral (há apenas uma — linda — quebra melódica), a música é um dos mais estranhos e sensacionais “hinos de amor” gravados pelo Queen, terminando com o motor do Alfa Romeu de Taylor que, como todos ficaram sabendo depois dessa declaração, é apaixonado por carros. Logo a seguir vem outra canção de amor, agora feita para uma humana, You’re My Best Friend. Composta por John Deacon para sua esposa Veronica Tetzlaff, a forma cíclica de organização da faixa lembra uma outra composição dele, Spread Your Wings, de News of the World, mas tem uma letra definitivamente mais emotiva, ótimo coro de apoio e boa identidade dentro de seu gênero central, o pop. Deacon assume o piano Wurlitzer e tem uma ótima performance, mas é Mercury quem a finaliza com chave de ouro, com ornamentos e tempo rubato que ajudam a marcar todo o sentimento que a letra da canção nos passa.

39 e Sweet Lady são as canções de Brian May deste lado do disco. A primeira é um folk-sci-fi com letra inteligentíssima sobre viagem espacial (devemos levar em consideração que May também é astrofísico) e composição musical intricada, e a segunda, Sweet Lady, é a única faixa verdadeiramente hard rock de A Night at the Opera, tendo recebido de Roger Taylor o título de “partitura mais difícil de bateria que eu já gravei“.
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LADO B

Brian May se baseou em um sonho que teve (na verdade foram vários sonhos, mas nas entrevistas ele fala de dois: um sobre um dilúvio e outro sobre uma espécie de “vírus” que impedia as pessoas de se tocarem, de terem contato umas com as outras, algo que ele atribuiu ao seu medo de que a mesma coisa acontece acontecesse com os colegas de banda) para compor a estrondosa The Prophet’s Song, faixa que abre este lado B. A música é um monumento artístico. Se nós olharmos para outras bandas que no final dos anos 60 e início dos anos 70 procuravam aproximar o rock da música clássica, adicionando orquestrações em algumas faixas (Deep Purple, Uriah Heep, Pink Floyd, Nice, Gentle Giant, Emerson Lake & Palmer, King Crimson) veremos que a prática já tinha dado bons resultados e que fazer algo “melhor” ou “inovador” dentro desse âmbito estava cada vez mais difícil. Bem… não para o Queen. Ao ouvir a forma rotativa, art-rock e poderosamente cantada e harmonizada com que eles executaram The Prophet’s Song, chegamos à conclusão de que faziam isso como prática natural e não como uma exceção dentro de outra proposta musical.

Com oito minutos de duração, sessões de hard rock e heavy metal, referências na letra ao livro do Gênesis, à arca de NoéThe Prophet’s Song se liga, ao final de sua última frase, à belíssima Love Of My Life, que, assim como sua antecessora, é extremamente criativa em composição e execução vocal. Há aqui uma linha “pseudo-clássica”, que na verdade é a experimentação de Mercury ao elencar instrumentos diferentes em linhas melódicas afáveis que tivessem o mesmo poder que a letra. A composição de Mercury foi inicialmente no piano e os arranjos feitos por May para violão de 12 cordas acabou sendo executada na maioria dos shows (você provavelmente já deve ter ouvido ou visto vídeos de Freddie Mercury executando a canção ao vivo, regendo uma multidão cantando a música a plenos pulmões). Há quase completa ausência de percussão e não existe um tempo fixo, deixando a marcação temporal totalmente a cargo de Mercury (piano) e May (harpa), uma dupla de excelentes músicos executando uma das mais sensíveis canções da história do rock, concebida sob forte influência dos noturnos de Chopin.

Good Company é a chamada “canção da discórdia“. Ela traz todo o escopo “old school” que Mercury já tinha apresentado em faixas anteriores, só que com um elemento ainda mais curioso: May reproduziu todos os instrumentos de uma banda de jazz na guitarra ou em outros instrumentos como violão e ukulele. Enquanto compunha a canção, May a mostrou para os outros integrantes da banda, que não gostaram do que ele estava fazendo e só conseguiram entender a proposta quando começaram a acrescentar suas partes (instrumentais ou vocais).

Bohemian Rhapsody

Pergunte a qualquer pessoa que goste de música o que ela pensa sobre Bohemian Rhapsody. É quase impossível encontrar uma resposta ou uma definição negativa em relação à canção. E como poderia? Todos os superlativos e nomeações de “obra-prima”, “melhor de todos os tempos”, “canção definitiva”, etc., já foram atribuídos a Bohemian Rhapsody com justificativas em vários níveis musicais e artísticos. A canção, de fato, é uma peça artística insuperável e inesquecível.

Composta “aos pedaços” por Mercury, Bohemian Rhapsody marcou o ápice do stress da banda durante as gravações de A Night at the Opera. Demorou um tempo para Freddie Mercury explicar a todos a ideia geral da faixa (em termos formais/musicais, não de significado da letra, porque aí já é outra história), que, sem refrão, estava (sub)dividida em:

  1. Introdução a cappella
  2. Balada + solo de guitarra ao final
  3. Ópera
  4. Hard Rock
  5. Conclusão “moon rock

Com vozes de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e uma postura visionária do produtor Roy Thomas Baker, a faixa exigiu um trabalho gigantesco de vocalização. Os músicos chegaram a trabalhar em 10 horas de gravação por dia, resultando em blocos de overdubs com até 180 vozes! Agora imaginem o que era colocar isso em um disco numa época de tecnologia analógica e fitas magnéticas que perdiam a qualidade toda vez que fosse necessário adicionar uma camada, o que obrigou a cada um realizar gravações separadas em tonalidades diferentes de suas próprias vozes e juntar todo esse material na edição final.

O resultado final foi uma música que não tem apenas uma parte operística, mas toda ela pode ser classificada como uma pequena ópera, com abertura, árias e atos internos. Como a ideia de ciclo é exposta mais pela similaridade entre a intro ao piano e a conclusão feita no mesmo instrumento, Mercury e os outros integrantes da banda se sentiram à vontade para desenvolverem detalhes musicais distintos em cada um dos blocos. Nunca a criatividade, a ousadia e a excelência musical foram tão levadas a sério por um grupo de músicos que apostavam em algo totalmente novo para a época e que sabiam que poderia ser um problema para si mesmos.

Para completar, a banda gravou um vídeo promocional em outubro de 1975, que teve como ponto de partida a capa do álbum Queen II. A gravação estava passos à frente de seu tempo, dando o pontapé inicial para a prática da indústria musical de gravar vídeos que servissem de divulgação para os singles de seus artistas. Era o começo do reinado da MTV.

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A Night at the Opera termina com o arranjo de Brian May para o hino do Reino Unido, God Save the Queen, um instrumental que ele usou muitas vezes como despedida, nos shows. Além disso, a faixa é a única coisa gravada pelo Queen que não foi composta por nenhum de seus integrantes, embora Brian May seja creditado como arranjador.

Rompendo as estruturas comuns das muitas variações do rock e tendo coragem de arriscar e enveredar por caminhos que nenhuma outra banda quis ou imaginou ir, o Queen nos entregou A Night at the Opera, por muitos (inclusive por mim) considerado o melhor disco da banda, embora fique difícil escolher um “melhor” do Queen. À exceção de Hot Space, o quarteto da rainha teve uma discografia invejável, com alguns discos servindo de marco histórico definitivo para a música. A Night at the Opera, sem sombra de dúvidas, foi o principal deles.

Aumenta!: TODO O DISCO!
Diminui!:
Minha canção favorita do álbum: Bohemian Rhapsody

A Night at the Opera
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 21 de novembro de 1975
Gravadora: EMI / Parlophone
Estilo: Rock, Hard Rock, Progressive Rock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.