Crítica | A Noite Americana

estrelas 5É praticamente impossível assistir a um filme de François Truffaut e não perceber o seu amor pelo cinema. Além de excelente crítico, o polêmico jovem da Cahiers du Cinéma revelou-se um grande diretor desde o seu longa de esteia, Os Incompreendidos (1959). Sua jornada cinematográfica compreendeu a definição da Nouvelle Vague e seguiu um caminho um pouco diferente após a dispersão teórica e prática do movimento (que tem no rompimento de sua amizade com Godard o símbolo mais forte).

Posteriormente à inventiva e divertida homenagem ao noir americano, Atirem no Pianista (1960), Truffaut priorizaria aos poucos as histórias de amor e, já em fins dos anos 1960, passou a flertar com o cinema norte americano, não de modo a tirar-lhe do posto inovador e autoral, mas num caminho oposto ao de Godard, que depois do movimento estudantil de maio de 68, fundou com alguns amigos o Grupo Dziga Vertov e passou a um cinema político e experimental. Truffaut estava preocupado com as relações humanas e amorosas, e o seu melhor filme, As Duas Inglesas e o Amor (1971), dirigido exatamente nesse momento de cisão estilística, nos mostra uma versão completa do que o diretor via e fazia na sétima arte. Um ano depois ele lançaria Uma Jovem Tão Bela Como Eu, filme pouco interessante, se levarmos em consideração toda a sua louvável obra até aquele momento (à exceção de A Sereia do Mississípi, que é ruim mesmo). Em 1973 veio A Noite Americana, premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de receber outras três indicações, inclusive para Melhor Diretor.

A Noite Americana é a história de uma filmagem. Sem priorizar o desenvolvimento técnico do processo, Truffaut nos faz acompanhar com grande desenvoltura (sob a bela montagem de Martine Barraqué e Yann Dedet) a lenta produção e os vários tropeços pelos quais passa um filme, e junto a esse elemento metalinguístico, as histórias individuais dos profissionais do cinema são desnudadas, criticadas e até ridicularizadas. Num tom irônico, especialmente em relação ao amor e ao compromisso de fidelidade, o diretor consegue criar duas histórias sobre cinema, ambas guiadas com igual importância. O amor pelo arte é latente, e isso vemos tanto no modo com que Truffaut realiza o filme, quanto nos eventos que compõem a filmagem de Je Vous Presente Pamela, o filme dentro do filme.

É engraçado perceber como a técnica se torna a sua própria revisora em filmes metalinguísticos. Esses setores geralmente tendem a ser muito bem executados, e aqui temos uma fotografia e uma trilha sonora exemplares. Truffaut exterioriza o seu processo criativo, e inclui cenas com diálogos escritos em cima da hora, um interessante perfeccionismo cênico e o grande medo de decepcionar o público com o filme pronto. Em dado momento, o Diretor Ferrand (Truffaut) torna-se o conselheiro dos atores e técnicos, lidando com todas as brigas entre casais, crises de estrelismo e erros de execução de cena. Ferrand (como Truffaut, na vida real), vive para o cinema, deixa sempre suas paixões e prazeres particulares por último, colocando a arte em primeiro lugar.

Mas além da personificação de Truffaut na personagem de Ferrand, um outro evento autobiográfico está posto no filme: as sequências do sonho do cineasta, com o garotinho que roubava fotografias de clássicos do cinema. Quando surge da primeira vez, a cena nos parece deslocada e sem sentido, mas quando revela-se por completo, já ao fim da película, temos um verdadeiro alumbramento. Mais uma vez a paixão pelo cinema aparece relacionada à vida de uma personagem.

A Noite Americana é um filme que diz muito sobre o seu realizador. O próprio título – efeito cenográfico de transformar uma tomada diurna em noturna, usando filtro de imagem – é parte da visão que Truffaut tinha do cinema americano: uma interessante falsidade. Ao lado do sempre ótimo (e aqui tremendamente inexpressivo) Jean-Pierre Léaud, o diretor francês nos presenteia com uma homenagem ao cinema, e como ele mesmo dedica nos créditos iniciais, às irmãs Dorothy e Lillian Gish. Com um elenco talentoso e um inesquecível roteiro (com falas como “nós vamos fazer uma pausa, enquanto isso vê se me arruma um gato que saiba atuar”), A Noite Americana é um dos mais humanos e interessantes filmes já realizados sobre o cinema. Um filme para ver rever.

A Noite Americana (La nuit américaine) – França, Itália, 1973
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, Suzanne Schiffman
Elenco: François Truffaut, Jacqueline Bisset, Valentina Cortese, Jean-Pierre Aumont, Jean-Pierre Léaud, Jean Champion, Alexandra Stewart, Nathalie Baye, Graham Greene, David Markham
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.