Crítica | A Noite das Brincadeiras Mortais (1986)

estrelas 3

Ganhar dinheiro é bom. Vivemos em um mundo capitalista, por isso, somos pessoas materialistas. A indústria do cinema busca bilheterias que banquem os seus filmes, gerem lucros e alimentem a máquina de produção. A maior parte dos envolvidos no esquema industrial pouco se importa com a questão estética ou as propostas inovadoras: gerar bilheteria é o que basta. Diante das afirmações de abertura, não vejo motivação para questionar a proposta deste filme de terror relativamente absurdo, que flerta com um dos dias mais polêmicos do nosso calendário, o 1º de abril, conhecido como dia da mentira.

Quando lançado em 1986, a produção veio na esteira dos sucessos das franquias de terror, em especial, Sexta-Feira 13 e a numerosa contagem de cadáveres promovida pelo mascarado Jason.  Desde 1978, Hollywood investiu pesado no subgênero slasher, tendo realizado um painel extenso de assassinos, dias especiais para matança, bem como as motivações mais absurdas e as armas mais complexas. Desde os machados e facões, ao assassino do microondas e o Papai Noel psicopata. Até um biscoito tornou-se assassino e empunhou uma faca de cozinha em busca de vingança na época.

Assim, não demorou muito para o 1º de abril ser mais uma opção para o desenvolvimento de um esquema de matança que segue o protocolo básico. Jovens incautos, ao passar o final de semana num local distante, são mortos um a um, sem explicação aparente, até que a final girl, geralmente acompanhada de um rapaz viril, desvenda o mistério e encerra a história vencendo o antagonista até a continuação, marca registrada do subgênero em questão.

Em A Noite das Brincadeiras Mortais a estrutura é praticamente a mesma, com exceção do seu final, um plot twist que pegou muitos desavisados de surpresa, o que torna o filme um diferencial, bem como um sopro de criatividade dentro de um esquema de produção que começava a apresentar sinais de cansaços em meados da década de 1980. Tal como o Dia da Mentira, todo o banho de sangue realizado na narrativa não passou de uma brincadeira engenhosa por parte da organizadora do encontro. Tudo foi criado para pregar uma peça no casal que fica até o fim para desvendar o mistério.

Há vários elementos que tentam despistar o espectador incauto. Primeiro vemos duas irmãs em crise numa festa de aniversário, quando bem jovens. Logo mais, somos guiado para um dos ajudantes do capitão que sofre um acidente no barco que levará os jovens ao tal local paradisíaco, o que nos levanta outra suspeita. Será que o homem, aparentemente cego depois de sofrer um acidente, vai voltar para se vingar de todos?

Ao passo que a narrativa avança, descobrimos que tudo foi uma peça armada pela jovem Muffy (Deborah Foreman) e seu irmão Skip (Griffin O’Neal), jovens que desesperados ao terem de lutar pela manutenção da casa que herdaram, abrem uma hospedaria com gincanas no estilo “mistério”, pregando a brincadeira com os seus amigos, utilizando-os como cobaias.

Produzido por Frank Mancuso Jr. o filme tem a assinatura da Paramount e a busca incessante por sucessos que emulassem a fórmula que levava milhares de jovens ao cinema. O que deixou esta produção ter o mesmo sucesso foi a ausência de nudez, suspense quase nulo, ritmo pouco ágil e as mortes, elemento fundamental do slasher, em off screen. Com Amy Steel, protagonista de Sexta-Feira 13 Parte 2 na linha de frente, a produção tinha mesmo a ideia de conquistar os interessados pelo maníaco mais amada daquela geração.

Divertido, o filme mostra sinais de envelhecimento e não tem o vigor de algumas produções do mesmo estilo de sua época, mas no entanto, funciona como documento importante para a memória do slasher, subgênero presente na contemporaneidade com força total. Uma obra que precisa ser assistida com olhar diacrônico, mergulhado na época em questão, tendo em mira a melhor compreensão possível de seu conteúdo, bem como da sua proposta e dos elementos que o relaciona com o segmento “filmes de psicopata s mascarados”.

A Noite das Brincadeiras Mortais (April Fool’s Day) Estados Unidos, 1986
Direção: Fred Walton
Roteiro: Danilo Bach
Elenco: Jay Baker, Pat Barlow, Lloyd Berry, Deborah Foreman, Deborah Goodrich, Tom Heaton, Amy Steel, Griffin O’Neal
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.