Crítica | A Noite dos Mortos-Vivos (1990)

A Noite dos Mortos-Vivos 1990

estrelas 4

A Noite dos Mortos-Vivos é uma refilmagem que deu certo. Os envolvidos na produção foram suficientemente inteligentes para pensar que depois do filme ponto de partida, o “original” de 1968, e das suas continuações, bem como as versões europeias dos zumbis e a sátira pop estadunidense A Volta dos Mortos-Vivos, a cópia colorida ia precisar investir em algum elemento contemporâneo para tornar-se um filme mais ousado e interessante.

O enredo é semelhante. Um casal de irmãos, Bárbara (Patricia Tallman) e John (Bill Mosley), viajam para uma cidade do interior dos Estados Unidos, no intuito da realização anual de visita ao túmulo da mãe. Ao chegar, Bárbara se irrita com o irmão, constantemente em estado de graça, fazendo piadas sobre mortos “levantarem das covas”, dentre outras brincadeiras pouco engraçadas.

O inesperado (para os personagens, pois sabemos exatamente da dinâmica), então, acontece. Ao chegar são atacados por um homem de aparência catatônica, beirando ao grotesco. John é dizimado, mas Bárbara consegue fugir e alcançar uma casa abandonada numa zona rural próxima. A partir dai, sabemos relativamente como as coisas procederão: ela encontrará Ben (Tony Todd). Juntos, os protagonistas vão lutar pela sobrevivência.

Mais adiante, receberão alguns convidados: um casal e a sua filha debilitada, personagem que saberemos, logo depois, ter sido atacada por um dos zumbis. Além da família disfuncional que chega ao local, há também um casal de jovens, prato perfeito para os mortos insaciáveis se alimentarem antes das considerações finais da narrativa.

Em luta constante, todos batalham pela sobrevivência, num ambiente claustrofóbico cheio de sentimentos de intolerância no ar. É aí que entram as diferenças cruciais entre as narrativas. O filme clássico ganhou pelo aspecto “originalidade” e efeito surpresa, bem como a crítica aos males da guerra e do Vietnã, mas a produção de 1990 também não fica atrás. É nesse ponto que o filme fica ousado e interessante. A cena final, carregada de caráter crítico em relação aos problemas raciais que acometeram os Estados Unidos na época, está na montagem final, pois na versão clássica, ficou apenas na sugestão.

Os conflitos referentes à cor negra do personagem Ben continuam presentes, mas o foco central é a questão de gênero, pois Bárbara, ao assumir uma postura contrária à personagem de 1968, encarna a final girl típica dos anos 1980. Ela assume o posto de batalha, associando os seus momentos de fraqueza (gritos, histeria e medo) à necessidade de querer sair viva da situação a que foi exposta. Sendo assim, ela fica na linha de frente, enfrenta os monstros e toma decisões, diferente da personagem ponto de partida, a Bárbara dos anos 1960, passiva e totalmente dependente do apoio masculino.

A direção ficou por conta de Tom Savini. O profissional, responsável pelos efeitos especiais de filmes como Sexta-Feira 13 e O Despertar dos Mortos, utilizou mais uma vez a sua experiência como fotógrafo de guerra no Vietnã, para trazer à tona as terríveis imagens de corpos desmembrados, sangue jorrando para diversas direções e ferimentos que nos fazem querer virar o rosto de tão incômodos.

Para dialogar com a dinâmica do cinema frenético dos anos 1980-1990, a montagem ficou sob a responsabilidade de Tom Dubensky, membro da equipe que faz o seu trabalho de maneira bem adequada. Sem perder nada em termos estéticos para a produção clássica, a fotografia também eficiente foi assinada por Frank Prinzi. Outro destaque da produção foi o trabalho de som, acima da média para as produções da época, geralmente envolvidas em ferrões musicais, criados para manipular sustos fáceis no espectador.

Com 92 minutos de duração, A Noite dos Mortos-Vivos é uma refilmagem certinha, sem problemas narrativos, adequada para a sua época, com alguns lampejos de criatividade.  Lançada numa época de “quase-saturação” do tema, conseguiu alcançar um diferencial. O filme chegou numa época de crise para o gênero terror, pois as franquias A Hora do Pesadelo, Halloween – A Noite do Terror e Sexta-Feira 13 agonizavam com continuações sofríveis, além dos envolvidos no mainstrean não estarem interessados em filmes do gênero.  Uma época difícil para o gênero, resgatada apenas na metade da década de 1990.

A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead) – EUA, 1990.
Direção: Tom Savini.
Roteiro: John A. Russo, George A. Romero.
Elenco:  Tonny Todd, Patricia Tallman, Tom Towles, McKeen Anderson, William Butler, Katie Finneran, Bill Moseley, Heather Mazur.
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.