Crítica | A Noite dos Mortos Vivos

A NOITE

estrelas 4

De acordo com as teorias de Sigmund Freud, a morte é um dos temas que pouco mudou, mesmo com o avanço do pensamento e das posturas comportamentais do homem frente às mudanças tecnológicas e sociológicas ao longo da história da humanidade. Segundo o psicanalista, a nossa relação com o tema é foi preservada desde o início dos tempos e no campo do cinema já foi abordada através de cineastas sofisticados, como Ingmar Bergman e Woody Allen, além do tratamento mais “visceral” dos filmes de terror que há décadas, canalizam os nossos medos e inquietações através de narrativas assustadoras.

Em 1968, George A. Romero lançou A Noite dos Mortos Vivos e incluiu um novo capítulo na história do gênero. Ainda tendo Freud como base da interpretação, o filme nos remete à categoria do “estranho”, ou seja, a história é ambientada em um mundo narrativo similar ao nosso, mas apresenta acontecimentos que podem ser explicados através de uma tentativa racional de compreender as coisas, mas sem deixar de ser insólito, singular, inquietante e, às vezes, extraordinário.

Ao desenhar este cenário desolador, o diretor e o roteirista nos fazem mergulhar num universo que apresenta a lógica interior x exterior, com zumbis do lado de fora acentuando os conflitos internos de alguns sobreviventes dentro de uma casa. O filme começa com dois irmãos indo visitar o túmulo dos pais em um cemitério distante. Ao chegar são atacados por uma criatura moribunda, que logo depois saberemos ser um zumbi que retornou do mundo dos mortos para perseguir os ainda humanos.

Depois de um tempo fugindo, Barbara encontra uma casa aparentemente abandona e decide se refugiar. No local, encontra um homem no porão, também isolado, e mais adiante, dão socorro a um pequeno grupo de cinco pessoas, dentre elas, uma criança ferida por um dos zumbis. Logo, eles percebem que precisam traçar estratégias para a sobrevivência, vide os conflitos internos que só atenuam o enfraquecimento das estruturas físicas e psicológicas, o que fortalece a multidão de criaturas que circula a casa.

Os zumbis estão pautados por um interessante projeto. Têm como objetivo agregar os vivos à sua massa e na seara metodológica, utilizam a perseguição como tática para fazer a multidão crescer, haja vista que enquanto os sobreviventes tendem a se fragmentar por conta dos problemas internos, os zumbis adoram uma densidade e tornam-se uma massa opositora bastante coesa, bem representada graças ao trabalho de captação dos enquadramentos nas cenas externas e na dinâmica da movimentação e dos planos internos.

No que tange aos aspectos técnicos, o filme possui alguns detalhes interessantes: apesar do trato mais realista dos zumbis contemporâneos, graças aos avanços no campo da maquiagem e dos efeitos especiais, as criaturas deste clássico foram maquiadas com cera de coveiro e ainda assustam, com as suas performances aterrorizantes. A cenografia capta o cemitério de Evans City, interior dos Estados Unidos, ajudando a explicitar o isolamento e a opressão que permeia a narrativa que também conta com uma montagem eficiente.

Filmado em preto e branco, a produção tem um caráter documental, o que nos remete ao pano de fundo contextual. George Romero já apresentou em diversas entrevistas uma contra-análise do clássico, ao alegar que não pensou em críticas sociais na construção da narrativa. Essa informação pode até ser verdadeira, mas não podemos esquecer que existe a estética da recepção, o que nos permite entender algumas abordagens através do processo interpretativo de uma determinada época: o descontrole no Vietnã, as crises políticas nos Estados Unidos (Watergate) e o caldeirão intelectual que borbulhava em todo o mundo não nos deixam pensar que os zumbis remodelados de Romero surgiram do vazio. Só a cena final, com o poder de fogo oriundo dos federais e da imprensa, já nos deixa claro que há um jogo de complexidades através das cenas catárticas de perseguição e de morte.

Ao pensar em críticas sociais, não podemos deixar de fora as alegorias presentes no filme. Uma delas é o Existencialismo, corrente que marcou a época. Em A Noite dos Mortos Vivos, a mira está apontada para a solidão e a alienação, tendo no zumbi uma espécie de conclusão do reducionismo humano, com o homem limitado ao trabalho físico e sem o devido valor social, o que desaguava na perda total da identidade.

O filme é um clássico do cinema e em 1999, foi selecionado para preservação pelo Conselho Nacional de Filmes dos Estados Unidos, sendo também considerado um ícone da história do cinema e da indústria ao demarcar uma época conhecida como o fim da era dos drive-ins. Ganhou uma ágil refilmagem em 1990, é cultuado até a contemporaneidade e estabeleceu a presença constante dos zumbis na cultura pop, período marcado pelo abandono dos castelos medievais e dos canaviais sombrios para formação de multidões que buscavam perseguir os que ainda estavam vivos.

Com A Noite dos Mortos Vivos, George Romero deixava o vodu de lado para trazer zumbis que surgiam sem uma explicação mágica. As criaturas que apareceram sem qualquer explicação detalhada antecipavam a representação desumanizada e dominada pela lógica do consumo, temas de Despertar dos Mortos, produção lançada dez anos depois, em 1978, numa angustiante e niilista continuidade da temática.

A Noite dos Mortos Vivos (The Night of The Living Dead, Estados Unidos – 1968).
Direção: George A. Romero
Roteiro: John A. Russo, George A. Romero
Elenco: Duane Jones, Judith O´Dea, Karl Hardman, Keith Wayne, Marilyn Eastman, Kyra Schon
Duração: 96 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.