Crítica | A Noiva Estava de Preto

estrelas 3

No século XIX, o polêmico escritor José de Alencar foi acusado de apropriar-se de obras literárias estrangeiras e plagiá-las ao estilo nacionalista do Brasil imperial. Lucíola foi a sua maior “confusão” literária: o livro foi recebido por muitos como um plágio de A Dama das Camélias, peça de Alexandre Dumas Filho. Que a verdade seja dita: as semelhanças são gritantes, mas para quem conhece a biografia e o projeto literário do escritor, entenderá que na verdade a proposta não era plagiar, mas preencher as narrativas brasileiras com o cosmopolitismo europeu. Poucos entenderam.

Durante toda a história da arte, encontramos este processo de releituras, sejam assumidas ou disfarçadas. Com o cinema nunca foi diferente: um estilo surge sempre se baseando em alguma peculiaridade de outro, mas reescrevendo-se, dando uma nova roupagem ao que já se encontra pronto. Com A Noiva Estava de Preto é possível sentirmos esta sensação: as homenagens ao cinema de Alfred Hitchcock estão lá, mas François Truffaut consegue criar estilo dentro do próprio estilo do mestre do suspense: há um “quê” de Nouvelle Vague no filme, que se esforça para ser um suspense, mas se por algum momento precisar ser enquadrado em uma prateleira dos gêneros cinematográficos, pode, por descuido, por comédia. Prefiro alegar que o filme é um suspense com altas doses de humor.

Na trama, Julie (Jeanne Moreau) é uma moça à beira do suicídio. Depois da sua cerimônia de casamento, na saída, ainda na escadaria da igreja, seu marido é assassinado (por acidente) com vários tiros, disparados por cinco homens. Tomada pelo sentimento de raiva e com desejo de vingança, parte para a caça, na busca por eliminação de cada um dos responsáveis pela morte do seu marido: Bliss (Claude Rich), Robert (Michel Bouquet), Clemént (Michael Sonsdale), Delvaux (Daniel Boulanger) e Fergus (Charles Denner).

A direção do filme é digna de elogios: manejar a câmera e dar conta da técnica nunca foi um problema para François Truffaut. A fotografia de Raul Coutard surge como uma espécie de paródia ao cinema noir, preenchendo de luz justamente os momentos onde a narrativa clama pela escuridão. O clima “anti-noir” ganha mais força com a presença de um detetive e de uma dama fatal, bem como pela direção de arte de Pierre Guffoy, todos, trabalhos bem sucedidos e nos apresentado em forma de narrativa graças ao engenhoso roteiro de François Truffaut, em parceria com Jean-Louis Richard, baseado no romance homônimo A Noiva Estava de Preto.

Na época de sua produção, François Truffaut havia publicado um livro com extensas entrevistas com o diretor Alfred Hitchcock. Talvez envolvido pelo clima promovido pelo mestre do suspense na conversa, o francês decidiu adaptar para o cinema o livro que dá título ao filme, A Noiva Estava de Preto, de Cornell Woolrich, mesmo autor de Janela Indiscreta, livro adaptado e sucesso na carreira de Hictchcock. Para buscar maior aproximação com o clima de suspense, Truffaut escalou Bernard Hermann para a composição da trilha sonora.

O filme não é a obra-prima de François Truffaut, mas convenhamos, ele nem precisava: Os Incompreendidos, Jules e Jim e A Sereia do Mississipi já eram suficientes para alça-lo ao posto de um dos melhores diretores da incipiente história do cinema.

O filme foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme estrangeiro em 1969, e hoje é item de colecionador para os cinéfilos e amantes do cinema, mas na época, foi alvejado pela crítica especializada. Considerado como um filme menor em sua carreira, durante uma entrevista em 1983, o diretor disse que talvez este fosse a única produção que gostaria de ter a oportunidade de refazer. Ninguém é perfeito. Alguns filmes quase são. Este não é, mas mesmo assim, consegue apresentar a destreza e o poder de um diretor em guiar o espectador para dentro de uma narrativa labiríntica.

A Noiva Estava de Preto (La mariée était en noir) – França, 1968
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard (baseado na obra de Cornell Woolrich)
Elenco: Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy, Charles Denner, Claude Rich, Michael Lonsdale, Daniel Boulanger, Alexandra Stewart, Sylvine Delannoy, Luce Fabiole, Michèle Montfort
Duração: 107 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.