Crítica | A Nova Onda do Imperador

“Puxa a alavanca, Kronk!”

Podemos facilmente entender o Pós-Renascimento da Disney, época de poucos lançamentos expressivos para o estúdio, sem grandes sucessos como os de antes, como um período das trevas, mas, deixando essa vertente comum de lado, também podemos enxergá-lo como um dos momentos de maior coragem narrativa da empresa, apostando em mais histórias completamente novas, como é o caso de A Nova Onda do Imperador. Com o surgimento de mais e mais roteiros originais, em uma constante que já tinha ganhado forma em Dinossauro, do mesmo ano, passamos a ter obras sem qualquer fundamentação em experiências anteriores, como literaturas clássicas ou inúmeras adaptações cinematográficas. São criações que precisaram sustentar-se, pela crítica e pelo público, por si mesmas. Ao mesmo tempo, as animações começaram a transpor, para suas narrativas, jornadas protagonizadas por personagens muito mais falíveis, distanciando-se de uma visão mais preto no branco. Tanto A Nova Onda do Imperador quanto Lilo & Stitch, por exemplo, tem anti-heróis como protagonistas, personalidades que, obviamente, passam por uma jornada de redenção, mas exigem um outro tipo de tratamento pelo roteiro para nunca distanciá-los completamente do público. O humor é uma das maneiras mais costumeiras de transformar a repulsa em aproximação, exatamente o que acontece com Kuzco (David Spade), o jovem imperador fascista, egocêntrico e covarde que assume as rédeas de uma das mais interessantes produções dessa empresa.

A Nova Onda do Imperador, por excelência, é uma comédia pastelão de alto escalão. Os personagens mais relevantes da fita, com exceção de Pacha (John Goodman) – camponês que é humilhado pelo imperador, querendo construir uma casa de veraneio no lugar da sua propriedade -, possuem um olhar esperto sobre comédia. Como um dos destaques, o gigantesco Kronk (Patrick Warburton), capanga da antagonista maior do filme, é uma doce presença na obra, extremamente simpática, sem nunca sabotar-se em gags desnecessariamente repetitivas, como acontece em outros casos. A Nova Onda do Imperador não acerta em todas as suas piadas, entretanto, dificilmente uma obra desse naipe conseguiria, por tratar-se de, majoritariamente, termos subjetivos, mas, como uma produção do gênero da comédia, puxando para um lado ainda mais pastelão, entende o seu público-alvo e o interesse dos seus espectadores em comédia infantil, ingênua e agradável, impulsionada pelo estilo e charme do longa-metragem. Os grandes truques na manga, agora caminhando para uma sagacidade mais refinada, são as referências que tece às fórmulas que usa indiscriminadamente, todavia, auto-conscientemente, em uma espécie de vertente paródica muito bem apurada. Quando uma longínqua perseguição, cheia de obstáculos para os vilões, resulta em uma reviravolta, na qual eles, mesmo aparentemente atrasados, chegam antes dos heróis em determinado destino, o filme quer brincar com os seus próprios artifícios narrativos. A animação possui, no final das contas, inúmeras cenas marcantes.

Mas como tornar um personagem desagradável extremamente simpático ao público? Transformando-o em uma piada ambulante. David Spade estuda um trabalho vocal diferenciado ao seu protagonista, diversificando-se das vozes que os heróis de outras narrativas possuíam, em visuais musculosos, bastante convencionais nos padrões estéticos. Caso Kuzco fosse dessa maneira, não um jovem franzino, com corte de cabelo exótico, a rejeição, por parte do público, seria imediata. O espectador não o enxerga como uma figura esnobe, apesar de ser. O espectador enxerga Kuzco como uma figura mimada, característica encarada como patética pela sociedade, mas não vilanesca. As diferenças no tratamento desse protagonista com os demais da empresa, grandes heróis e personagens carismáticos, defendendo o bem e outras virtudes, são gritantes. Kuzco é celebrado, no início do filme, de um modo parecido com a celebração de Hércules pelas musas, em seu filme homônimo. Contudo, enquanto aquela adoração era gratuita, esta é parte de um ritual fetichista de celebração do próprio eu. O grande ponto de embate é o fato de Kuzco, em um primeiro olhar sobre a sua personalidade, não ser muito diferente de Yzma (Eartha Kitt), a grande antagonista da obra, que envenena o personagem com intuito de matá-lo, mas acaba transformando-o em uma lhama. As intervenções, quebrando a quarta parede, garantem o desinteresse do herói em uma redenção pessoal. Quando Yzma assume o poder, a personagem apenas redecora todo o palácio, assim como Kuzco o decorava exaltando sua própria existência.

Acima de tudo, o roteiro também não compartilha com o espectador nenhuma informação sobre o passado do personagem, sem apegar-se a pieguices sobre uma história trágica, que tornou-o, possivelmente, esse ser desprezível que ele é atualmente. Kuzco é assim porque sim, sem nunca ter sido propriamente educado. Contudo, apesar disso, a jornada de A Nova Onda do Imperador garante que a bondade humana possa existir em qualquer ser. Embora acreditemos nessa possibilidade, investida pelo personagem Pacha – um arquétipo do chefe de família interessado no bem de seu grupo -, a obra termina sendo mais convencional do que poderia ter sido, não trazendo muita autenticidade nessa trajetória de redenção. O relacionamento entre os personagens, porém, casa com o charme pastelão da obra. A própria transformação do imperador em uma lhama é completamente baseada no humor nonsense. A história, enfim, terminar por ser muito mais minimalista do que monstruosos épicos traçados anteriormente pela Disney. O longa-metragem se passa no meio de uma grande civilização inca, mas Mark Dindal nunca procura por planos que mostrem tal imensidão cultural e arquitetônica. A ambição foi deixada para trás com Dinossauro. Quando amplia os horizontes, diminui o objeto enfocado. O filme, dessa maneira, honra a sua própria proposta, sem tentar ser desonesto com as suas pretensões. A Nova Onda do Imperador é corajoso justamente por não procurar a grandiloquência de outrora, da mesma forma como Kuzco abandona a sua busca incessante pelo mais e mais.

A Nova Onda do Imperador (The Emperor’s New Groove) – EUA, 2000
Direção: Mark Dindal
Roteiro: David Reynolds, Mark Dindal, Chris Williams, Roger Allers
Elenco: David Spade, John Goodman, Eartha Kitt, Patrick Warburton, Wendie Malick, Kellyann Kelso, Eli Russell Linnetz, Stephen J. Anderson, Bob Bergen, Patti Deutsch, John Fiedler, Sherry Lynn, Mickie McGowan
Duração: 78 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.