Crítica | A Odisseia (2016)

Diante do vasto repertório de filmes inspirados no poema homérico homônimo, eis mais um filme que nos remete ao título pomposo, dado com a honra merecida para um dos mais brilhantes pesquisadores da vida marinha na história do século XX: Jacques Cousteau, personagem social que já havia sido foco de outras produções, entre elas, a famosa série O Mundo Submarino de Jacques Cousteau, exibido pela BBC entre 1968 e 1975, conhecida por ter encantando o público.

Sendo assim, apesar de não ser uma tradução intersemiótica do trajeto de Odisseu ao retornar para Ítaca, A Odisseia é uma obra sobre um homem de grandes pretensões, tendo passado momentos importantes da sua vida navegando por diversos mares ao redor do planeta. Há alguns traços do herói homérico em Jacques Cousteau, além de algumas nomenclaturas gregas que nos remete ao imaginário da tradição oral literária que marcou a história cultural ocidental.

Dirigido e escrito por Jerôme Salle, o filme é um relato das aventuras de Cousteau, interpretado por Lambert Wilson como um homem forte e astuto, mas teimoso, arrogante e mulherengo, com uma personalidade que fica entre a aproximação e a repulsa. Com foco em importantes momentos de sua carreira, a produção atravessa três décadas e nos mostra os motivos que levaram o personagem a ser um respeitado documentarista, oceanógrafo e “cientista”, responsável por invenções importantes para a vida marinha.

As suas aventuras à bordo do navio Calypso, local que foi transformado em laboratório móvel para mergulho e pesquisa, tomam boa parte do desenvolvimento da narrativa. A embarcação, por sinal, carrega o nome da mesma deusa que no poema Odisseia, seduziu Odisseu para que ficasse em sua ilha e esquecesse Penélope, cercado de amor e com possibilidade de imortalidade. A proposta, rejeitada pelo grego não é bem o que Cousteau empregou em sua jornada, já que no casamento com a elegante Simone (Audrey Tautou), não conseguiu ser fiel, um dos problemas comportamentais do personagem que o fazem diferente do dedicado herói de Tróia.

Outro grande problema do personagem de Lambert Wilson, interpretado com dedicação e esmero, é a sua relação com o filho mais velho, Phillipe (Pierre Niney), jovem que muito diferente de Telêmaco, personagem que representa a “busca pelo pai” na história da literatura universal, mantém uma relação conflituosa que será equilibrada durante a fase adulta, quando ambos se envolvem emocionalmente durante um desastre ambiental. O roteiro preocupa-se em nos mostrar que desde o começo, Cousteau tinha planos de tornar o seu predileto um sucessor de sua trajetória marítima, mas os problemas de relacionamento não ajudaram.

Ambos até conseguiram curtir um pouco da relação após hastearem a bandeira da paz, mas infelizmente Phillipe sofre um trágico acidente, o que ceifa a sua vida e marca para sempre o coração de Cousteau com muita amargura. Jean-Michel (Benjamin Loverne) é o filho mais novo, com tímidas aparições, o que também denota pouca presença em cena.

Baseado no livro Capitaine de La Calypso, de Cousteau em parceria com Albert Falco, A Odisseia é também assinado por Laurente Turner, responsável por dividir o roteiro com o cineasta Salle. Irregular na condução de algumas cenas, o filme traz uma história muito brilhante que talvez merecesse maior pompa. O setor técnico consegue dar conta das suas atividades: os planos abertos e as paisagens submarinas dão a devida imensidão que a narrativa precisa, combinando adequadamente com o título que o filme carrega.

O homem conhecido pelo seu gorro vermelho a bordo de seu navio não foi um homem perfeito. Longe de ser exemplar, comportou-se irregularmente com a primeira esposa, com os filhos, casou com a amante (Francine Triplet), união que deu o que falar quando a “lenda” faleceu, numa batalha judicial por bens que mexeu com os tabloides. Apontado como responsável por atacar indevidamente o meio ambiente, explorando ao invés de colaborando com o ecossistema, Cousteau foi um homem que dividiu opiniões. De um lado os discursos de ódio, que viam todos estes defeitos citados anteriormente. Do outro, admiradores que conseguiam ver, por detrás do egocentrismo, a fachada de cidadania ao investir em ações com foco na preservação do planeta.

A Odisseia (L’odyssée) — França, 2016.
Direção: Jérôme Salle
Roteiro: Laurent Turner, Jérôme Salle
Elenco: Lambert Wilson, Audrey Tautou, Pierre Niney, Benjamin Lavernhe, Laurent Lucas, Martin Loizillon, Vicente Heinene, Roger Van Hool, Adam Neill
Duração: 122 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.