Crítica | A Odisseia de Alice (2014)

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Quando uma produção decide traduzir para o cinema os elementos semióticos da literatura, uma das preocupações do público é a forma como as correspondências vão traçar diálogo. Já sabemos que o ideal de fidelidade foi deixado de lado há eras e que uma boa “adaptação” precisa ser ousada, irreverente e apresentar uma leitura menos subserviente ao material literário. Uma das coisas mais interessantes do filme em questão é justamente reler o poema homérico, mas apresenta-lo numa perspectiva feminina. Sim, em A Odisseia de Alice, a protagonista é uma mulher. Mas não uma mulher obediente e paciente como a Penélope de Odisseu, mas uma presença feminina dona de si, do seu corpo e dos seus desejos.

Alice (Ariane Labed) é uma competente engenheira que trabalha em navios de carga. Sua responsabilidade é dar suporte técnico para as embarcações, algo que de acordo com os rígidos padrões sociais, requer a presença “masculina”. Alice já reverte isso. Ponto para os realizadores. Ela passa períodos bem extensos em alto-mar, sendo a única presença feminina entre todos os homens. Independente, livre e como dito anteriormente, dona de si, Alice é um personagem que vaga pelo navio e mexe com os homens, chamando à atenção para a sua carga de sensualidade.

Envolvida num relacionamento amoroso com Félix (Anders Danielsen Lie), as coisas ganham novos contornos quando recebe a orientação para seguir o navio Fidelio, embarcação comandada por Gael (Melville Popaud). Mesmo com namorado, ela não se deixará seus desejos encaixotados. Sem os dilemas femininos estereotipados por determinado tipo de literatura, Alice revela-se feminista e avançada, empoderada numa cultura sexista e cerceada por homens, constantemente em luta pelos seus direitos, além de confrontar as opressões da padronização de comportamentos, pois desfruta dos prazeres e de sua sexualidade sem sentir-se julgada. Versão de Odisseu, não tem vergonha de assumir que já se relacionou sexualmente em quase todos os continentes.

Com perfil de bravura e imponência, tal como o rei de Ítaca, Alice comporta-se de acordo com o que a sociedade convencionou definir como “padrão masculino”. Seguindo a lógica de Foucault, filósofo moderno que em determinado momento alegou que “o barco é um espaço flutuante, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo”, Alice sonha em voltar para casa, assim como Odisseu, mas enquanto isso, ela convive sem as determinações ou busca por definições exatas acerca do que é certo ou errado, correto ou incorreto, desejável ou indesejável. Ela simplesmente deixa as coisas serem levadas e ganharem seu rumo, tal como um barco lançado no mar, sem direcionamento de um humano.

Escrito e dirigido por mulheres, Clara Borreau e Lucie Borleteau, respectivamente, A Odisseia de Alice emula da odisseia homérica a imensidão do mar, o gigantismo do navio, em sua estrutura exterior e interior, colocado sempre em contraponto com os personagens, com reflexões sobre desejos, amor idealizado e paixões arrebatadoras. A direção de fotografia de Simon Beaufils dá conta dessa demanda visual, associado ao trabalho equilibrado de direção e do bom roteiro que serve como ponto de partida.

Uma das metáforas do filme é que viajar é bom, mas no final todos querem um “porto seguro”. Odisseu sabia muito bem disso quando tentou retornar para Ítaca. Outro detalhe apontado sabiamente por alguns especialistas é a associação entre o navio Fidélio e a economia. A embarcação de cunho econômico (transporta mercadorias) navega de acordo com o estabelecimento da economia do “momento”, tal como Odisseu e seu retorno para Ítaca, herói que depende da vontade dos deuses para atravessar o mar e chegar em casa para recuperar o seu trono de rei.

Ao longo da história do cinema, alguns personagens icônicos já foram reinventados como mulher. O herói da procrastinação, Hamlet, construído por Shakespeare, por exemplo, ganhou uma versão feminina, com desempenho de Asta Nielsen, em 1920, como uma mulher que ganha a vida disfarçada de homem. O interessante destas leituras é o caráter de reinvenção e a comprovação da importância de estarmos atentos aos contextos históricos dos filmes que analisamos e consumimos, pois o subtexto de uma época é algo tão poderoso quanto os elementos estéticos presentes em cena. A versão girl power contemporânea de Hamlet, dirigida por Claire McCarthy também fará uma leitura feminista, com olhar de empoderamento para Ofélia, personagem interpretada por Daisy Ridley, construída no roteiro como alguém forte, corajosa e com ar de heroína, numa reinvenção que com certeza trará bastante polêmica. Vamos aguardar, enquanto isso, retornemos das digressões, pois precisamos entender mais de Alice e de sua Odisseia. Para isso, caro leitor, você precisará assisti-la e se possível, retornar para os comentários, tudo bem?

A Odisseia de Alice — (Fidelio, l’odyssée d’Alice) França, 2014.
Direção: Lucie Borleteau
Roteiro: Clara Bourreau, Lucie Borleteau, Mathilde Boisseleau, baseados no poema Odisseia, de Homero
Elenco: Anders Danielsen Lie, Ariane Labed, Bogdan Zamfir, Jean-Louis Coulloc’h, Manuel Ramirez, Melvil Poupaud, Nathanaël Maïni, Pascal Tagnati
Duração: 97 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.