Crítica | A Origem do Flash (Flash Comics #1, 1940)

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estrelas 3

Criado por Gardner Fox e Harry Lampert, o Flash apareceu pela primeira vez nos quadrinhos em 20 de novembro de 1939 (embora a revista Flash Comics #1, onde ele surgiu, tenha data de capa de janeiro de 1940, como era prática editorial da All-American Publications, futura National Periodicals e DC Comics, sempre utilizar dois meses entre a publicação real da edição e a impressão da data que capa, que seria o “prazo de validade” da revista nas bancas, antes de ser definitivamente recolhida. Exatamente na mesma edição, estreou o Gavião Negro e Shiera Sanders (futura Mulher-Gavião), também personagens de Fox, ao lado de Dennis Neville.

A história de origem do Flash acontece juntamente nesta sua estreia, e é explicado que o estudante Jason Peter “Jay” Garrick estava vistoriando alguns experimentos com água pesada quando, por acidente, derrubou uma parte do material em experimento, inalou por muito tempo os gases ali contidos, desmaiou e, ao acordar, já era “a coisa mais rápida viva”, fato que, neste começo de saga do futuro herói, é sabido apenas por seu tutor no laboratório, pelo médico que o acompanhou após o acidente e por Joan Williams, sua paixão neste momento e que ele, sem cerimônias, faz questão de contar, não perdendo a oportunidade de se exibir um pouco.

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Alguém diz para o Sr. Jay Garrick que ele não pode fumar no laboratório? E que ele tem que prestar atenção nos resultados do experimento que precisa vistoriar?

Como era de se esperar, por termos aqui uma história da Era de Ouro e por estarmos no decorrer da Segunda Guerra Mundial, há uma porção de referências políticas (algumas sutis e outras bem descaradas) e maneirismos artísticos ligados a estas duas épocas, o que em termos de roteiro torna a história um tantinho risível, embora seja algo fácil de se compreender o porquê. Como exemplo, destaco o momento em que os vilões do grupo The Faultless Four (Sieur Satan, Serge Orloff, Duriel e Smythe — com exceção de Satan, que aparentemente conseguiu escapar, os outros membros do grupo de fato morrem durante a ventura) falam seus nomes e dizem o que fariam com o sequestrado Major Arthur Williams, pai de Joan, caso ele não falasse onde estava um secreto Bombardeiro Atômico americano.

A narrativa das ações dos personagens era uma das bases das primeiras décadas dos quadrinhos (tanto da Era de Ouro quanto da Era de Prata), mas nestes anos iniciais dos heróis a coisa realmente intensa. Mistura-se então uma aventura de gangue com uma ação típica de heroísmo de guerra que, apesar das explicações exageradas, é divertido de se ler. Mesmo com os pulos narrativos e falta de atenção ou noção do enredo para uma série de coisas, como por exemplo, o processo de manufatura do uniforme de Jay; ou as ações ridículas dele, como usar da velocidade para ganhar um jogo de futebol americano e ser o herói da galera “sem ser percebido”; a história tem um ótimo apelo e não é difícil perceber por quê o Flash se tornou rapidamente um herói tão querido pelos leitores.

Outra coisa que se destaca no roteiro é a mistura entre ciência, pseudociência e explanações quase esotéricas para o poder do Flash e as coisas que ele pode ou não pode fazer, como o autor comparar o personagem a Mercúrio (deus-mensageiro romano associado a Hermes, da mitologia grega) e, em um momento mais adiante, usar de uma lei da Física para explicar algo sobre fricção e velocidade… tudo isto em uma história que pisoteia um número absurdo de leis da Física e, quando conveniente, usa de uma teoria ou outra para explicar uma nova habilidade. É bem engraçado ler isso. E, só para constar, este caráter de colocar elementos de ciência e conhecimentos gerais nos roteiros — ao longo do tempo, com um nível bem maior de seriedade — acompanharia Gardner Fox ao longo da carreira, com o ápice no período em que ele passou à frente da Liga da Justiça da América.

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Alguém diz para o Sr. Jay Garrick que ele não pode usar a super-velocidade para roubar a vitória em um jogo de futebol americano? E muito menos jurar que vai fazer isso sem ser percebido?

A arte de Harry Lampert é bastante simples, deixando os gângsters feiosos e os mocinhos todos bem-apessoados, recurso que, dada a pobreza de certos pontos do roteiro, nos ajuda a entender quem é quem no andar da trama, atribuindo algumas características morais pela aparência dos personagens — sim, isso é horrível, mas é exatamente o que a arte faz. Também não há uma real preocupação em construir um ritmo orgânico para a história, então a diagramação de páginas é a mais crua e direta possível, parecendo uma coletânea de tiras reunidas. Porém, mesmo com os pontos baixos da experiência, o resultado ainda é positivo porque a aventura diverte, sem contar que esta é uma das revistas que você QUER continuar lendo para saber que outra coisa absurda e divertida virá a seguir. Um marco histórico, sem dúvidas.

Flash Comics #1 (EUA, janeiro de 1940)
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Harry Lampert
Capa: Sheldon Moldoff
Editoria: M.C. Gaines
15 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.