Crítica | A Origem do Sandman da Era de Ouro (Wesley Dodds)

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Existe uma certa (e inútil) polêmica em relação a qual foi, de fato, a primeiríssima aparição do Sandman da Era de Ouro (Wesley Dodds) nos quadrinhos. A aparição mais lógica a ser adotada é a cronológica, que ocorreu na New York World’s Fair Comics #1, (data de capa: abril de 1939), com o personagem de Gardner Fox (sob pseudônimo de Larry Dean) e Bert Christman enfrentando um caso policial no modelo dos dramas políticos da época, com espiões querendo roubar uma poderosa arma inventada para uso do governo americano, numa trama chamada The Sandman… at the World’s Fair. Outros dizem que a real primeira aparição do Sandman é na Adventure Comics #40 (data de capa: julho de 1939), em The Sandman!: The Tarantula Strikes, porque esta trama, aparentemente, foi a primeira escrita por Fox e desenhada por Christman.
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The Sandman … at the World’s Fair

And so — till another time — adieu to the Sandman.

Inspirado no famoso personagem do folclore europeu (imortalizado pelo conto O Homem da Areia, de E.T.A. Hoffmann — embora esta não seja a única versão do personagem na literatura) Sandman aparece sem muito mistério na New York World’s Fair Comics #1, com uma tecnologia importantíssima inventada para o governo dos Estados Unidos e que deveria ser colocada em exibição no evento. A futurista Feira Mundial de Nova Iorque de 1939 – 1940 (evento precedido pela Exposição Internacional de Artes e Técnicas da Vida Moderna, em Paris, 1937) chamava muito a atenção pelas novidades científicas e artísticas que reunia, com criadores de todo o mundo, tendo até um Pavilhão Brasileiro no meio, com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer como arquitetos, e também uma mostra dos quadros de Cândido Portinari.

Sem personagens ou vilões que de fato marcariam sua carreira futura, o Sandman tem aqui uma entrada bastante bem pé no chão para um quadrinho da Era de Ouro, ainda mais com essa temática. Dodds é herdeiro da Companhia Dodds-Bessing Steel Corporation, e mesmo que seja classificado pelo roteiro como um “playboy milionário“, ele não é o tipo que só torra dinheiro, como um bon vivant irresponsável. Empresário, inventor e detetive, Dodds tem aqui a oportunidade de apresentar uma criação revolucionária na EXPO New York daquele ano, mas há um plano criminoso bem arquitetado, bem debaixo do seu nariz, para colocar as mãos nos documentos de criação de sua “arma de raios”. É nesse momento que, para investigar o desaparecimento da importante maleta com os papéis, que aparece o Sandman.

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Primeira página da primeira história do Sandman.

O roteiro indica que o herói já estava na ativa há algum tempo, pois ele é reconhecido de maneira rápida pelas pessoas que tenta ajudar ou combater. Sua aparição ocorre sem grandes explicações didáticas, o que por uma parte é bom, mas os eventos em torno dessa aparição ou são expostos de maneira muito abrupta ou reticente demais, criando uma sensação de dúvida ou incompletude da história para o leitor. Embora a trama, como um todo, seja positiva, seu desenvolvimento não é tão fluído e instigante. Com seu sobretudo, chapéu, máscara e um arma que dispara gás do sono para sedar os criminosos, Sandman investiga quem foi que roubou os planos de sua invenção — nota para uma boa sequência noturna, com algumas “visitas estratégicas” — e termina de maneira anticlimática, aludindo a uma participação futura do personagem em outros quadrinhos. No fim, o areinha surge como uma boa mistura de história de detetive com pitadas de mitologia em torno de uma icônica persona literária. Não é à toa que ele faria tanto sucesso e estaria entre os fundadores da Sociedade da Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis dos quadrinhos.

New York World’s Fair Comics Vol.1 #1 (EUA, abril de 1939)
Roteiro: 
Gardner Fox
Arte: Bert Christman
Capa: Vincent Sullivan, Joe Shuster, Fred Guardineer, Bert Christman, Fred Schwab
Editoria: Vincent Sullivan
10 páginas

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The Sandman!: The Tarantula Strikes

That violet odor? This sprinkled sand? The Sandman’s been here!

Mais preocupada com um tipo de continuidade e elementos canônicos para o Homem da Areia, The Tarantula Strikes é um bom complemento para a “história de origem” (entre aspas porque não é explicado, realmente, como e porquê Dodds — aqui, por algum motivo, chamado de “Dodd” — se tornou o Sandman) que tivemos na New York World’s Fair Comics #1. Agora com Bert Christman e Gardner Fox dividindo os créditos do roteiro, embora esta seja um história menor que a anterior, com apenas 6 páginas, vemos o protagonista ser representado de maneira um pouco mais bem humorada (a cena com ele colocando um bonequinho seu na cama e dizendo “boa noite, Sr. Dodd” é ótima) e até mais misteriosa, agindo em paralelo à polícia, mas utilizando métodos menos convencionais e, pelo que tudo mostra, bem mais eficientes.

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Primeira capa solo em que Sandman aparece.

Aparece aqui, pela primeira vez, o mordomo do personagem, Leslie Humphries, e também o vilão Tarântula (Mr. Crossart), criminoso encapuzado que está envolvido com o sequestro da socialite Vivian Dale. Embora a apresentação do conflito não seja cansativa (bem, o fato de ser uma história de 6 páginas também contribui para isso), o roteiro assume algumas coisas muito forçadas, como o fato de o vilão usar um quarto secreto na própria casa da sequestrada, a fim de escondê-la; ou voltar ao mesmo covil, marcando um encontro com a polícia, deixando um bilhete e saindo incólume… Considerando a forma como a mansão é representada e a falta de suporte para tornar isso inteligível na narrativa, o uso do espaço é um dos grandes tropeços do texto, mas não é algo que torne a aventura ruim. A ação do Sandman é pontual, recebendo desenhos mais criativos de Bert Christman do que na trama anterior, com uma cena no laboratório do personagem, uma variação de locais de ação e um pouco de sua dinâmica de sua vida pessoal. Uma boa história de estabelecimento de personagem.

Adventure Comics Vol.1 #40 (EUA, julho de 1939)
Publicação original:
 National Allied Publications (hoje, DC Comics)
Roteiro: Bert Christman, Gardner Fox
Arte: Bert Christman
Capa: Creig Flessel
Editoria: Vincent Sullivan
6 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.