Crítica | A Origem dos Inumanos (O Poderoso Thor #146 a #152)

estrelas 3,5

Depois de aparecerem pela primeira vez, como grupo, em um arco de Quarteto Fantástico, cuja crítica você pode ler aqui, os Inumanos ficaram sem lar próprio. Sem tração para garantir um título solo, mas com sucesso suficiente para não ser esquecida, a raça super-poderosa criada por Stan Lee e Jack Kirby ganhou desonroso espaço provisório como história secundária na publicação The Mighty Thor entre os números 146 e 152, onde os dois autores se dedicaram a contar a origem desses misteriosos e fascinantes seres.

Logo de início, é interessante notar que os pequenos arcos envolvendo os Inumanos dentro da revista do próprio Thor são bem mais interessantes do que as histórias do Deus do Trovão, que não estava em uma boa fase. Mesmo assim, os leitores reclamaram, pois os Inumanos ocuparam espaço que era dedicado a Tales of Asgard (Contos de Asgard), tradicional história secundária em Thor. Talvez por isso os Inumanos não tenham ficado muito tempo por ali.

De toda forma, é interessante ver a hesitação de Lee e Kirby ao mergulhar nas raízes dos Inumanos. No primeiro número, que, com o segundo, formam o micro-arco A Origem dos Inumanos propriamente dito, voltamos à aurora da humanidade e descobrimos que, entre os homens pré-históricos, existia um grupo que se desenvolveu bem mais rápido, criando tecnologia avançada (é curioso notar os paralelos com 2001 – Uma Odisseia no Espaço, que seria lançado no ano seguinte à publicação desse micro-arco) e, com isso, sendo hostilizado por seus pares menos evoluídos. Com o aumento da população de homo sapiens, essa raça avançada fugiu para uma pequena ilha, lá construindo a cidade de Attilan e vivendo em seclusão.

Esse conceito fascinante de Lee e Kirby nos é literalmente apresentado “a toque de caixa” em curtas cinco páginas, em um exercício de concisão fascinante, que continua, ainda, com a apresentação de Randac, o soberano da cidade, que deseja fazer experiências com o que é chamado de terrogen mist, ou, em tradução livre, “névoa terrógena”. Somente no segundo número é que, sem maiores explicações, o nome passaria a ser o atual, terrigen mist ou névoa terrígena. E é o segundo número que me leva a classificar como hesitante o trabalho da dupla criadora. No entanto, reparem em meu cuidado em chamá-lo de hesitante, não ruim.

A razão para o “hesitante” vem da inserção, nesse segundo número, de mais informações pregressas, que antecedem em muito o que vemos no primeiro. Nele, somos apresentado ao Sentinela Kree que, literalmente “falando sozinho”, conta que despertou depois de um sono profundo em razão de algum acontecimento relativo à sua missão inicial que ele diz que a segunda fase se inicia agora. Claramente, o acontecimento referenciado é a exposição de Randac à névoa terrígena e logo aprendemos que os Kree foram responsáveis pela rápida evolução desse grupo de humanos que o Sentinela finalmente classifica como Inumanos. Aprendemos, também, que a névoa dá poderes diferentes a cada um que se expõe à ela, mas somente vemos, muito brevemente, um dos poderes de Randac, que solta um raio genérico de uma das mãos.

E, rápido como veio, esse micro-arco acaba. Fica a impressão que muito mais poderia ter sido feito e desenvolvido, mas ele abruptamente é quase que esquecido, ainda que a origem Kree dos Inumanos sempre tenha feito parte da mitologia dos personagens (algo mantido até mesmo em Agents of S.H.I.E.L.D.) e depois desenvolvida para envolver também os Celestiais, seres divinos que, antes ainda que os Kree, teriam vindo à Terra para alterar o DNA de alguns humanos, humanos esses que, depois, seriam alvo das experiências genéticas dos Kree.

O micro-arco seguinte, composto por And Finally: Black Bolt e Silence or Death (E Finalmente: Raio Negro e Silêncio ou Morte) avança milênios no tempo e entra na zona de conforto dos personagens apresentados em Quarteto Fantástico #44 a #48, todos membros da família real inumana. Nele, brevemente aprendemos sobre a origem de Raio Negro, o eterno líder dos Inumanos que guarda um poder destrutivo tão grande em suas cordas vocais que ele precisa manter-se sempre calado. Descobrimos que ele passou 20 anos em isolamento em uma câmera à prova de som, onde aprendeu a controlar seus poderes adquiridos quando, ainda embrião, passou pelas névoas terrígenas. Elee ele emerge como líder, já tendo Maximus, seu irmão, como um louco que deseja usurpar o poder. É interesse particularmente ver as versões mais jovens de personagens como Górgon, Medusa e Crystal, além do próprio Raio Negro, com pouco mais de 20 anos de idade. Há um ar de inocência ali, mas toda a pompa e circunstância da realeza inumana é mantida em um arco que, apesar de não acrescentar muito mais do que o passa de Raio Negro à mitologia, cumpre seu dever de divertir.

O terceiro e último mini-arco é o mais inusitado de todos e esse adjetivo não está sendo usado de forma elogiosa. Ao focar a narrativa no inumano aquático Triton, Lee e Kirby saem de Attilan e o colocam entre os humanos normais, quase que banalizando a história que vinham contando. A história lida com o primeiro contato moderno entre Inumano e humano e o que a presença de um ser diferente gera entre nós. Esse tema já havia sido abordado no arco dos Inumanos em Quarteto Fantástico e a repetição, aqui, perde um pouco de sua graça, especialmente por que Lee, revertendo um pouco ao seu começo de carreira, entrega um texto fraco, banal e simplista, com Triton sendo confundido com o Monstro da Lagoa Negra e sendo capturado. Mas é interessante notar que, uma vez revelados ao mundo, a cidade de Attilan não mais pode permanecer onde está e precisa ser movida, missão que fica com Raio Negro ao final e que basicamente não é encerrada, pois os Inumanos seriam despejados de The Mighty Thor já no número seguinte, só encontro uma casa mais ou menos fixa em 1970.

A arte de Jack Kirby ao longo de todos os arcos é impressionante. Livre das amarras criativas impostas pelo já estabelecido panteão original de heróis que ajudou a criar, o artista inova na abordagem dos Inumanos e de Attilan, expandindo o trabalho já sólido visto em Quarteto Fantástico. Ao usar muita tecnologia, Kirby consegue trabalhar seus intrincados traços que marcam fortemente sua carreira e o retiram do lugar-comum mesmo se comparado a artistas que o sucederam. Sua criatividade quase sem limite só é mesmo tolhida por algumas escolhas narrativas equivocadas de Lee que, convenhamos, nunca se notabilizou como grande roteirista.

A Origem dos Inumanos é, apesar dos problemas, leitura obrigatória para os fãs do grupo, dos quadrinhos Marvel e para todos que quiserem entender a origem ainda “pura” desses fantásticos seres.

A Origem dos Inumanos (The Origin of the Incomparable Inhumans, EUA – 1967/8)
Contendo: histórias secundárias em The Mighty Thor #146 a #152
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Joe Sinnott, Vince Colletta
Letras: Artie Simek, Sam Rosen
Editora nos EUA: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 1967 a maio de 1968
Páginas: 35 (total – média de 5 por número)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.