Crítica | A Origem (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

A Origem é sem dúvida um marco para o cinema de ficção científica moderno, ajudando a consolidar a carreira do diretor Christopher Nolan após o sucesso absoluto de seu Cavaleiro das Trevas. O longa também é essencial no que conhecemos por trilhas sonoras, seja de filmes ou – neste caso, principalmente – de trailers publicitários. Hans Zimmer aqui trouxe o que é popularmente conhecido como “BRAAAUMMMMM”, as cornetas estrondosas que ajudam a provocar um impacto estrondoso no espectador.

Porém, vale uma pequena correção histórica. A primeira vez em que ouvimos a icônica corneta foi no terceiro trailer do longa, que trazia a faixa “Mind Heist”… Que, vejam só, é de autoria de Zack Hemsey, que a compôs especialmente para o lançamento do filme. Fica no ar se Hemsey e Zimmer colaboraram juntos, ou quem foi de fato o primeiro músico a realmente abraçar o “BRAUM”. Mas como são dois usos e abordagens diferentes, acredito que nenhum dos trabalhos seja prejudicado; mas acho digno conferir mérito a Hemsey, que sempre acaba esquecido em discussões sobre a obra.

Mas enfim, chegamos ao trabalho de Zimmer em A Origem. É uma trilha fortemente composta por sintetizadores e elementos eletrônicos, com Zimmer buscando inspiração em Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid, livro de Douglas Hofstadter que estuda os processos criativos das três mentes do título, e da matemática por trás de cada um. E essa matemática é essencial para a trama do filme, que brinca com a ideia de tempos comprimidos e relatividade, algo que Zimmer adotou em sua música na criação de seu Braum. Half Remembered Dream é a primeira faixa do álbum, e também a que abre o longa com o crescendo de seus gravíssimos instrumentos de sopro; uma forma muito impactante de se iniciar um filme, diga-se de passagem.

Acontece que esse movimento é inspirado em uma arranjo desacelereado de “Non Je Nen Regrette Rien”, música da francesa Edith Piaf que tem um papel importante na trama por servir como o “despertador” dos personagens. Considerando que o tempo move-se mais devagar quando mergulhados nas camadas profundas dos sonhos, o Braum ser uma consequência direta da canção de Piaf é uma decisão surpreendentemente diegética, e um toque de gênio.

O Braum retorna em peso durante boa parte das cenas de ação do filme, com atenção especial para Projections, Don’t Think About Elephants Dream Within a Dream, mesclando-se perfeitamente com o restante da eletrizante orquestra, sempre com os tradicionais violinos e cordas de Zimmer.

A outra novidade aqui veio de inspiração de Ennio Morricone, quando Zimmer optou por usar uma guitarra como tema central. Equipado com uma guitarra de 12 cordas, Johnny Marr – do The Smiths – foi convidado pelo compositor para a criação desse tema, que ouvimos pela primeira vez em Dream is Collapsing, onde a guitarra é suave e quase radical, que vai sugerindo uma sensação de estranheza cool que definitivamente ilustra com fidelidade o universo criado por Nolan e fornece o sutil toque de James Bond que o diretor almejava; sendo uma calma antes da tempestade na cena em questão, durante a primeira extração no sonho de Saito.

A guitarra retorna em algumas cenas de ação, como na já mencionada Dream within a Dream, mas meu uso preferido se dá em One Simple Idea, quando o acorde de Marr é mais relaxado e suave, características essenciais para as sequências de exposição do mundo dos sonhos e o planejamento da equipe de Cobb.

Porém, aproveitando a deixa de cenas de ação (que também incluem guitarra), seria um sacrilégio não falar sobre Mombasa, a energética faixa movida principalmente por baterias e tambores, com o devido espaço para violinos e o Braum. Dá fôlego para a sequência na qual Cobb é perseguido por empresários nebulosos em um conjunto na cidade de Mombasa, retornando também em alguns momentos de transição da missão da equipe. É simplesmente eletrizante. Uma corrida para o banheiro ou o simples ato de tomar um sorvete tornaria-se o evento mais épico da vida graças à força desta faixa.

Mas o trabalho de Zimmer aqui não é só espetáculo. A relação de Cobb e sua esposa falecida Mal rende um estilo de música em Old Souls que é muito mais sereno e, graças às cordas distorcidas, surreal e estranho. Zimmer transmite também uma certa nostalgia através dessa serenidade, com as cordas indo e vindo como a marola do mar, algo muito apropriado para o arco de Cobb. Paradox também abraça a suavidade, servindo como um ótimo contrapeso à força da orquestra nervosa para o momento em que a equipe enfim desperta da missão, oferecendo ainda um violoncelo misterioso para o passo final da jornada de Cobb para resgatar Saito do Limbo.

Porém, o toque final de Zimmer vem com Time. É uma lindíssima peça de piano que toma conta de toda a paisagem sonora dos minutos finais, quando Cobb acorda e retorna com o resto da equipe para o mundo real – ou é o que parece, teorias da conspiração à parte. As notas curtas vão crescendo junto com a orquestra, que adota sopros, cordas e a guitarra de Johnny Marr para um hino de vitória e superação que torna simplesmente impossível não se emocionar com a ação, principalmente quando o protagonista tem a visão de seus filhos. Neste profundo e delicado momento, a orquestra silencia-se para dar voz ao piano de Zimmer, agora em notas mais agudas que parecem sugerir um final feliz e triunfante… Até a visão do pião girando, claro.

A colaboração entre Hans Zimmer e Christopher Nolan foi definitivamente selada com A Origem, onde os dois partiram pela primeira vez para um projeto original. Com uma música tão poderosa e épica aqui, passando pelas magistrais contribuições na trilogia Batman e em Interestelar, mal posso esperar para ouvir o que os dois vão aprontar com Dunkirk.

Inception: Music from the Motion Picture

Composto e conduzido por Hans Zimmer
Gravadora: Reprise
Estilo: Trilha Sonora
Ano: 2010

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.