Crítica | A Outra Terra

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estrelas 3

Em 2016, a realizadora Brit Marling chamou a atenção do mundo através de The OA, seriado sucesso de crítica e público, incentivando, inclusive, sua renovação para uma segunda temporada. Entre os elementos da série que chamaram a atenção, o principal deles foi a estranheza presente na trama. No entanto, anos antes, Marling já abordava questões complexas optando pelo simbolismo para expressá-las, como na terceira história escrita por ela em sua carreira, A Outra Terra.

O longa, dirigido por Mike Cahill, mostra Rhoda Williams (Brit Marling), uma brilhante estudante de astrofísica do MIT que sonha em explorar o universo. Na noite em que um novo planeta é descoberto, ela dirige desatenta observando o céu e acaba batendo no carro de John Burroughs (William Mapother), um famoso compositor que estava no melhor momento de sua vida, com uma esposa amorosa e filho amorosos, além de um bebê por vir. O acidente causa a morte de toda a família de John e o deixa em coma durante um tempo. Depois de cumprir 4 anos de prisão por ter causado a tragédia, ela sai da cadeia e procura o compositor, buscando reparar o que fez. Enquanto isso, buscando um sentido novo em sua vida, a jovem se inscreve em um concurso, onde o vencedor poderia viajar até o novo planeta descoberto, a Terra 2.

No início, o roteiro, escrito por Cahill e Marling (que também protagoniza o filme),  adota uma narrativa linear e convencional, introduzindo a protagonista, estabelecendo os personagens principais e apresentando a Terra 2. Aliás, a estratégia visual adotada por Cahill ressalta esta normalidade, com uma constante câmera na mão, intercalando com alguns planos mais abertos para mostrar a outra terra, e uma paleta de cores frias, inserindo um estilo bastante realista na obra. Essas escolhas do diretor, são bastante úteis para que o público creia no universo apresentado e acredite naqueles personagens e suas dores.

Contudo, a partir do momento que o roteiro apresenta os conceitos da Terra 2, como o espelhamento com a Terra 1, dúvidas surgem na mente do espectador. Será que estamos presenciando ações apenas da Terra 1? Algumas cenas correspondem aos espelhos da Terra 2? Afinal de contas, a narrativa ainda é linear? Portanto, Marling inicia o que lhe consagraria em The OA, despertando uma sensação constante de estranheza e dúvida no público.

Obviamente, diante de tantas informações complexas, a diversidade de interpretações sobre o que a obra apresenta é bastante rica. Uma das observações possíveis sobre a obra é que de nada adianta buscar em outro lugar o que não temos aqui, a mudança não deve ser de ambiente, mas sim interna, algo justificado pela cena final, uma vez que, se Rhoda da Terra 2 foi atrás de seu espelho, certamente era atrás de uma realidade diferente, no entanto, como pode ser atestado pela trama, a história de dela na Terra 1 é triste. Além disso, essa interpretação pode ser alçada a uma esfera mais ampla; repare quando a jovem observa a outra terra com os olhos, ela perde a atenção e bate no carro de John, ou seja, de nada adianta a humanidade buscar outro planeta (como vemos bastante atualmente), se ela não olhar para si mesma e refletir sobre o próprio conceito de humanidade, uma vez que os assassinatos e atrocidades continuarão acontecendo, independente do local, porque o verdadeiro problema está no ser humano, não em seu habitat.

No entanto, o roteiro não é isento de erros. Alguns personagens, por exemplo, parecem estar na trama apenas para aumentar a complexidade do longa, sem possuir alguma função realmente relevante na narrativa, como o faxineiro Purdeep, principalmente na cena em que ele joga desinfetante nos olhos e ouvidos, destoando completamente do resto do longa. Além disso, a relação da protagonista com sua família é mal desenvolvida, mesmo aparentando ter importância no início, seu irmãos e seus pais pouco aparecem no filmes, soando como personagens desperdiçados.

Contudo, o longa atinge mesmo o seu auge quando mantém os pés no chão e aborda a relação de amor e arrependimento entre Rhoda e John (melhorando ainda mais graças as atuações primorosas de Marling e Mapother), destacando como um único erro em nossas vidas pode influenciar cada passo que daremos dali em diante. O drama envolvendo os dois é potencializado pelos momentos de silêncio, focando nos olhares dolorosos de Rhoda e graças ao bom trabalho de misancene; repare que a cena em que eles jogam boxe no vídeo game é uma perfeita representação do destino dos dois, mostrando como, apesar de estarem se divertindo, o confronto entre eles é iminente. Aliás, essa atmosfera de melancolia é ressaltada pela bela trilha sonora, constituída por instrumentos de corda e piano em sua maioria.

Mesmo com algumas falhas no roteiro e exagerando na estranheza de alguns momentos, A Outra Terra torna-se uma experiência satisfatória devido às diversas dúvidas que o filme suscita em nossa mente, constantemente provocando-nos a pensar de uma maneira diferente. Brit Marling é sem dúvidas uma realizadora criativa, basta estruturar um pouco melhor suas tramas e podemos contar com histórias cada vez mais interessantes e provocativas no decorrer da carreira da roteirista.

A Outra Terra (Another Earth) — EUA, 2011
Direção: Mike Cahill
Roteiro: Mike Cahill, Brit Marling
Elenco: Brit Marling, William Mapother, Jordan Baker, Robin Lord Taylor, Flint Beverage, Kumar Pallana, Diane Ciesia, Rupert Reid, Richard Berendzen
Duração: 92 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.