Crítica | A Paixão de Cristo (2004)

estrelas 3,5

Na época de seu lançamento, A Paixão de Cristo gerou inúmeras polêmicas devido às suas cenas de extrema violência, gerando até desmaios em algumas pessoas. Rapidamente, essas notícias espalharam-se mundo a fora, o que atraiu a atenção do público. No entanto, ao mesmo tempo que as controvérsias serviram para levar as pessoas ao cinema (até hoje, é uma das maiores arrecadações para um filme de língua não inglesa no mercado americano), prejudicou a mensagem que Mel Gibson tinha a transmitir, que vai muito além das agressões sofridas por Jesus.

O longa retrata as últimas 12 horas da vida de Jesus de Nazaré (Jim Caviezel), desde a traição cometida por Judas (Luca Lionello), passando pela julgamento comandado por Pôncio Pilatos (Hristo Shopov), até sua cruel e violenta crucificação, que, segundo o cristianismo, pagou pelos pecados da humanidade.

A julgar pelo título, A Paixão de Cristo pode parecer uma obra com os ensinamentos de Cristo em primeiro plano, no entanto, não é o que acontece. Há sim passagens que destacam frases marcantes de Jesus, como a famosa “amai-vos uns aos outros”, durante o sermão da montanha, mas a mensagem principal que Mel Gibson queria transmitir não era essa. A real intenção do diretor aqui é tornar evidente como o sacrifício do filho de Deus era necessário para o mundo (de acordo com a fé cristã).

Portanto, mesmo que soe gratuita, toda a violência vista em tela mostra-se um recurso impactante para ressaltar como a humanidade pode ser cruel e maldosa, necessitando, portanto, que alguém pague por seus pecados. Repare como, além das agressões sofridas por Jesus, a obra faz questão de destacar como o povo se divertia com aquilo e não perdia a oportunidade de humilhá-lo, escancarando o lado mais sádico que o ser humano pode ter. Além disso, o roteiro, escrito por Gibson, Benedict Fitzgerald e traduzido por Willian Fulco, destaca como a omissão de boas pessoas pode ser igualmente maléfica, algo exemplificado perfeitamente pelas ações de Pôncio Pilatos.

No entanto, é graças ao excelente trabalho técnico que o filme realmente impressiona, portanto, sua força está no visual. O design de produção e o figurino, com seus cenários grandiosos e roupas detalhistas, evocam com perfeição a antiga Jerusalém e criam a ambientação necessária. A trilha sonora cria um tom épico que se encaixa bem com a grandiosidade proposta pelo roteiro. Já a fotografia inteligentemente varia sua paleta durante a projeção: no início ela é azulada e sombria, antecipando todo o sofrimento que Cristo sofreria e criando uma aura divina sobre ele; na metade utiliza alguns tons de vermelho, destacando a violência do momento; e no fim recorre à cenas mais claras, recorrendo até mesmo ao flare, ressaltando como o sacrifício de Cristo iluminou o mundo. Mas o real destaque está na maquiagem ultra-realista do longa, tornando crível cada ferimento adquirido por Jesus e dando um peso enorme ao seu sacrifício.

Ademais, certas situações de A Paixão de Cristo servem perfeitamente como alegoria para fatos atuais. Veja como a população da época, mesmo com toda sua violência, apenas repete o que seus sumo-sacerdotes dizem (assim como muitas pessoas hoje em dia reproduzem determinados discursos de ódio que ouvem por aí). Mas a cena que mais remete aos nossos tempos ocorre quando os acusadores de Jesus justificam suas agressões dizendo “ele seduziu o povo ensinando doutrinas ofensivas e inaceitáveis”, trazendo para o nosso linguajar, Cristo estava sendo acusado apenas por pensar de maneira diferente (hoje os papéis se inverteram e são os cristãos que julgam quem se opõe aos seus princípios).

No entanto, a abordagem inserida por Gibson acaba prejudicando sua obra em outros pontos. Há alguns excessos claros durante a via sacra de Cristo, como a necessidade de pontuar cada queda dele com a cruz, prejudicando significativamente o ritmo do longa. Além disso, personagens com um grande potencial dentro trama são completamente subutilizados, como Judas, que morre logo no primeiro ato; e Maria, mãe de Jesus, que se resume a chorar enquanto vê o filho sofrer; algo que limita até mesmo o elenco, restando apenas à James Caviezel uma atuação de destaque por transparecer toda a dor física e psicológica de Jesus durante seu sacrifício. Problemas que não tornam o longa ruim, mas também  impedem que seja excelente.

A alta violência de algumas cenas pode até chocar, mas A Paixão de Cristo vai além disso. Mel Gibson apresenta, não apenas um filme tecnicamente impecável, como também uma obra que transmite algo que muitos não queriam ouvir, o quanto a humanidade pode ser cruel com alguém que só veio propagar a paz.

A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ) – EUA, 2004
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Mel Gibson, Benedict Fitzgerald, Willian Fulco
Elenco: Jim Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Hristo Jivkov, Hristo Shopov, Francesco DeVito Saint, Mattia Sbragia Yosef, Luca Lionello, Claudia Gerini, Fabio Sartor, Rosalinda Celentano
Duração: 126 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.