Crítica | A Parte dos Anjos

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Exibido durante a competição do Festival de Cannes 2012 e vencedor do Prêmio Especial do Júri, A Parte dos Anjos consegue ser uma espécie de filme à parte na filmografia de Ken Loach, ao mesmo tempo em que reserva boa parte do tom neorrealista das obras do diretor. Não há aquele clima cinzento de Pão e Rosas ou Ventos da Liberdade, apenas para citar exemplos. Tudo é mais colorido e ágil, ao mesmo em que mantém uma dramaticidade comovente, regada por um humor negro que, no fim das contas, surge como uma forma de ressaltar as críticas sociais, políticas e econômicas deste novo filme de Loach.

Robbie (Paul Brannigan) é um jovem infrator, morador de Glascow, na Escócia, que consegue se livrar da prisão por conta da compaixão de um juiz que vê nele a possibilidade de deixar de vez o mundo da delinquência. Robbie está prestes a se tornar pai. É sua última chance. Ou muda de atitude e de vida ou perde o filho e a namorada para sempre. Uma visita a uma destilaria de whisky o inspira a buscar uma saída para sua vida desesperada.

A Parte dos Anjos oscila constantemente entre o drama pesado e a comédia verborrágica, ora de forma sutil, ora de forma escancarada.  Alguns poderão reclamar da inconstância do filme em certas passagens (de fato, Loach deixa sua mão pesada falar mais alto em algumas sequências), mas na maioria do tempo o que temos é uma receita bem balanceada, onde as situações dramáticas conseguem comover sem muito esforço e as cenas de comédia arrancar risadas de forma sincera e natural.

Como de costume, os personagens dos filmes de Loach buscam, acima de tudo, a liberdade. Robbie (Brannigan), Albert (Gary Maitland), Mo (Jasmin Riggins) e Rhino (William Ruane) são pessoas deslocadas dentro deu seu próprio mundo, incompreendidas e desafiadas pelos que se encontram ao redor para que enxerguem algum sentido dentro de suas vidas, e que entendam as repercussões de suas ações. Apesar da humanidade conferida a estas figuras centrais, o roteiro de Paul Laverty (colaborador constante de Loach) peca ao não se aprofundar de forma satisfatória em cima de algumas figuras citadas acima, inclusive permitindo que as mesmas se entreguem a alguns estereótipos bastante irritantes.

Entretanto, o roteiro é bastante calibrado na forma com que consegue gerar seu humor à partir de situações que carregam, no fundo, um quê de seriedade bastante realista. As críticas voltadas a questões sociais idealizadas por Loach estão lá, porém camufladas dentro das próprias situações vividas pelos personagens, permitindo que a graça flua do próprio realismo da fita, sem deixar que tais mensagens acabam adquirindo algum senso de moralismo.

O título original, The Angel’s Share, é uma referência a parte dos vinhos que evapora no ar, e Loach utiliza tal detalhe como uma metáfora para a própria condição dos personagens: pessoas marginalizadas, porém tão humanas a ponto de que o próprio ditado “os atos justificam os meios” se torna literalmente real para os mesmos, dando vazão a suas atitudes que, apesar de moralmente contrárias, servem como um propósito maior em suas vidas. E o cinema de Ken Loach é isso: enfrentar caminhos tortuosos para, no fim, acabarmos nos encontrando.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.