Crítica | A Pele de Vênus

estrelas 4

Depois da experiência bem-sucedida em Deus da Carnificina (2011) Roman Polanski voltou a se encontrar com o teatro, desta vez, com uma peça de David Ives, que divide os créditos do roteiro com o diretor. Baseada na obra A Vênus das Peles (1870), de Leopold von Sacher-Masoch — sobrenome que dá origem à palavra masoquismo — a peça e o roteiro do filme colocam dois atores em cena; um diretor que está fazendo testes para encontrar a protagonista de A Pele de Vênus e uma atriz que chega de última hora para fazer o teste.

Polanski nos faz mergulhar no mundo a portas fechadas da dupla, partindo de uma panorâmica que chega a um teatro de Paris. As portas se fecham e vemos no palco parte do cenário de uma produção anterior, baseada em No Tempo das Diligências. O ambiente não é propício para o ensaio, mas adapta-se facilmente, graças a força do texto e da cobrança que ele faz à imaginação do espectador. Já nos primeiros minutos da relação entre o diretor da peça dentro do filme e a atriz que pretende assumir o papel principal, uma complexa relação de poder se estabelece. O cenário psicológico e semierótico para o que vem mais adiante está montado.

A primeira parte do longa é moldada pelo reconhecimento do terreno por parte dos personagens. Homem e mulher, diretor e atriz, dominador e dominada (numa relação que aos poucos se inverte e de forma bastante surpreendente) fazem seus movimentos no tabuleiro da representação. O espectador é engolfado pelo indecifrável jogo dramatúrgico, vendo misturar-se a vida pessoal dos personagens, a peça representada, a obra na qual a peça é baseada e o filme que conta essas histórias. Na dinâmica cênica, A Pele de Vênus se assemelha bastante aos dois últimos longas de Alain Resnais, Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012) e Amar, Beber e Cantar (2014), longas teatrais que apostam justamente nessa fusão entre personagem-teatro-literatura-cinema, como um exercício de percepção que nos cobra atenção em diversas camadas.

Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric seguram o roteiro com unhas e dentes e entregam performances memoráveis. A direção de Polanski é sentida nas variações de humor dentro de cada “ato”, nas nuances que cada um mostra quando está mentindo ou fingindo alguma coisa e ambos os atores sabem o momento exato de diminuir o tom para que o outro tenha destaque. E sabem também estar no mesmo patamar, como em um dueto cênico onde a importância é o conjunto e não um personagem isolado. Na última parte do filme, onde a narrativa fica mais complexa, os papéis se confundem ainda mais e o espectador não consegue definir de imediato se a dupla está treinando as falas da peça ou dominando-se na vida real. Essa plena importância compartilhada passa a ser o foco da fita, e salvo o final um tanto solto demais, tudo a partir deste momento é um grande deleite.

A música de Alexandre Desplat aparece aqui em duas aplicações diferentes, uma como demarcadora dos “atos” e “sub-atos” e outra como desconstrutora de atmosfera. Perceba que em alguns momentos, a música vai em caminho oposto ao que a ambientação pede, claramente “desviando a atenção” do espectador para que respire um pouco e volte a redobrar a atenção no bloco seguinte. Esta forma notável de execução da trilha sonora é seguida de perto por outro setor técnico do filme, a fotografia, que a cargo de Pawel Edelman jamais abandona o estilo teatral de iluminação, conferindo textura simples e ao mesmo tempo confortável ao palco onde a trama acontece. Apenas o que merece ganha destaque em A Pele de Vênus.

Trazendo discussões sobre sexismo, luta de classes, politicamente correto e falta de contexto que algumas análises possuem para obras clássicas, A Pele de Vênus é um jogo cine-teatral complexo e muito bem dirigido. O tropeço de Polanski aparece apenas na sequência final, excessivamente volátil em comparação a todo o restante da fita, mas mesmo assim aceitável para uma batalha mista de erotismo, força, desejo e arte. E exatamente como começou, o filme termina, em um movimento de recuo da câmera que nos deixa suspensos em um estado de dúvida, realização e prazer culpado.

A Pele de Vênus (La Vénus à la fourrure) — França, Polônia, 2013
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, David Ives (baseado na obra de Leopold von Sacher-Masoch)
Elenco: Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.