Crítica: A Perseguição
A Perseguição é o típico filme que expõe todos os traços de amadorismo de seu diretor e roteirista, Joe Carnahan, que comandou o bom NARC, mas conseguiu também parir Esquadrão Classe A, com o mesmo Liam Neeson no papel principal. Abarrotado de clichês e idéias que simplesmente se contradizem com outros instantes do roteiro, o filme insiste em manter seu espectador distante, atirando-o para fora da narrativa cada vez que nos deparamos com um de seus absurdos. É incrível, portanto, que ao final, caso você tenha se sustentado até lá, A Perseguição amarre várias pontas soltas, transformando-se em um bom filme e ainda surpreendendo.
Na trama, seguimos alguns extratores de petróleo que trabalham no Alasca, entre eles Ottway (Neeson), que, ao sofrerem um acidente de avião, vão parar em um local inóspito e coberto de neve com poucas chances de sobrevivência, tendo que lutar contra a natureza e uma furiosa matilha de lobos para verem o dia seguinte.
Acertando ao não encarar seus coadjuvantes, a maioria rostos desconhecidos do grande público, como meras presas ao traçar personalidades mais marcantes para eles, o roteiro de Carnahan e Ian Mackenzie Jeffers nos leva a se preocupar ou odiar cada um dos oito sobreviventes da tragédia. É uma pena, contudo, que o diretor resolva tão infantilmente descartar a maior parte daquelas figuras em cenas que estão presentes em cada nove de dez filmes do gênero. Logo, temos o personagem que é morto pelos lobos ao ir urinar, bem como outro que, vencido pelo cansaço, fica para trás e acaba sendo devorado. Por outro lado, fica bem evidente a inteligência que é conferida à matilha, revelando que, para Carnahan, eles não são meros animais dispostos a oferecer desafios ao grupo. São criaturas sagazes e organizadas – um inimigo à altura.
Mas, quanto mais se aprofunda em desenvolvimentos, mais o filme parece pecar, principalmente quando falamos de seu protagonista. Ottway, que se logo no início da projeção é mostrado como um homem consciente de seus atos, pois ao atirar num lobo que ameaçava uma plataforma de petróleo e encontrá-lo ainda ofegante, parece arrependido de seu ato e encerra logo o sofrimento do bicho, o que acaba humanizando o personagem e aproximando-o do espectador, passa de caçador perito e sagaz a um homem extremamente confuso e sem consciência de suas próprias habilidades, sem que possamos culpar o ator por isso, já que Liam Neeson demonstra firmeza em seu papel.
Em três cenas distintas, Ottway não só deixa de ter todo o potencial exaltado pela trama como se transforma num completo idiota, incapaz de executar as tarefas mais simples sem cair em contradição. Na primeira delas, quando o grupo está para deixar os destroços do avião, o caçador pede a eles que recolham as carteiras de todos os outros 117 passageiros para que sejam honrados por suas famílias depois, mas quando eles concluem o ato e um dos sobreviventes decide rezar pelos mortos, Ottway faz cara de preocupação e revela não terem tempo para isso. Noutro instante, o agora líder do grupo decide que todos devem seguir para uma floresta próxima, mas como caçador exímio que é, surge incapaz de compreender que, naquele lugar aberto e coberto de neve, obviamente o covil da matilha seria na mesma floresta. Por fim, já no desenrolar da terça parte da obra, um dos sobreviventes fica com o pé preso em um galho num rio e por conta disso, está se afogando. Qual, então, é a atitude do grande homem da natureza? Puxá-lo até não poder mais, em vez de simplesmente mergulhar e tentar soltá-lo do que quer que o esteja segurando. Assim, Carnahan enfraquece seu protagonista e não nos permite acreditar nas suas capacidades.
A trilha sonora de Marc Streitenfeld também deixa a desejar, já que segue o padrão e às vezes comete deslizes. Eleva-se demais nas cenas de conflitos e dramatiza em excesso aquilo que já é pesado, sem falar que acaba, num determinado momento, copiando descaradamente o estilo de Philip Glass em As Horas. A montagem aparece tão tortuosa quanto os demais aspectos da fita, introduzindo uma série de cortes que só potencializam a confusão causada pelos tremores de câmera nas cenas de ação, onde não sabemos quem é quem nem tampouco o que está ocorrendo.
Dessa forma, com tantos problemas, ainda é incrível que A Perseguição não só tenha me surpreendido em seu encerramento, como tenha conseguido se sobressair do mar de lama e neve no qual se enfiou com um desfecho que faz funcionar tudo que tinha dado errado até então. Partes soltas do roteiro se entrelaçam, a trilha toca na medida certa e a montagem, agora bem dosada, inflama, através de planos-detalhe e flashbacks, o espírito de ápice no espectador.
Claro que muito se deve ao último suspiro antes da queda, já que em seus momentos finais a obra ganha forças ao partir para um nível de abordagem diferente dos demais filmes que copiam o estilo, principalmente quando põe Neeson para discutir fé com os céus, levando-me a crer não só que aquilo é uma representação da realidade do ator, que perdeu a esposa recentemente e se afogou no trabalho para esquecer as dores, como também é o instante que serve de motor para seu momento catártico.
Ainda assim, salvando-se apenas pelo seu final, o filme de Carnahan consegue nos brindar com três ótimos trabalhos que fogem de sua alçada, sendo o primeiro deles a eficiente maquiagem de Gitte Axen, encorpada por sangue e neve, a edição de som que cria a macabra sinfonia dos lobos capaz de assustar até mesmo a nós que estamos do lado de cá, e o sempre divino trabalho de Greg Nicotero que, através dos animatronics, confere um ar de terror e realidade aos lobos, tornando-os oponentes palpáveis ao público.
A Perseguição (The Grey, EUA, 2011)
Direção: Joe Carnahan
Roteiro: Joe Carnahan e Ian Mackenzie Jeffers
Elenco: Liam Neeson, Frank Grillo, Dermot Mulroney, Dallas Roberts, James Badge Dale e Anne Openshaw
Duração: 117 min


































Aeeeeeeeee LIAM NEESON!!!!!!
Finalmente, Caio, deixou de implicar com os filminhos super pipoca como esse ai.
O trailer é super competente como prévia. Te deixa uma sensação de preciso ver!
Agora vou ver mesmo!
Eu deixei de implicar? Tudo bem que eu disse que o saldo final é positivo, mas ainda assim o filme poderia ser trocentas vezes melhor.
E se o filme-pipoca for bom, não tenho problema algum em dar 5 estrelas para ele.
Cara, Liam Neeson esbofetando lobos apenas com as mãos! Não existe nada mais awesome que aquilo!!!!
Não sei o que aconteceu com o Liam Neeson. O cara pirou. Como pode desperdiçar tanto talento em filmes tolos?
O Falcão Maltês
cara, eu não acredito nessa critica sua, fala sério, você assistiu o filme realmente ou só ouviu opinião de terceiros ???
o personagem muda sua atitude pelas circunstancias do filme porque ninguém é de ferro quando se passa por tantos momentos de “quase morte”, caramba eu nem consegui terminar de ler sua critica sem pensar em vários nomes mal educados pra tratar desse seu comentário, (nem vou dizer que isso é uma critica).
Não vi o filme, Renato. Como você bem sabe, nós, críticos, temos esse costume infeliz de, sem sequer ter visto a obra, analisá-la, às vezes só pelo trailer, para poder redigir aquilo que chamamos de crítica, quase sempre descendo a lenha, e frustrar pseudo-leitores.
Abraços e volte sempre!
O problema é que vocês acham que ser critico se baseia unicamente em critica negativa e acabam não dando importância ao contexto do filme pra entender o que realmente ta acontecendo, pra mim a mudança de personalidade dos personagens durante o filme só deixaram o filme mais realista e original, e com uma trilha sonora diferenciada que de certa forma fugiu dos padrões clichês que existem hoje, e fez isso muito bem! Ai vem os “críticos de plantão” e parece até que TEM que dar uma critica negativa, só porque decidiram fazer algo diferente.
não me leve a mal, só to fazendo uma critica ^^
Engraçado. É exatamente o que eu fiz também.
Mas enfim, não vejo por que levar essa discussão adianta. Nosso site só possui críticas negativas mesmo, já que é só o que sabemos fazer.
vi o filme e concordo com vc, Caio.
o final, apesar de um pouco surpreendente, IMHO não salvou a obra.
gostei de ver q alguém mais tb notou a série de contradições do roteiro, e tb fiquei decepcionado por ver o ótimo Liam Neeson se perder naquele mar de neve sem fim… uma pena
em compensação, qdo vc o vê em ação – de verdade – em Taken, esse filme some.
no mais, gostei de sua crítica pela inteligência dos argumentos e singular capacidade de perceber clichês, chicletes e gomas. apesar de todo o esforço, nem com super-bonder dava pra colar os fragmentos do filme… rs
bom site, e tb achei muito bacana seu senso de humor, um pouco ácido, mas bacana.
=)