Crítica | A Prece

À primeira vista, A Prece pode ser enxergado como um filme moralista cuja trajetória é voltada à legitimar a religião como chave para o bem estar. O longa dedica boa parte de seu tempo em explorar o dia a dia da vivência católica e genuinamente tem esses momentos filmados com uma certa afeição, no entanto não se deve reduzir A Prece como uma obra evangelizadora, mas sim valorizar a forma de abordar a religião como uma necessidade, um bem quase que material cujas pessoas precisam sustentar-se.

Thomas é um jovem usuário em heroína que após uma overdose é enviado para um retiro católico destinado à ajudar viciados em droga, buscando a salvação a partir da fé cristã. O garoto hesita nos primeiros dias, chega a fugir, mas com o passar do tempo entende que ou ele se trata ou morre. O medo corrompe sua moral ateia e convence-o a dar uma chance à cristandade, apenas rendido ajoelha-se e força-se a acreditar em Deus, passa a frequentar cada vez mais a igreja e rezar mais que todos os jovens, obsessivamente procurando uma saída. A fé de Thomas não passa de um redirecionamento de seu vício à Igreja, encontrar a devoção como algo que irá consumi-lo de forma parecida à droga, apenas sem a capacidade de mata-lo.

O ambiente do retiro encenado por Cedric Kahn é verdadeiramente acolhedor, as pessoas parecem sentir-se bem ali, mesmo que não intencionalmente apenas substituindo as drogas por um novo vício. A paisagem montanhosa indica a vastidão e a liberdade, no entanto não deixa de ser um local solitário e distante, mesmo repleto de gente, refletido nessa vontade repentina de entrar em contato com algo que não se sabe da existência, porém é a única solução viável dentro daquele cenário. Há uma cena bastante marcante quando a Madre regente daquele lugar pune Thomas por não rezar de verdade, mesmo que o garoto diga que é o mais esforçado de todos, indicando que é em vão o esforço enquanto a fé for lidada apenas como esse suporte vazio num mundo material onde não se tem qualquer certeza.

Cedric Kahn não responde se a religião é essencialmente algo bom ou ruim, ou se as preces de Thomas são atendidas, mas para ele, religião é uma dedicação resultada do desespero, um grito ecoado no metafísico que, queremos ou não, é capaz de ajudar a quem estiver precisando. Segundo Foucault, o fenômeno religioso é incapaz de ser dissociado das práticas de um sujeito, os feitos divinos estariam articulados no interior do fenômeno físico, mas apenas a fé catalisa a ação prática, como fosse o combustível do homem. Se as drogas eram o combustível de Thomas, ele convenceu-se de que a fé seria a sua única substituta, e a compulsão pela religião lhe tiraria da miséria em que vivia. Há alguns momentos que o filme desemboca numa certa pieguice, no entanto seus piores momentos logo são justificados, e o discurso de Kahn segue imparcial, apenas declarando a obsessão como motor na vida de Thomas, seja a fé, o romance, ou a droga.

A Prece (La prière) – França, 2018
Direção: Cédric Kahn
Roteiro: Cédric Kahn, Fanny Burdino, Samuel Doux
Elenco: Anthony Bajon, Damien Chapelle, Àlex Brendemuhl, Luoise Grinberg, Hanna Schygulla, Magne-Havard Brekke, Davide Campagna, Maité Maillé
Duração: 107 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.