Crítica | A Primeira Noite de um Homem

“Sra. Robinson, você está tentando me seduzir. Não está?”

Contém spoilers.

Antes de qualquer coisa, A Primeira Noite de um Homem é um forte representante de sua própria geração. Seu lançamento anunciou, assim como Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas e outros longas-metragens, o começo de uma revolução cinematográfica dentro da Hollywood. A Nova Hollywood definitivamente tinha muito da Nouvelle Vague francesa. Os roteiros menos burocráticos e o cinema mais autoral eram urgências. Mas o movimento por si só trazia muito do reflexo do que a sociedade americana era na época. A contracultura estava no seu auge, e portanto, o pessimismo também. E se algo que a obra de Mike Nichols tem de sobra é pessimismo – algo que ironicamente os pessimistas clamam por ser um realismo, tão realista quanto pungente.

Certamente os primeiros versos da canção The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel – “Hello darkness, my old friend. I’ve come to talk with you again. (Olá escuridão, minha velha amiga. Eu vim conversar novamente com você)”, que embala o começo do filme, já nos dão um gostinho do que estaremos apreciando no restante da produção. É incrível, no entanto, como nos negligenciamos e nos deixamos cair em expectativas que o próprio longa já faz questão de tirar. Ninguém mais acreditará em felizes para sempre depois que essa música tocar pela última vez.

A encantadora Sra. Robinson (Anne Bancroft), casada e cheia de arrependimentos prévios, seduz o jovem recém-graduado Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) e o garoto, desorientado devido à pressão familiar pós-faculdade, acaba por se engraçar nos charmes da mulher. O roteiro de Calder Willingham e Buck Henry, derivado do romance de Charles Webb, é pontual em adotar a efemeridade das relações; a busca por respostas precipitadas; a tomada de decisões futuramente prejudiciais. A juventude está florescendo, amadurecendo perante o mundo, e se há alguém certeiro em personificar essa juventude transitória, este alguém é Dustin Hoffman.

É surpreendente que, mesmo apenas 6 anos mais novo que Anne Bancroft, Dustin encarna perfeitamente o papel a que lhe foi conferido, imprimindo uma verdadeira e simpática imagem de menino abobalhado. Quando em cena, os dois atores, que formam o – primeiro – casal proibido do longa, exalam uma química monstruosa e subversiva, refletida do sentimento de que algo está errado/e de que algo vai dar errado. A evolução do personagem, entretanto, é a ilustração definitiva da abismal competência de Hoffman, que vai muito além da sua divertida – e encobertamente depressiva – caracterização inicial.

Essa evolução, no caso, se dá pela reviravolta que acontece na trama após Ben ser obrigado por seus pais a sair com Elaine (Katharine Ross), filha da Sra. Robinson. O relacionamento de Ben e Sr. Robinson, evidentemente coloca uma barreira entre o garoto e a garota; uma barreira que, subitamente, acabaria por ser derrubada. O rosto choroso de Katharine Ross diante das atitudes propositalmente nocivas do personagem de Hoffman claramente destruiria a acidez comportamental de Ben, sequer fosse sua intenção com tal. E assim ocorre. O beijo selaria a origem de um novo amor, ainda mais proibido que o primeiro, e daria margem à fecundação de um belíssimo felizes para sempre. Certo?

Contudo, apesar de todos esses fatores, o maior símbolo de A Primeira Noite de um Homem, e representante de toda a importância da obra para a arte cinematográfica, é o seu famoso final. É imprescindível comentar sobre ele para que entenda-se a magnitude que seu significado dá ao filme e à linguagem cinematográfica como um todo. No contexto, Elaine acaba descobrindo a verdade sobre o relacionamento de Ben com sua mãe, e desencanta do rapaz que, ainda apaixonado pela garota, vai atrás dela em Berkeley. A chama do amor reacende, assim como as complicações, o que dá origem a um casamento forçado entre Elaine e Carl (Brian Avery) e uma corrida contra o tempo.

“Elaine! Elaine!”

Aos gritos pela mulher que Ben acredita verdadeiramente amar, pela a qual o seu sentimento não surgira de forma deturpada, como no caso da afeição criada anteriormente com a mulher que lhe dera a primeira noite de um homem, o casamento é interrompido. Ambos fogem, em uma das cenas mais vigorosas, repleta de vitalidade, da história do cinema. Uma carta de amor aos que se amam independente de obstáculos. Os tolos acreditam que os felizes para sempre estará depois daquele ônibus. The Sound of Silence então retorna, como prenunciara, para embalar a transição de sorrisos apaixonados para semblantes vazios; olhares vagos e apreensivos, de duas pessoas que por um – suposto – amor abandonaram tudo.

O que acontece, e que subverte completamente a mentalidade cinematográfica da época, é a mudança do discurso transmitido por uma obra. A ideia aqui não é mais seguir padrões de início, meio e fim “formulaicos”. A comédia romântica não necessitaria mais de suplantar aquela clássica mensagem ingênua, isto senão em nulidade de mensagem qualquer. O que leva, porém, A Primeira Noite de um Homem a ocupar com louvor o célebre posto de  um dos fomentadores da Nova Holywood encontra-se mais além do texto afiado e revolucionário. Encontra-se mais além da recriação da atitude exata a qual um casal futuramente fracassado amargamente arrependeria-se de ter tomado. Uma atitude extremamente relacionável, e por tal impactante, para tantas Sras. Robinson e “Summers” – de 500 Dias com Ela – por aí.

O diretor Mike Nichols dá uma aula de estilo, com planos memoráveis e uma edição vistosa, aliada a uma montagem fluida. As cenas subaquáticas são muito bem pensadas, criando uma própria significância sobre a visão de Ben como um “peixe fora d’ água” – mesmo dentro d’ água. Seu maior feito, todavia, é o mais simples de todos. A sugestão, um ponto nem um pouco em voga no momento cinematográfico atual, permite que todo o discurso sobre a juventude impulsiva dos anos 60, e sobre a constante cíclica dos filhos repetirem os mesmos erros do passado de seus pais (questão pontuada em excelente monólogo de Anne Bancroft), seja transmitido apenas pelos olhares perdidos. O som do silêncio nunca significou ou significaria tanto.

Além de tudo isso já apresentado, Simon & Garfunkel garantem com maestria que o filme fique na sua memória devida a inesquecível trilha sonora, a qual contém April Come She Will e Scarborough Fair/Canticle, ambas de álbuns prévios. Mrs. Robinson, no entanto, surge como uma composição inédita, fortificando o mito criado acerca da própria Sra. Robinson, que na pele da excepcional Anne Bancroft, tornou-se um ícone do cinema e da cultura popular. Um brinde a ela.

Sem sombra de dúvidas, a tragicômica história de Benjamin Braddock é um prato cheio para os amantes de comédias românticas. Porém, a obra de Mike Nichols também garante uma exuberante sobremesa para o espectador, ao desconstruir as expectativas do público com uma das melhores conclusões de todos os tempos, senão a melhor, e que marcou eternamente o cenário do cinema internacional. A Primeira Noite de um Homem é um sedutor precursor dos novos tempos que vieram à Hollywood, uma aventura pela mente impulsiva da juventude, um discurso inteligente, o qual mais de 50 anos depois de seu lançamento, não encontra-se datado, muito pelo contrário; um duro indicador da nossa inocência vendada.

A Primeira Noite de um Homem (The Graduate) — EUA, 1967
Direção:
Mike Nichols
Roteiro:
Calder Willingham e Buck Henry
Elenco:
Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katherine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson,  Buck Henry
Duração: 106 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.