Crítica | À Procura (2014)

estrelas 1

À Procura falhou em ser um thriller

Desconfortante.

O problema desse filme, dirigido e roteirizado por Atom Egoyan, começa por não se encaixar no que se espera de um thriller. Desde as primeiras cenas o espectador sabe o que aconteceu com a menina sequestrada e pode muito bem prever como a trama vai terminar, esvaindo qualquer possibilidade de engajar o público a partir daí. Mas o incômodo é ainda realçado com os “quebra-cabeças” temporais de ida e vinda a todo corte de cena com o acúmulo dos anos de tensão matrimonial dos pais da garota — explorada de forma bastante apática.

Era de se esperar que a abordagem de um tema que causa tantas reações aflitivas, como é o caso da pedofilia, fosse conseguir transbordar da tela e levar a fita ao status de trama emblemática, mas Egoyan estaciona longe disso. O desespero e culpa do pai, interpretado por Ryan Reynolds, ficam elastecidos por conta da falta de firmeza e explosão reativas, é como se o personagem não tivesse acesso aos conflitos internos que advém de uma situação de terror e grito emudecido. O diretor falha em se aprofundar nas emoções das personagens e apela para um lugar comum e cinzento.

Até mesmo o vilão é apagado. Não existe nenhum aspecto dele que cause impacto irremediável, nada que cause a menor vontade de entender como a mente perturbada dele funciona e como fazer para solucionar o crime. Ao contrário, o único impulso é a repulsa pelo tipo de papel que ele desempenha na história. Mas mesmo isso fica inerte, porque não é explorada a sensação de perigo, repressão e vontade de escapar por parte da menina.

A neve eterna também não ajuda para marcar o passar do tempo e fica visível uma possível tentativa de prender as personagens no evento, como uma forma de mostrar que eles não conseguiram progredir e estão confinados junto com a menina àquele dia do sequestro. Mas isso não ajuda a construir a história de maneira coerente porque faltam elementos que dão certo. É quase como se o filme todo fosse uma grande tentativa, que infelizmente perdeu o fôlego para ir até o outro lado e voltar. E a falta de um momento intenso mantém o filme raso e o que é pior a história não consegue se vender como crível.

O cúmulo da inconsistência é a cena em que o pai reencontra com a filha porque o sequestrador quer a felicidade da menina. E continua em outros momentos. Quando o pai se depara frente à frente com o homem responsável por tudo junto com a comparsa e consegue ter sangue frio para olhar nos olhos deles e continuar fingindo uma conversa louca e despretensiosa — enquanto os espertos vilões não tomam nenhuma iniciativa e continuam normalmente a conversar — é o maior exemplo de um roteiro mal executado. Quem pararia para assistir um vídeo que fala sobre a menina que eles sequestraram em um restaurante? É absurda a falta de propósito.

Assim, reparar nas incongruências toma grande parte da atenção do espectador. Durante os 112 minutos a história permanece sem clímax e deixa uma marca de incomodo latente pela falta de estruturação. O filme mantém um ritmo lento e o papel dos policiais, interpretados respectivamente por Rosario Dawson e Scott Speedman, parece ser mostrar toda a ineficiência e arrogância do sistema e também ali cabe o absurdo de ter uma policial que se expõe a toa e mantém um relacionamento com um colega instável — história que também não é desenvolvida. O que resta é procurar o thriller dentro deste longa-metragem.

Título: À Procura (The Captive, Canada, 2014)
Direção: Atom Egoyan
Roteiro: Atom Egoyan e David Fraser
Elenco: Ryan Reynolds, Scott Speedman, Rosario Dawson, Kevin Durand, Mireille Enos, Alexia Fast, Peyton Kennedy, Bruce Greenwood, Brendan Gall, Aaron Poole, Jason Blicker, Aidan Shipley
Duração: 112 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.