Crítica | A Profecia (1976)

estrelas 5,0

A Guerra no Vietnã foi uma batalha que custou caro aos estadunidenses. As marcas da violência presentes no conflito encontraram ressonâncias nas declarações traumatizantes de sessões terapêuticas em diversos consultórios psiquiátricos no país, bem como no escoamento da temática na indústria cultural, campo de produção que levou o assunto aos extremos. Tom Savini, responsável pela maquiagem em Despertar dos Mortos e Sexta-Feira 13, foi fotojornalista na guerra. O tom visceral e a violência psicológica em O Massacre da Serra Elétrica são comumente relacionados ao conflito, graças às reflexões acadêmicas dos estudiosos da recepção. O clima de incertezas em O Exorcista, idem.

Certa vez, ao falar das influências em sua carreira, Wes Craven apontou que o período era o “fim do mundo” para muita gente. Sendo assim, a imagem grotesca do antagonista Jason, os crimes hediondos da família canibal no Texas e as tensões de uma mãe diante da filha possuída por um demônio são fatos ficcionais relacionados aos acontecimentos sociopolíticos da época: a tal guerra no Vietnã, uma vergonhosa batalha que levou os estadunidenses a desacreditarem numa série de coisas, inclusive em sua onipotência no pódio das relações geopolíticas mundiais.

O clássico A Profecia também não ficou longe destas influências. Os textos bíblicos sempre encontraram espaço no cinema, geralmente através de narrativas que focavam nos primeiros livros, na saga de Moisés ou na criação do mundo. Com os acontecimentos que tomaram conta do cenário social dos anos 1960, as pessoas começaram a se interessar pelos desastres e previsões apontadas no Apocalipse. Em 1968, Roman Polanski chocou plateias com O Bebê de Rosemary, ao mostrar que o mal estava presente em pessoas aparentemente simples, circundantes do cotidiano. Logo depois, em 1971, o romance O Exorcista foi publicado, adaptado para o cinema em 1973, tornando-se um dos clássicos do terror a ganhar amplo respeito na indústria, sendo inclusive indicado ao Oscar de Melhor Filme.

O surgimento da Bíblia Satânica, de Anton Lavey, bem como catástrofes naturais, tais como as enchentes, os terremotos e as doenças desconhecidas que assolavam a sociedade e ganhavam os noticiários, além das guerras e dos conflitos que tomavam o mundo, foram fatos que marcaram profundamente o período, tendo o cinema como um dos canais de reflexões destas angústias. Ao trazer para o bojo da produção do filme A Profecia, percebemos que a guerra entre o bem e o mal alcançou proporções arrasadoras.

No filme um diplomata estadunidense decide não chocar a esposa com a morte do bebê que acabara de nascer. Um religioso lhe oferece uma oportunidade: uma criança que também nascera naquele momento, mas que teria perdido a sua mãe. As coisas, aparentemente, encaixavam-se perfeitamente. A criança é levada como filho do político e até os cinco anos de idade a família vive em plena felicidade.

Tudo muda quando mortes misteriosas começam a acontecer e o diplomata, interpretado por Gregory Peck, precisa investigar os motivos de algumas pessoas o procurarem para apontar que o seu filho nada mais é que a encarnação do Anticristo. Inicialmente reticente, mas depois aberto às possibilidades possivelmente absurdas, o diplomata precisa correr para salvar não apenas a sua vida, mas resguardar o mundo do mal que está para assolar-se. Como apoio, o diplomata receberá suporte de fotógrafo instigado pelos acontecimentos, entretanto, a lista de antagonistas é bem maior, dentre eles, a babá, Sra. Baylock (Billie Whitelaw), uma versão satânica de Marin Poppins.

O roteiro de David Seltzer foi bem sucedido porque foi lapidado. Inicialmente intitulado de O Anticristo, comprado pela Warner, entretanto, por ser muito parecido com O Exorcista, foi engavetado. Uma cláusula no contrato dizia que se a produção não fosse realizada, deveria voltar para o escritor. Sendo assim, partiu para a FOX. O produtor pediu que retirassem os excessos: nada de bruxaria, nem patas de bode. O foco deveria ser nos diálogos baseados nas sagradas escrituras e no crescimento da tensão, tendo em mira uma brusca curva dramática em seu final.

Neste processo de idas e vindas, o filme ganhou novo título: A Marca de Nascença. Para os que achavam que os problemas acabavam por ai, ledo engano. Nas filmagens em um hospital, as mães que estavam com parto marcado para o dia incitaram os produtores, pois achavam o título do filme ofensivo. Os produtores, interessados em não colecionar este tipo de polêmica, trocaram o título para A Profecia, nome definitivo. O resultado não podia ter sido melhor.

O texto do filme passou por um processo de amadurecimento que o tornou um clássico da história do cinema. O desenvolvimento da mãe é espetacular: ela não sente conexão alguma com a criança, o que torna o seu sofrimento mais dramático para o fio narrativo proposto pelo roteiro. Pensar que há algo horrível com o seu filho é assustador. E por falar em filho assustador, Harvey Stephens, a criança escolhida para interpretar o anticristo, conseguiu alcançar o ponto ideal para o clima do filme.

E para deixar a produção com um ar mítico, há a história de Gregory Peck, ator de renome em Hollywood, tendo no filme um desafio que ia além das suas capacidades como intérprete. Alguns meses antes, o seu filho, acometido por questões psicológicas, tinha se suicidado. Convidado para participar da produção, o ator encontrou um desafio: como realizar a cena final em que ele tenta assassinar o seu próprio filho, diante de memórias tão recentes e entristecedoras?

No que tange aos aspectos técnicos é preciso destacar o papel criador da câmera no filme. Como destaque, aponto dois momentos: o close-up na cena do suicídio da babá torna o suspense muito mais poderoso, pois surpreende com o som-off do chamado da moça: “Damien… Damien… é tudo por você!”. O roteiro, na cena do ataque dos babuínos no zoológico, ganha maior tensão com a câmera realista que capta o pavor dos personagens através de movimentos que tremem com bastante frequência.

A iluminação clássica, a arquitetura e a ambientação profunda, tanto em estúdio como nas locações em Roma, berço do cristianismo, o que dá um ar solene ao filme, além de algumas tomadas em Londres, tornam o filme uma obra-prima cheia de classe. A direção de arte é outro ponto alto do filme, tendo como destaque um quarto todo revestido de páginas da Bíblia e as escolhas góticas em espelhos nos ambientes internos e detalhes arquitetônicos dos ambientes externos. A montagem é bastante eficiente, pois calcula e encontra bons resultados na equação roteiro + planos e movimentos + trilha sonora + direção de fotografia + encenação = A Profecia, clássico absoluto do terror.

Para traçar uma análise dos aspectos formais do filme, torna-se quase obrigatório dedicar um espaço específico para a sua trilha sonora, uma sofisticada orquestração musical guiada por Jerry Goldsmith, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora. Ao utilizar trechos de cantos gregorianos em algumas passagens, a composição é embasada por um tom litúrgico carregado de obscuridade. Longe dos ferrões musicais que forçam as plateias a se assustarem, o compositor comprovou que não gostava de dar pistas óbvias com a música. Isso fica comprovado na cena do cemitério: atonal, crescente e cerimonial, com vozes de supostas pessoas possuídas, preenchendo as lacunas deixadas pela escuridão proposital de algumas cenas. Dentre outros momentos marcantes, podemos destacar a ida da família à igreja, guiada por um estribilho que nos remete aos ótimos momentos da trilha sonora de Tubarão.

A lista de lendas que se formou em torno do filme é extensa. Segundo informações dos produtores, um guarda do zoológico, local de gravação da cena dos babuínos, deixou uma jaula aberta durante o expediente, e foi atacado (e morto) por dois leões. Detalhe: no dia das filmagens no espaço. Em Roma, Gregory Peck sempre visitava um restaurante nos intervalos das gravações. No dia em que resolveu mudar o percurso, um grupo do IRA atacou o local, ceifando uma numerosa lista de vítimas. Coincidência? Não se sabe.

O filme estreou no dia 06 de junho de 1976 com uma campanha publicitária arrebatadora, aproveitando-se de todos os detalhes da suposta maldição como propaganda. Apesar de ter sido alvo de críticas por parte de grupos católicos que consideravam a trama desrespeitosa, muitos teólogos elogiaram a produção, tendo em vista o interesse pela leitura da Bíblia por pessoas de diversas partes do mundo. A venda de Bíblias cresceu, tal como o número de cultos satânicos. No final das contas, muitas pessoas voltaram às igrejas, receosas graças ao clima de mal-estar proposto pelo filme.

O legado de A Profecia é enorme, capaz de dar numa publicação em livro de paginação numerosa. Conforme apontado em documentários e programas televisivos dedicados ao filme, a produção tornou responsável o surgimento da franquia Star Wars. A Fox passava por problemas financeiros em larga escala e o filme deu novo rumo ao estúdio. A história tornou-se quadrinhos, alcançou vasto espaço na cultura pop, encontrou ressonâncias em diversos outros filmes sobre crianças “amaldiçoadas ou malditas”, além de ter ganhado uma refilmagem e, atualmente, uma série televisiva.

A Profecia (The Omen) – EUA, Reino Unido e Itália / 1976.
Direção:  Richard Donner.
Roteiro: David Seltzer.
Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, Harvey Stephens, Billie Whitelaw, PatrickTroughton, Anthony Nicolls, David Jennings, Holly Pallance.
Duração: 111 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.