Crítica | A Promessa

estrelas 3

Enquanto que a Segunda Guerra Mundial tem no Holocausto o ápice da crueldade humana ilustrado tragicamente para a cultura popular contemporânea, por meio de filmes, fotografias, reportagens e obras literárias, o genocídio armênio, um dos maiores marcos do início do século XX, da Primeira Guerra Mundial, e do consequente extinto Império Otomano, não ganhou o mesmo destaque da mídia, embora seja veemente categorizado por escritores, estudiosos e pesquisadores como sendo o primeiro atentado contra a humanidade do século passado.

Tomando Hollywood como a base maior de propagação de obras cinematográficas relembrativamente impactantes para todo o globo, demorou-se para que fôssemos introduzidos através das telonas a tal traumático evento. Pois mesmo sem o óbvio financiamento judeu para a produção de obras senão as sobre o Holocausto, e da infeliz falta de reconhecimento por parte de grandes líderes mundiais da existência desse terrível crime contra aproximadamente 1 milhão de armênios, incluindo a própria Turquia (antigo Império Otomano) e os Estados Unidos, era de extrema valia que a história do massacre de boa parte de um povo fosse amplamente divulgada, e assim evitar que, pior do que negada por tantos, o episódio acabasse por ser omitido para todos.

Sendo assim, é de importante feito que perto do aniversário do dia 24 de abril de 1915, no qual centenas de intelectuais armênios foram presos e executados na Constantinopla por parte de autoridades do Império Otomano, estreasse A Promessa, primeiro longa-metragem de Hollywood sobre o evento acima citado. A produção fora então posta nas mãos do diretor Terry George, este que já havia dirigido também o excelente Hotel Ruanda, que curiosamente, também abordava um genocídio, no caso, o tutsi. Porém, diferentemente do filme citado, a trama aqui é mais romantizada, sendo que o roteiro, de colaboração de Robin Swicord, leva os espectadores a observarem os pesares todos através de um triângulo amoroso, e de uma promessa.

O começo do longa, iniciado por meio de uma desnecessária e expositiva narração introdutória, apresenta Mikael Boghosian (Oscar Isaac), um boticário que promete se casar com a filha de um influente morador de sua região após receber 400 moedas de ouro de dote, necessárias para o estudo e graduação em medicina. Em Constantinopla, no entanto, Mikael é levado a se apaixonar por Ana Khesarian (Charlotte Le Bon), ao mesmo tempo que uma tensão social começa a surgir com o começo da Primeira Guerra Mundial. Por um outro lado da relação, mesmo que Ana demonstre suas afeições por Mikael, ela encontra-se envolvida em um relacionamento com o jornalista americano Chris Myers (Christian Bale), que, com o começo do extermínio sistemático da população armênia, envolve-se em diversas aventuras com o intuito de noticiar os horrores que estão acontecendo.

O grande destaque é absolutamente Oscar Isaac, que facilmente transparece as emoções, algumas mal construídas, mas ainda assim escritas por um roteiro focado no melodrama. Mas tal melodrama não é, de todo, barato. Há sequências intensas, com fortes cargas dramáticas, que exigem uma competência interpretativa que está, de fato, presente em Oscar. Com uma trama situada no meio de uma guerra, com direito a longas caminhadas e mudanças de cenários, há diversos desencontros e reencontros entre os personagens da obra, sendo que estes são bem apresentados pelo filme, graças ao eficiente elenco que conta ainda com uma não tão memorável, mas ainda assim imponente, presença de Christian Bale. Ambos, isto posto, são retratados como figuras extremamente heroicas, interessadas em manter seus códigos morais, salvar armênios mantidos em cativeiro dentro de trens em movimento ou então, reportar a memória de milhares de mortos cruelmente vitimados.

A promessa, homônima à obra, é outro ponto que, em seus próprios termos, torna o personagem de Isaac uma personificação quase homérica. Mesmo desenvolvendo seus próprios sentimentos por Ana, e consumá-los consequentemente, a criação de um envolvimento mais emotivo entre ele e a outra garota, a prometida Maral (Shohreh Aghdashloo), necessário para a intensificação de eventos no final do segundo ato do filme, é rispidamente agilizado. De tal modo, percebe-se uma montagem desacertada, que faz algumas consequências de eventos soarem nada orgânicas. Entretanto, recebendo maior atenção, a paixão proibida entre Mikael e Ana é melhor construída, ainda que a atuação de Charlotte Le Bon não carregue o mesmo peso que a de Oscar, e que, por fim, o triângulo amoroso só funcione de verdade em seus últimos momentos, ou seja, em sua derradeira conclusão.

Mesmo colocando o genocídio armênio como pano de fundo do triângulo romântico, o filme consegue entrelaçar decentemente este com a narrativa principal. Não estamos falando de um exímio trabalho de reconstrução de toda a dor causada a um povo, mas sim, de um recorte, não tão crível, contudo possível diante dos eventos que o filme transpassa. Constante a isto, ligeiras exposições que tentam evidenciar de maneira verborrágica onde, historicamente, estamos situados, não contribuem para com a sutileza, algumas vezes bem abordada pelo roteiro, ou para com o mais realista, desapiedado e cru retrato que poderia ter sido feito da situação. Um retrato que, enfim, permite revelar-se apenas como artifício dramático pontual.

A fotografia é um dos outros acertos presentes nesta produção, explorando muito bem as possibilidades de ambientação, mesmo que várias destas sejam frutos de computação gráfica. A estética grandiosamente rebuscada pode até ser passível de crítica visto que interfere drasticamente em uma visão mais objetiva e sóbria dos eventos. Tratando-se de um romance trágico, por outra via de interpretação, as duas decisões casam-se perfeitamente. O diretor ainda é eficaz em trazer vívida a tentativa, quase desesperadora, de sobrevivência por parte de um povo durante os poucos combates armados orquestrados em meio a história.

Deve-se comentar a infeliz situação que ocorreu ao filme, bem antes até de seu devido lançamento, quando tal fora, indiscriminadamente, atacado por negacionistas do genocídio armênio. Tal situação, mesmo infortuna, revela o valor de que obras como essa tem de não deixar um ponto tão considerável como este esmorecer com o passar dos anos. Do mesmo modo, tal evento relembra as ameaças sofridas pelo cineasta Atom Egoyan, ao produzir Ararat, longa que também comporta o mesmo tópico que A Promessa.

Possuindo em sua essência uma notável relevância social e importância temática, a produção norte-americana A Promessa pode estar bem longe de ser para o genocídio armênio, o que A Lista de Schindler é para o Holocausto, mas entende-se simplificadamente o que de errado aconteceu à execução do longa. Os roteiristas prenderam-se a uma fórmula, mais palpável e compreensível, de modo a fazer o espectador se emocionar, e não se chocar. Uma emoção desenvolvida por meio de um roteiro fácil, mas que ainda assim, consegue fazer o espectador se solidarizar, embora superficialmente, com a sobrevivência de um povo. O que George e Swicord parece não terem entendido é que tal fato não precisaria necessariamente de um herói, de uma figura máxima, disposta a fazer tudo para salvar os outros. Indo para um caminho mais simples, A Promessa é, em uma última conclusão, uma intenção, em suma pobre, de transpor a áspera natureza de um massacre mediante um melancólico drama romântico. No final, o alvoroço criado sobre o filme será mais lembrado que a própria obra em si.

A Promessa (The Promise) — Espanha/ EUA, 2016
Direção: Terry George
Roteiro: Terry George, Robin Swicord
Elenco: Oscar Isaac, Charlotte Le Bon, Christian Bale, Daniel Giménez Cacho, Shohreh Aghdashloo, Rade Šerbedžija, Abel Folk, Andrew Tarbet, Angela Sarafyan, Armin Amiri, Marwan Kenzari, Yigal Naor, Garen Boyajian, Alicia Borrachero, Kvork Malikyan, Numan Acar, Roman Mitichyan, Jean Reno, Tom Hollander, Jean Claude Ricquebourg, James Cromwell, Milene Mayer Gutierrez, Michael Stahl-David
Duração: 133 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?