Crítica | A Propósito de Nice

estrelas 5

Neste filme, por intermédio de uma cidade de significativas manifestações, assistimos à crítica de um certo tipo de mundo. De fato, logo depois de mostrar o ambiente de Nice e o espírito que nela se leva – como em outros lugares, infelizmente! – o filme tende à generalização de diversões grosseiras colocadas sob o signo grotesco, da carne e da morte; que são derradeiros sobressaltos de uma sociedade negligente a ponto de nos dar náuseas e nos tornar cúmplices de uma solução revolucionária.

Jean Vigo

Década de 1920. As vanguardas cinematográficas e artísticas estavam em alta na Europa. Era tempo de experimentar, trazer para a realidade uma versão crítica do que se vivia, fazer pensar em temas psicanalíticos, antimilitaristas e revolucionários. Foi nesse ambiente que Jean Vigo cresceu e formou sua sensibilidade artística, impulsionada pelas questões que também guiaram a vida de seu pai: a liberdade e a justiça social. Essa questões, aliadas a uma amarga – porém poética – visão da sociedade, fizeram parte da curta e genial filmografia de Vigo, que conta com apenas quatro títulos, sendo o primeiro deles, A Propósito de Nice (1930), o objeto de nossa presente análise.

Nice, cidade localizada na Côte d’Azur francesa, tinha, à época da realização desta estreia de Jean Vigo, a fama de “cidade do sol e da felicidade”. Propagandas e cartazes pediam para que a população deixasse Paris e visitasse o lugar onde havia sol o ano inteiro, e onde uma bengala plantada no jardim floresceria no dia seguinte. São visíveis os elementos que chamaram a atenção de Vigo para a cidade, palco deste curta-metragem experimental que teve Boris Kaufman (irmão caçula de Dziga Vertov) como câmera e diretor de fotografia. Vigo trará para o espectador algumas visões do que circulava por esse idílico paraíso litorâneo chamado Nice.

De início, pensamos tratar-se de um documentário turístico. Após uma explosão de fogos, panorâmicas aéreas da cidade nos localizam geograficamente. Atendendo ao chamado da propaganda, vemos alguns turistas (pequenos bonecos em uma estação-maquete) chegarem à cidade e logo serem “puxados” como se fossem fichas de uma mesa de jogos num cassino qualquer. Daí para frente, planos cada vez mais particulares nos dão uma visão ampla da cidade em diversos lugares e variados exercícios humanos. Saímos de grandes panorâmicas, para planos gerais e médios em palmeiras, bonecos, garçons, pedestres, pedintes, pés, jornais, rostos, dorminhocos, jogadores de bocha e tênis, dançarinas, fábricas e navios.

Jean Vigo passa da visão à distância, onde tudo é belo e não se vê os becos sujos, para a captação próxima do lixo das sarjetas, das crianças sujas, da água parada nas pernas juntas de um anjo em um cemitério, da fumaça que polui a cidade. O filme é uma exposição dialética do cotidiano.

Mas a genialidade da obra não se daria se não fosse a espetacular montagem. Para a época, uma revolução no ritmo. O filme é vivo, ganha um ar road, a câmera sempre se põe em percurso pelo espaço cênico que é a cidade, captando humanos e natureza em movimento. O fluxo fílmico é matematicamente exato, não sobram espaços mortos. Além da impecável exposição de planos, o dinamismo usado por Vigo e Kaufman nas tomadas impressionam muito a quem as observa atentamente.

Desde os planos diagonais que se ajustam, quando “chegamos” à cidade, até a aceleração e uso de câmera lenta em diversas sequências, somos brindados com inúmeras imagens virtuosas que mostram a rigidez fria, séria e quase lúgubre do mundo burguês em contraponto ao carnaval miserável dos pobres, mundos que se unem e formam a estrutura cultural da cidade, imperceptível se olhada por um visitante comum; mas o espectador, aqui, é colocado frente a um microscópio lírico-social de onde se pode ver as muitas faces de Nice.

O filme tem um enorme poder de encanto por sua diversa e criativa exposição narrativa e rítmica, e mostra o flerte de Vigo com as experimentações das vanguardas que explodiram na década anterior à sua realização. A Propósito de Nice é uma obra notável, um ótimo exemplar do período de transição do cinema silencioso para o sonoro, uma das melhores estreias já realizadas na sétima arte.

À Propósito de Nice (França, 1930)
Direção: Jean Vigo
Roteiro: Jean Vigo
Duração: 25 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.