Crítica | À Prova de Morte (Trilha Sonora Original)

estrelas 4

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

À Prova de Morte é um dos polêmicos casos de ame ou odeie. Fugindo dessa polarização, assim como o Ritter, o acho um filme muito bom, mas ainda creio que se trata de uma experiência maçante pelo ritmo inconstante, pela falta de personagens realmente interessantes, pela constante auto referências a diversos filmes anteriores de sua carreira e também pela qualidade regular dos diálogos – Tarantino não sabe fazer chick talk, isso é fato. O que salva mesmo é a bela homenagem aos filmes Grindhouse dos anos 1960 e 1970 e seus exploitations. Se é fã desse sub-gênero já há tempos esquecido, este filme é perfeito para você.

Já na trilha, o cenário é mais favorável. Não somente pela ótima seleção das músicas para o álbum, mas também pelo uso correto que Tarantino emprega elas em seu filme. Como sempre, a música que abre o filme é excelente. Com a ajuda da composição desconhecida de Jack Nitizsche, The Last Race, Tarantino confere um tom predatório aos personagens o que é perfeitamente compreensível visto que as mulheres do filme são man eaters e Stuntman Mike nada mais é que o predador das diversas personagens. A música também confere o tom estiloso e casa perfeitamente com os filmes que ele visa retratar com Death Proof.

Depois da conclusão da cena do primeiro bar, com as garotas já completamente bêbadas, Tarantino insere uma canção eufórica e contente de Smith, Baby it’s You. Nada de muito complexo, mas a música é divertida. Porém, para compensar, o diretor acerta mais uma vez com o infalível Ennio Morricone e sua Paranoia Prima para apresentar o carro de Stuntman Mike e o personagem. A flauta, a percussão, os sinos e principalmente os acordes agudos do violão conferem o ar, obviamente, paranoico entorno da ameaça que a figura misteriosa do carro representa ao grupo. A paranoia é ainda mais explicita pois sempre quem nota o carro é Arlene detonando um forte magnetismo entre as duas figuras, além de gerar um misto de atração e mistério. Uma pena que Tarantino não aproveite muito esse clima durante o filme.

Já no segundo bar, a jukebox vira o instrumento narrativo para ele inserir diversas músicas sem muita cerimonia. No caso, a primeira é Jeepster de T-Rex, porem ela é interrompida logo após Jungle Julia se dirigir para outra sala do bar afim de conversar ao celular. Depois, durante uma troca de sms, Tarantino insere o melhor uso da trilha musical em favor da narrativa. Suprimindo os ruídos de Jeepster que ainda toca no bar, entra a composição romântica do piano de Sally and Jack de Pino Donaggio. A interrupção é clara. Serve para isolar Julia de toda o ambiente. Ele está concentrada apenas em mandar o sms para o homem que ela está completamente apaixonada. Ele responde e assim que ela retorna para as amigas e faz a treplica no sms, a música cessa. Sutil, elegante e sensível – e brega. Perfeito para um exploitation.

Então, enfim, temos a melhor cena e a melhor música do filme – Down In Mexico de The Coasters na sequência do lapdance de Arlene. A canção é tão boa que chega a ser um absurdo. Vale praticamente a trilha musical inteira. Ela evoca a sensualidade da personagem e transmite o calor selvagem da tensão sexual que permeia Arlene e Mike.

Depois passamos para a sequência reiterada da carnificina de Mike e seu carro. Aí, aparentemente temos um uso bem trivial da trilha, mas é ela é extremamente irônica e cruel. Trata-se de Hold Tight de Dave Dee e banda. Em um primeiro momento, pode parecer que apenas retrata o estado de espírito alegre e eufórico das mulheres, mas na verdade a música é um foreshadowing já que ela clama para as meninas segurarem firme. Ou seja, além disso, ela representa a ignorância do fato que a vida delas está correndo um enorme perigo já que Mike pretende matar todo mundo em um acidente automobilístico. Ótima música e ótimo uso de trilha.

Para a perseguição final, antes de os papeis se inverterem entre perseguidor e perseguido, Tarantino usa instrumental baseada firmemente no ritmo contagiante e tenso dos tambores, Riot in the Thunder Alley de Eddie Beram. O objetivo da música é claro, deixar o clima o mais tenso possível enquanto a percussão acelera juntamente com a velocidade máxima da perseguição. Fora que a composição, apesar de simples, é bem bacana.

Então, para seu gran finale, temos novamente um Tarantino genial e sádico ao fechar o filme com Chick Habit de April March assim que a cara de Stuntman Mike é amassada pela bota de Rosario Dawson. Para quem não conhece, a letra clama para que um cidadão largue seu vício em mulher – encaixando, logicamente, com o fetiche que Mike tem em mata-las em alta velocidade. A música é premonitória. A interprete avisa o cidadão que seu final será péssimo, que ele ficará sozinho, que ele precisará de muita cola para se recompor após o cortarem em dois, que elas cuspirão no olho dele, que elas dirigirão um carro extravagante, para ele não ser idiota. Largue o chick habit.

A crueldade é que a premonição evocada na letra é inserida justamente como um post mortem para o personagem. Daí que vem a crueldade e a enorme ironia. Um baita humor negro. Além disso, a música trata-se do poder da mulher, além de ter um ritmo contagiante, festivo e eufórico – assim como estão as meninas, alegres, após vencerem a perseguição contra Stuntman Mike.

Chick Habit e Down In Mexico merecem duas estrelas por serem estupidamente fantásticas. São canções perfeitas e o uso delas no filme transcende o correto. Enriquece o filme de modo absurdo o salvando da monotonia vinda da primeira metade. Já o resto da tracklist também é muito boa incluindo o sempre memorável Ennio Morricone.

Não adianta. É muito difícil Quentin Tarantino falhar em suas trilhas musicais. O cara pensa tão bem no uso das músicas em seus filmes quanto Stanley Kubrick fazia em seus prestigiados longas. É absolutamente delicioso interpretar o uso célebre delas dentro do filme.

Death Proof (Original Soundtrack)
Compositor:
 Various Artists
Gravadora: Maverick Records
Ano: 2007
Estilo: Surf Rock, Latino, Pop, Country, Soundtrack.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.