Crítica | A Qualquer Custo

estrelas 5,0

Taylor Sheridan começou sua carreira em Hollywood como ator, fazendo uma ponta na série Walker, Texas Ranger (que ganhou o bizarro título nacional Chuck Norris: O Homem da Lei), em 1995, mantendo-se com constante presença na televisão americana até 2011, quando debutou na direção de Vile, um filme de horror de pouca relevância. Mas ele perseverou pelos meandros hollywoodianos, conseguindo emplacar o roteiro do excelente Sicario: Terra de Ninguém, em 2015, dirigido por ninguém menos do que Denis Villeneuve. Nem bem um ano depois, Sheridan mostra que não está de brincadeira e mais uma vez coloca um roteiro original seu em evidência, desta vez em parceria com o diretor escocês David Mackenzie, conhecido por obras independentes que não necessariamente se encaixam em gêneros pré-determinados.

Abordando uma faceta dos Estados Unidos moderno que não costuma ganhar relevo em filmes – a desolação e falta de perspectivas da vida interiorana – A Qualquer Custo é uma pequena obra-prima intimista que trafega entre o faroeste o thriller policial. Chris Pine e Ben Foster vivem os irmãos Toby e Tanner Howard que começam a roubar quantias baixas de pequenas filiais de um banco no Texas, pouco demais para o FBI se interessar, mas o suficiente para que o Texas Ranger Marcus Hamilton (Jeff Bridges), próximo da aposentadoria, e seu parceiro de ascendência indígena e mexicana Alberto Parker (Gil Birmingham) comecem a investigar o surto de roubos.

Em linhas gerais, a história não é particularmente original, mas o que importa mesmo, aqui, são os pequenos detalhes e a construção dos personagens que Sheridan trabalha cuidadosamente em uma narrativa que não apela para o didatismo (com apenas uma breve exceção – comentarei mais a frente) e que está muito mais interessada em levar o espectador para um passeio por um Estados Unidos desolado, quase pós-apocalíptico, em plena idade moderna, em que grandes empresas exploram pequenas cidades, tirando a vida de tudo a seu redor.

Esse cenário árido, empobrecido, feio mesmo é o grande “personagem” que permeia cada momento da pequena odisseia dos dois irmãos ladrões e dos dois policiais. Existe um propósito específico por trás dos roubos – algo que alguns poderiam classificar como nobre, quase algo retirado do mito de Robin Hood e que faz completo sentido dentro da situação desesperançosa da região -, assim como há um claro objetivo na cruzada de Hamilton e Parker, especialmente do primeiro, considerando que esta é provavelmente sua última investigação antes de, como ele mesmo diz, “sentar na varanda de sua casa e não fazer nada”.

Mas há conflitos nas duas parcerias. Toby é um “homem comum” lutando por sua família, enquanto Tanner é um ladrão profissional, violento, que passou anos atrás das grades. Seus métodos são exatamente opostos, ainda que eles se amem incondicionalmente e é perfeitamente possível a um espectador mais acostumado com dramas dessa natureza imaginar como essa linha narrativa acaba.

Do lado dos Texas Rangers, o conflito é tanto de geração quanto de etnias. Hamilton vê sua vida próxima do fim e quer estender seu tempo na ativa. E, apesar de uma parceria longeva com Parker, a grande verdade é que ele é insensível à forma como trata o amigo, sempre com a maior quantidade possível de comentários politicamente incorretos sobre suas heranças indígena e mexicana. Os diálogos escritos por Sheridan, nesse aspecto, são particularmente ricos e, confesso, diversas vezes hilários, com sacadas geniais – e bem pesadas – sobre os antepassados de Alberto que levarão o espectador menos preso ao politicamente correto às gargalhadas. No entanto, o comentário social feito justamente por essa pegada mais virulenta é importante e dá um colorido que acaba caracterizando o meio-oeste americano e comentando ironicamente a chamada dívida histórica americana em relação aos nativos que dominavam a região e toda a questão da imigração do país fronteiriço, hoje tão latente.

E é assim que A Qualquer Custo (finalmente uma ótima tradução direta do título original!) precisa ser interpretado para ganhar seu devido valor: como uma parábola fortemente crítica das condições sócio-econômicas de uma grande fatia do território americano que, ainda que com modificações importantes aqui e ali, pode e deve ser também extrapolada para outros países, inclusive o nosso. Há apenas uma exceção nessa extrapolação, já que é algo bem americano. Trata-se do porte de armas visto ao longo da projeção, desde o velhinho no banco até basicamente a população inteira de uma cidadezinha, todos armados até os dentes e, mais do que isso, amplamente dispostos a descarregar seus pentes de balas diante de qualquer ameaça. Chega a parecer exagero, mas a pegada realista da fita nos impede de concluir desta forma. É, simplesmente, outra forma de pensar, outra maneira de ser que é alienígena para muitos e normalmente automaticamente condenada por todos. Mas nem Sheridan, nem MacKenzie fazem um julgamento deste aspecto, apenas ocupando-se de nos mostrar esse mundo muito particular e deixando-nos chegar às nossas próprias conclusões.

Mas se Sheridan tem o mérito por escrever um belo roteiro cheio de nuances, MacKenzie apresenta, aqui, seu melhor trabalho até agora. O plano-sequência de 360º que abre a projeção é um exemplo de seu detalhismo. Em uma volta no eixo da câmera, ele nos apresenta a tudo o que precisamos saber sobre o que assistiremos ao longo dos 100 minutos seguintes: cidade pequena, com pouca população e já envelhecida, pobreza e muita revolta pela opressão percebida pela população depois que o governo federal americano salvou as grandes corporações da crise de 2008, mas deixou o povo desamparado. Sim, MacKenzie exige que conheçamos a situação sócio-econômica mundial e especialmente a americana para que tiremos a conclusão acima, mas seu filme não é, como disse, didático. Ele só se utiliza desse expediente em uma cena, quando os irmãos visitam seu advogado e ele explica (na verdade nos explica) exatamente o que eles estão fazendo. São poucos minutos e eles são importantes para não ficarmos perdidos no plano de Toby, mas talvez fosse possível uma outra saída para que o mesmo objetivo fosse alcançado. De toda forma, esse didatismo momentâneo nem de longe afeta a organicidade do trabalho de MacKenzie que faz uso da fotografia de Giles Nuttgens para exacerbar o subtexto desolador de Sheridan.

Nuttgens, que trabalhou como diretor de fotografia do pior filme já feito – A Reconquista -, apresenta um trabalho espetacular ao transformar o ambiente desértico em um personagem constante na obra. Sua cores são monótonas, em tons marrons, ocres ou brancos em algum ponto cirúrgico pré-saturação que convidam a um sentimento de isolamento e de tragédia, como se entrássemos com os irmãos Howard em um beco sem saída que sabemos que é mortal, uma verdadeira armadilha daquelas que não podemos evitar. Mesmo seus planos gerais procuram ao máximo não embelezar os lugares, com uma câmera que transita sem invencionices por desertos feios pontilhados por bombas sugando o petróleo das entranhas da terra e, ato contínuo, as almas de seus habitantes.

O elenco está afiado e extremamente convincente. Pine, sem dúvida alguma, tem, aqui, o melhor papel de sua carreira, convencendo-nos de sua falta de escolha, de seu caminho pré-determinado. Seu semblante é constantemente de alguém que sabe que não tem muito mais o que fazer com sua vida e olha apenas para os filhos que não vê há um ano. Foster repete um pouco papeis anteriores dele, mas ele também brilha mais forte em A Qualquer Custo, conseguindo passar toda sua raiva do mundo que explode em violência a cada momento em que é minimamente contrariado. Tanner é como uma força da natureza que tem plena consciência que não tem lugar neste mundo e que, por isso, vive cada dia como se fosse o último. Jeff Bridges, claro, mastiga as sequências em que aparece com seu texano típico pré-aposentadoria que é um grande bully de seu parceiro de anos, sem compreender o quanto isso o fere. Falando como se tivesse batatas na boca e emprestando um ar veterano ao papel, ele é, sem dúvida alguma, o ponto alto do filme, com uma merecida indicação aos Oscar de Melhor Ator Ator Coadjuvante, ainda que Foster também pudesse ter sido agraciado com a mesma indicação. Gil Birmingham, o outro Texas Ranger, tem menos espaço para mostrar a que veio, mas ele não precisa de espaço. Com o pouco tempo de tela que tem, ele traz profunda melancolia ao papel e uma conformidade desconfortável sobre quem exatamente Alberto é.

A Qualquer Custo passou batido pelos cinemas americanos e não recebeu distribuição internacional em larga escala em um claro erro estratégico de sua produtora. Com as merecidas indicações ao Oscar, é de se esperar que o filme projete os trabalhos de Taylor Sheridan e David MacKenzie, além de todo o elenco, para além das fronteiras dos EUA. A obra definitivamente merece reconhecimento.

A Qualquer Custo (Hell or High Water, EUA – 2016)
Direção: David Mackenzie
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Gil Birmingham, Dale Dickey, William Sterchi,  Buck Taylor, Kristin Berg, Katy Mixon
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.