Crítica | A Queda – As Últimas Horas de Hitler

Quase quarenta anos se passaram desde a queda do Terceiro Reich até o primeiro encontro do cinema alemão com o tema. A ferida demorou a se fechar na memória das gerações que sucederam a dos responsáveis por um dos capítulos mais negros da história da humanidade. Os filhos e os netos dos homens implicados direta ou indiretamente no horror genocida do nazismo sempre sentiram esse peso sobre seus ombros, como bem demonstram documentários como What Our Fathers Did – A Nazy Legacy. Os últimos dez dias do Reich, que Adolf Hitler passou enclausurado no bunker da chancelaria junto com diversos oficiais da alta cúpula do regime, constituem o agonizante capítulo final dessa história por tanto tempo evitada. Rever esses últimos eventos é imergir nas entranhas de um organismo mórbido e falido. Mais do que isso, é estar diante de personagens históricos que vivem seus últimos dias como homens e mulheres comuns. Em agonia e desespero. E boa parte das críticas recebidas por A Queda – As Últimas Horas de Hitler se deveram justamente a isso – a tornar os nazistas humanos “demais”.

O diretor Oliver Hirschbiegel sabia estar mexendo em vespeiro. Parece que a lição de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal à luz do caso Eichmann ainda não foi completamente assimilada. Ver Adolf Hitler, interpretado pelo grande ator suíço Bruno Ganz, pedindo com doçura à sua secretária que reescreva uma carta ou agradecendo cordialmente à sua cozinheira a sua última refeição ainda causa estranheza a quem anseia por caricaturas da maldade. O filme do diretor alemão sequer esboça alguma delas. Ele se baseia nas memórias da secretária do bunker – Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) e todos os acontecimentos são mostrados a partir do seu ponto de vista, ainda que se use aqui e ali algumas subjetivas para revelar o olhar do Führer. Junge conheceu todos aqueles homens em seu cotidiano e nada sabia sobre a “Solução Final”. É natural, portanto, que seu olhar os tenha dirimido de qualquer vilania fácil. A Queda – As Últimas Horas de Hitler nos faz compreender que os nazistas comandaram um genocídio não por perder seus traços humanos mais básicos, mas por negá-los às suas vítimas.

Quanto ao ótimo elenco, sobressai a atuação avassaladora de Bruno Ganz. Seu estudo prévio do personagem compôs o perfeito retrato de um homem derrotado. A precisão historiográfica impressiona tanto pela empostação da voz nos momentos de fúria como pela caracterização da fragilidade física de Hitler. Sabe-se que o líder alemão sofria de doença de Parkinson no fim da vida e o prestigiado ator suíço conseguiu representar cuidadosamente tanto o tremor grosseiro em sua mão esquerda como a postura encurvada (chamada de camptocormia) que Hitler exibia ao andar, já com o ânimo em frangalhos, pelos corredores claustrofóbicos do bunker. A última aparição pública do ditador, enquanto condecorava um grupo de meninos da Juventude Hitlerista, é reconstruída na grande tela enfocando aquilo que fora editado na filmagem original – o tremor incessante, do qual o filme tira proveito ao construir uma alegoria. A direção de Hirschbiegel sempre favorece os planos que enquadram a mão tremulante, pois identifica a doença de Hitler como a metáfora perfeita da própria morbidez de seu império.

Já o roteiro acerta em cheio ao jamais mostrar o avanço de qualquer tropa soviética até que elas tomem, de fato, o centro de Berlim nos minutos finais de projeção. A derrota do povo alemão não só é enunciada nos diálogos entre os generais como também é fortemente sentida. É aguardada pelo próprio público como uma praga que se aproxima. Cada minuto transcorrido do longa-metragem adiciona tensão, paranoia e sensação real de perdição. Parte disso deve ser creditada também à ausência de trilha sonora em quase todo o filme, o que lhe confere certo caráter documental, mas também faz o espectador sentir-se enterrado vivo com aqueles homens nas galerias sombrias do bunker. A solidão do Führer é algo digno de nota nesse processo. Chama a atenção a cena em que ele é flagrado por Junge olhando em transe para o retrato de Frederico, o Grande – tela que Hitler levava consigo para onde quer que fosse. O ditador nazista, acostumado a elevar-se sobre as multidões em seu púlpito, vai se tornando uma figura cada vez mais soturna. Cravado humilhantemente nas profundezas de seu esconderijo.

Os suicídios se sucedem no terço final de A Queda – As Últimas Horas de Hitler. Há aqueles que ocorrem por puro desespero, como o do médico Ernest-Robert Grawitz, cujo pedido para fugir do bunker fora negado pelo próprio Führer, e o dos generais Hans Krebs e Wilhelm Burgdorf. O mais conhecido deles, o de Hitler e sua esposa Eva Braun, ocorre por uma razão mais pragmática – evitar ao vilipêndio de seus corpos pelos russos, como havia acontecido a Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Mas de todos os suicídios, o que comove verdadeiramente é o do casal Goebbels após assassinar com cianureto todos os seus filhos. Afora todo o poder da cena em que Magda os envenena, não impressiona menos aquela em que Joseph e ela se matam na saída do bunker – fiéis à ideia de que não poderia haver existência sem o Führer nem mundo sem o nazismo. Ocorre aqui o campo/contra-campo mais significativo do longa-metragem. Joseph e Magda Goebbels trocam olhares silenciosos antes dos disparos. Sequer dizem adeus. Na verdade, os rostos dele (campo) e dela (contra-campo) nada dizem. Estão vazios. Liquidados.

A morte dos Goebbels revela o fanatismo político como a sua maior fraqueza. Hitler, cercado de asseclas e bajuladores, acaba sendo traído por Himmler e Goering, que tentam assumir o controle do Reich em seus estertores para negociar com o inimigo. Fica claro que entre os dois e o ditador alemão havia apenas a cumplicidade dos criminosos e não lealdade de fato. O caso de Joseph e Magda Goebbels é em tudo oposto a isso. Eles são leais ao nazismo até o fim e o vazio no qual são mergulhados após o suicídio de Hitler demonstra que esse é o grande risco de acreditar cegamente em uma ideia. Quando ela rui, nada resta. Não há escombros nem cinzas de onde se possa reerguer algo. Só resta desaparecer como tudo ao redor. Esse é o pensamento que sempre permanece em minha mente após rever a obra-prima de Oliver Hirshbiegel – o fanatismo de qualquer tipo só pode ser mesmo a mais frágil de todas as razões de existir. E é admirável que os alemães tenham encontrado no cinema uma forma tão boa de confessar isso.

A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang) – Alemanha, 2004
Direção: Oliver Hirschbiegel
Roteiro: Bernd Eichinger
Elenco: Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz, Ulrich Matthes, Juliane Khöler, Corinna Harfouch, Heino Ferch, Thomas Kretschmann, Christian Berkel, Ulrich Noethen, Donevan Gunia
Duração: 156 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.