Crítica | A Queda do Castelo Ako

estrelas 4

A Queda do Castelo Ako é um épico japonês de 1978, dirigido por Kinji Fukasaku, um dos dois diretores japoneses que assinaram as sequências nipônicas de Tora! Tora! Tora! (1970). Com roteiro de Kôji Takada, a película reconta a história dos 47 ronins, tendo a maior parte de seu desenvolvimento na preparação para a batalha final, além de trazer o máximo de aspectos políticos que envolveram o período entre a morte injusta de lorde Asano e a vingança dos ronins.

De todas as versões que conheço da lenda dos 47, A Queda do Castelo Ako é a mais burocrática e a que maior teor institucional possui. Kôji Takada, o roteirista, procurou não negligenciar o lado humano dos samurais, suas famílias ou relações de honra entre o próprio grupo, mas a estrutura do filme está completamente entrelaçada com o ambiente social japonês do século XVIII, tendo maior foco nas relações de poder entre os Conselhos de Justiça, alguns funcionários do shogun, os samurais e a força dos clãs.

Partindo desse princípio, é de se esperar que o filme não tenha o apelo mais emotivo – embora não falte com esse aspecto – comumente relacionado ao fato. Os laços humanos aqui chegam a ser surpreendentemente fortes, mas o código de honra dos samurais acaba falando mais alto, o que nos leva a situações realmente degradantes ou tocantes, como a do guerreiro que é ferido e, após se endividar muito, permite que a esposa se prostitua para que a filha possa ser criada. Dos poucos dramas familiares destacados no texto, este é o que melhor se encaixa na realidade da lenda, considerando o tempo de preparação dos samurais do castelo Ako até a vingança contra lorde Kira.

Mesmo sendo um filme bastante longo, a agilidade da montagem e a direção majoritariamente correta de Kinji Fukasaku não cansam o espectador. Temos diversas indicações de passagem do tempo e de espaço geográficos, além de mudanças de samurais entre um ponto e outro, seja para levar mensagens, para cumprir alguns deveres ou fugir de uma determinada situação. Logo, a precisão da edição junto ao dinâmico andamento das coisas na diegese fílmica completam a atmosfera de “ação” ou “aventura” ligada ao drama.

Mas se podemos falar de uma direção acertada na maior parte da película, o mesmo não podemos dizer de seu início, a começar da caracterização de lorde Asano. Sabemos que o personagem histórico tinha 34 anos quando o evento aconteceu, mas pelo discurso dos ronins, tínhamos a impressão de que se tratava de um homem sábio, sereno, prudente. Todavia, não é essa a impressão que temos no início da obra.

É  estranho para o espectador que a atitude impulsiva de Asano aconteça já nos primeiros minutos do filme e sem nenhum contexto que a justifique, seja em tela, seja em elipse. Quem não conhece a história, tem a impressão de que o samurai era um desequilibrado emocional e que não conseguia lidar com provocações. É claro que essa impressão vai sendo dissipada aos poucos, mas nem o roteiro e nem a direção se importam muito em introduzir de maneira aceitável o contexto que leva o jovem daimyo a desembainhar a espada no castelo do shogun, recebendo a punição máxima para essa atitude: cometer seppuku.

Apesar do início precipitado, A Queda do Castelo Ako consegue se desenvolver muitíssimo bem, recontando de maneira muito interessante uma das mais notáveis histórias relacionadas ao código de honra dos samurais. Com excelente trilha sonora de Toshiaki Tsushima (colaborador recorrente de Fukasaku), o filme envolve a motivação passional e de honra que desencadeia toda uma revolução na vida dos samurais e do próprio shogunato, num ambiente que não se distancia muito dos bastidores políticos das atuais democracias Ocidentais. A diferença é que no Japão do século XVIII, a honra, na maior parte das vezes, falava mais alto, algo que nem de perto pode ser atribuído ao que vemos falar mais alto em nossos dias.

A Queda do Castelo Ako (Akô-jô danzetsu) – Japão, 1978
Direção: Kinji Fukasaku
Roteiro: Kôji Takada
Elenco: Shin’ichi Chiba, Kinnosuke Nakamura, Tsunehiko Watase, Masaomi Kondô, Toshirô Mifune, Kyôko Enami, Kasho Nakamura, Shinsuke Mikimoto, Nobuo Kaneko, Seizô Fukumoto
Duração: 159 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.