Crítica | À Queima Roupa (2014)

estrelas 3

Vencedor do prêmio de melhor documentário em longa-metragem no Festival do Rio 2014, À Queima Roupa, nos traz um olhar sobre a violência policial no Rio de Janeiro. Com imagens pesadas mostrando os efeitos de tais ações, a diretora Theresa Jessouroun procura, além de chocar, conscientizar o espectador desses acontecimentos que já se fazem presentes nas comunidades e na baixada fluminense há mais de vinte anos. Para criar esse desconfortável clima vemos a utilização das fotos já citadas, material de arquivo e, é claro, depoimentos das pessoas afetadas.

As entrevistas todas colocam o locutor em um espaço vazio completamente preto. Ora vemos a pessoa sentada por completo, ora não enxergamos seu rosto ou somente parcela dele. Jessouroun cria a nítida sensação de obscuridade, criando, inclusive, um sentimento de perigo em relação àquelas pessoas que falam em nossa frente. É como uma quebra de silêncio após tantos anos. De moradores de comunidades, delatores, até policiais ouvimos cada um dos pontos de vista acerca dos diversos massacres realizados desde 1993. A presença do material de arquivo, filmagens das diferentes épocas nos quais nos situamos, garante um maior envolvimento do espectador, dando uma maior credibilidade aquilo que ouvimos, tornando os depoimentos tangíveis.

Com a montagem nas mãos de Idê Lacreta e da própria diretora temos uma fluida intercalação dos diferentes tipos de registros. Até mesmo as poucas reconstruções que vimos soam reais aumentando gradativamente a tensão vigente na obra. Por outro lado, a fluidez da narrativa é consideravelmente prejudicada pela própria composição do longa. Logo nos primeiros minutos Theresa nos revela seu objetivo, sua tese e, desde já, insere seu primeiro (e forte) argumento, sua prova das ações de um grupo de violentos policiais. O que vemos a seguir é uma repetição disso que já sabemos logo no início – as entrevistas atuam à princípio para solidificar esse ponto de vista, mas logo se tornam enfadonhas, não oferecendo nada de novo.

A partir da metade da projeção, portanto, o filme assume um caráter repetitivo, nos cansando da mesmice que enxergamos na primeira metade. As imagens fortes conseguem atingir o espectador e criam a percepção de que algo precisa ser feito em relação a essa corrupção policial. A tese, contudo, já está pronta nos primeiros quarenta e cinco minutos e acaba se estendendo por um tempo indevido, que acaba a enfraquecendo. Felizmente, o longa consegue se sustentar pela fotografia, ainda que estática, mas emblemática, bem representando a opressão sobre essa parcela da população.

À Queima Roupa causa um grande impacto no espectador logo no seu princípio, mas tal efeito vai minguando ao longo da projeção. Ainda é um documentário que merece ser assistido, mas, definitivamente não carrega o mérito de uma premiação. Por mais que nos conscientize sobre um assunto de urgência, como filme não se sustenta por toda a sua duração, cansando o espectador logo em sua metade.

À Queima Roupa (idem – Brasil, 2014)
Direção:
 Thereza Jessouroun
Roteiro: Thereza Jessouroun
Duração: 90 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.