Crítica | A Rainha de Versalhes

Queen of Versailles, Jackie Siegel

Este texto faz parte da cobertura do Festival do Rio 2012, que trará diversas críticas de filmes ainda inéditos no Brasil. Clique aqui e confira todo o conteúdo desse especial.

O Palácio de Versalhes começou a ser construído pelo rei Luís XIV da França e Navarra, em cima de um alojamento para caçadas feito por seu antecessor, o rei Luís XIII. Expandindo radicalmente a estrutura, para, à época (século XVII), transformá-lo em um dos maiores castelos existentes, o Rei Sol acabou transferindo o governo francês para lá, o que contribuiu para transformar Versalhes, ao longo do tempo, em um símbolo duplo: de suntuosidade e poder de um lado e de decadência do outro. Versalhes continua lá, sendo visitado por milhões de turistas o ano inteiro, mas a aristocracia cambaleante que ocupou seus corredores foi, toda ela, degolada.

E é muito interessante ver a história se repetir, dessa vez em um microcosmo de um bilionário, seus sonhos de grandeza e sua queda repentina. É isso que conta o ótimo e angustiante documentário A Rainha de Versalhes, dirigido por Lauren Greenfield, cujo trabalho arrebatou o prêmio de direção de documentário no festival de Sundance desse ano.

Mas o objetivo não era exatamente mostrar ascensão e queda de um magnata. Afinal de contas, as filmagens principais começaram antes da bolha de 2008 estourar.

Assim, somos apresentados a um casal próspero. David Siegel, um senhor de 70 anos que se tornou bilionário por ter sido um dos pioneiros de vendas de pacotes de timeshare. Para quem não sabe, timeshare é o sistema pelo qual vende-se apartamentos completamente mobiliados para determinada pessoa, que só pode usá-lo durante alguns dias por ano. Daí o nome em inglês, que significa “compartilhamento de tempo”. Com isso, uma mesma unidade em imóvel de luxo (marca registrada do empreendimento de Siegel) podia ser vendida, na prática, 52 vezes por ano, imaginando-se sete dias para cada pessoa/família, claro. Era o sonho americano tornando-se realidade: indivíduos que não podiam nem comprar casa própria, passaram a ser donas de alguns dias de férias em local determinado, por prestações módicas mensais. E, como não existe povo que goste mais de prestação do que o americano (nem nós gostamos tanto assim!), as vendas subiram como um foguete e Siegel expandiu incrivelmente ao longo das décadas.

Sua cara metade é uma ex-Miss America, Jacqueline Siegel, uma mulher ainda bonita, mas provavelmente cheia de retoques cirúrgicos, com 30 anos a menos que o marido. Ela é a rainha do título, pois vive como uma. Não se preocupa com gastos e reclama que sua casa de três mil metros quadrados já não comporta mais a quantidade de roupas, joias, brinquedos (o casal tem um penca de fihos e uma agregada, além de vários animais domésticos) e outras compras e, por isso, os dois, em visita ao Palácio de Versalhes original, decidiram construir uma réplica de oito mil metros quadrados em Orlando, com vista para os fogos de artifício diários do Magic Kingdom. Surreal, não?

Mas, com 50% da nova Versalhes completa, a bolha imobiliária do sub-prime explodiu e o sonho fútil e brega de ter um palácio em Orlando foi para o espaço. Siegel, que vivia de pegar dinheiro barato emprestado para construir unidades e vendê-las a crédito para um enorme número de pessoas com o mesmo sonho fútil e brega que ele, viu a mecânica de seu mundo financeiro explodir. Como ele não é um daqueles milionários com investimentos espalhados em diversos ativos, aquele seu mundinho começou a entrar em rápido colapso, rumo à entropia.

No entanto, a rainha continuou comprando brioches. Os problemas, para ela, seriam passageiros e não teria problema se, de bilionários, transformassem-se em meros milionários. A ingenuidade de Jacqueline é quase inacreditável, especialmente porque ela faz questão de dizer que, diferente das outras moças bonitas de sua época, ela estudou e se formou em engenharia antes de cair no mundo da moda e dos desfiles. Ou seja, se isso é verdade, ela teria capacidade de entender a gravidade do problema.

Acontece que não teve e Jacqueline, ainda que de forma relutante, também começa a ver seu mundinho do “eu, eu, eu” ruir. Primeiro, sente falta das dezenas de empregados que tinha. Agora, tem que viver com “apenas” três ou quatro que, numa casa gigante, com diversas crianças e animais, significa sujeira para tudo quanto é lado, literalmente com fezes pelo chão (sim, literalmente). É óbvio que as crianças, assim como ela, são imprestáveis e não levantam um dedo para ajudar em absolutamente nada e ainda ganham presentes a todo minuto.

Em determinado momento, não tem como não rir da afirmação de Jacqueline de que seus filhos, quando viajaram pela primeira vez de avião comercial, perguntaram o que aquele monte de pessoas estava fazendo no avião deles. Ela própria, ao ser obrigada a alugar um carro na Hertz, indaga do balconista o nome do motorista dela.

É um mundo que é difícil de imaginar, mas que existe de verdade. Só que é complicado sentir efetivo compadecimento pelos problemas de Jacqueline. Não que não sejam sérios, mas sua inocência (falsa ou não, fica difícil saber) irrita qualquer um. Só para se ter uma ideia, no auge de sua “pobreza”, ela diz que, provavelmente, terá que se acostumar a viver como “qualquer um”, com um apartamento de 400 metros quadrados, de 300 mil dólares. Dá vontade de entrar pela tela e esganar a mulher.

David Siegel sim se mostra alguém à beira do desespero total, quando vê seu enorme prédio em Las Vegas ser tomado pelo banco em razão de suas dívidas. Também vê seu Versalhes ser largado às moscas completamente. Ele reconhece o valor do dinheiro, mas, outro lado, nós sabemos e ele também sabe que, apesar de vítima, é também algoz. Afinal de contas, seu sistema de timeshare nada mais é do que uma forma de contribuir para o endividamento da população americana que viu seu tapete ser retirado debaixo de seus pés na noite para o dia.

O documentário tem direção e edição seguras, cumprindo sua função de desesperar o público e de trazer uma visão diferente sobre o problema que já foi objeto de diversos filmes, inclusive de um ótimo documentário, laureado com o Oscar, chamado Trabalho Interno. A Rainha de Versalhes encara o mesmo problema sob outro ângulo e tenta não julgar, mas a ações dos protagonistas falam por si próprias e qualquer espectador sairá revoltado.

A Rainha de Versalhes (The Queen of Versailles, EUA/Holanda/Inglaterra/Dinamarca, 2012)
Direção: Lauren Greenfield
Elenco: David Siegel, Jacqueline Siegel, Virginia Nebab
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.